sábado, 22 de setembro de 2012

Para Ferreira Gullar, o capitalismo é “invencível”

Ferreira Gullar - Foto VEJA

Achei bem interessante a entrevista do poeta Ferreira Gullar publicada nas páginas amarelas da revista VEJA que está chegando às bancas neste final de semana.

Aos 82 anos de idade, ex-militante do Partido Comunista Brasileiro, Gullar foi exilado politico no tempo da ditadura militar. Durante esse período, morou na antiga União Soviética, no Chile e na Argentina. Hoje, ele é um desiludido com o socialismo. Afirma que não houve nenhum fato determinado que o fez se desencantar com o pensamento de esquerda. Foi, segundo ele, uma questão de reflexão, de experiência de vida, de as coisas irem acontecendo, não só com ele, mas no contexto internacional. “É fato que as coisas mudaram. O socialismo fracassou. Quando o Muro de Berlim caiu, minha visão já era bastante crítica. A derrocada do socialismo não se deu ao cabo de alguma grande guerra. O fracasso do sistema foi interno. Voltei a Moscou há alguns anos. O túmulo de Lenin está ali na Praça Vermelha, mas pelo resto da cidade só se veem anúncios da Coca-Cola. Não tenho dúvida nenhuma de que o socialismo acabou, só alguns malucos ainda insistem no contrário. Se o socialismo entrou em colapso quando ainda tinha a União Soviética como segunda força econômica e militar do mundo, não vai ser agora que esse sistema vai vencer”, diz Gullar.

Para Gullar, o capitalismo do século XIX era realmente uma coisa abominável, com um nível de exploração inaceitável. “As pessoas com espírito de solidariedade e com sentimento de justiça se revoltaram contra aquilo. O Manifesto Comunista, de Marx, em 1848, e o movimento que se seguiu tiveram um papel importante para mudar a sociedade. A luta dos trabalhadores, o movimento sindical, a tomada de consciência dos direitos, tudo isso fez melhorar a relação capital-trabalho. O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produz a riqueza é o trabalhador e o capitalismo só o explora. É bobagem. Sem a empresa, não existe riqueza. Um depende do outro. O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas. A visão de que só um lado que produz riqueza e o outro só explora é radical, sectária, primária. A partir dessa miopia, tudo o mais deu errado para o campo socialista. Mas é um equívoco concluir que a derrocada do socialismo seja a prova de que o capitalismo é inteiramente bom. O capitalismo é a expressão do egoísmo, da voracidade humana, da ganância. O ser humano é isso, com raras exceções. O capitalismo é forte porque é instintivo. O socialismo foi um sonho maravilhoso, uma realidade inventada que tinha como objetivo criar uma sociedade melhor. O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível. A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro. É óbvio que um governo central com seis burocratas dirigindo um país não vai ter a capacidade de ditar rumos a esse milhões de pessoas. Não tem cabimento”, declarou Gullar.

“EU, DE DIREITA?
ERA SÓ O QUE FALTAVA”

Perguntado se se considerava de direita, Gullar disse: “Eu, de direita? Era só o que faltava”. Para ele, a questão é muito clara. “Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, tudo o mundo é. Pensar isso a meu respeito não é honesto. Porque o que estou dizendo é que o socialismo acabou, estabeleceu ditaduras, não criou democracia em lugar algum e matgou gente em quantidade. Isso tudo é verdade. Não estou inventando.

CUBA

Sobre Cuba, Ferreira Gullar disse que não pode defender um regime sob o qual ele não gostaria de viver. “Não posso admirar um país do qual eu não posso sair na hora que quiser. Não dá para defender um regime em que não se possa publicar um livro sem pedir permissão ao governo. Apesar disso, há um aporção de intelectuais brasileiros que defendem Cuba, mas, obviamente, não querem viver lá de jeito nenhum. É difícil para as pessoas reconhecer que estavam erradas, que passaram a vida toda pregando uma coisa que nunca deu certo”.

Perguntado sobre como define sua visão política, Ferreira Gullar disse que não acha que o capitalismo seja justo. “O capitalismo é uma fatalidade, não tem saída. Ele produz desigualdade e exploração. A natureza é injusta. A justiça é uma invenção humana. Um nasce inteligente e o outro burro. Um nasce atlético, o outro aleijado. Quem quer corrigir essa injustiça somos nós. A capacidade criativa do capitalismo é fundamental para a sociedade se desenvolver, para a solução da desigualdade, porque é só a produção de riqueza que resolve isso. A função do estado é impedir que o capitalismo leve a exploração ao nível que ele quer levar”, aduziu Gullar.

Apesar de ter sido do Partido Comunista durante a época da ditadura militar, Ferreira Gullar disse que era um “moderado”. Por isso, nunca defendeu a luta armada, que, para ele, só ajudou mesmo a justificar a ação da linha dura da ditadura militar que queria aniquilar seus oponentes. “Quando fui preso, em 1968, fui classificado como prisioneiro de guerra. O argumento dos militares era, e é, irrespondível: quem pega em armas quer matar, então deve estar preparado para morrer”.

No entanto, para ele, quem aderiu à luta armada foram pessoas generosas, íntegras, tanto que algumas sacrificaram sua vida, mas, segundo ele, por um equívoco. “Você tem de ter uma visão crítica das coisas, não pode ficar eternamente se deixando levar por revolta, por ressentimentos. A melhor coisa para o inimigo é o outro perder a cabeça. Lutar contra quem está lúcido é mais difícil do que lutar contra um desvairado”, disse Ferreira Gullar.

Na entrevista, Ferreira Gullar fala também de seu drama familiar. Ele teve dois filhos atingidos pela esquisofrenia, sendo que um deles faleceu. As experiências que teve com o problema dos filhos fê-lo ser um defensor da internação em hospital psiquiátrico dos casos em fase aguda. “Quando a pessoa entra em surto, ela pode se jogar pela janela. Meu filho, o Paulo, se jogou. Hoje ele anda mancando porque sofreu uma lesão na coluna. Ele conversava comigo, via televisão, brincava, lia meus poemas. Em surto, não tinha controle. Queria estrangular a empregada. Nessa hora, a única maneira é internar e medicar. Nesse estado, sem nenhum socorro, o esquisofrênico pode fazer qualquer coisa”.

domingo, 2 de setembro de 2012

Creches para idosos

Conforme matéria do jornal FOLHA DE S. PAULO de 02 de setembro de 2012, domingo, a nova moda agora em São Paulo são as creches para vovôs e vovós. Esse novo tipo de negócio tem crescido em São Paulo (Capital). Alguns já nasceram como creches ou centros-dia -como preferem chamar certos especialistas. Além disso, casas de repouso também estão aproveitando o espaço ocioso que têm para atender a idosos por diárias. Alguns chegam a oferecer serviço de transporte (leva e traz).

"As creches são uma tendência. É bom negócio para as casas de repouso porque aproveitam a estrutura física e de pessoal que já têm. E resolve o dilema das famílias que não querem deixar seu idoso asilado", afirma Eduardo Bonini, consultor na área de gerontologia, ouvido por Cláudia Collucci, da FOLHA.

Essas instituições funcionam assim: os idosos chegam pela manhã, trazidos por familiares. Ali, eles fazem de quatro a seis refeições ao dia e desenvolvem várias atividades monitoradas, como desenho e canto. Também têm sessões de fisioterapia e fonoaudiologia. No final do dia, às vezes já de banho tomado, voltam para suas casas.

"Facilitou minha vida e minha mãe está mais feliz. Não tenho paciência e nem formação para cuidar dela o dia todo", diz a bancária aposentada Marilisa Bradbury.

A mãe dela, Rebecca, 79, com diagnóstico de demência senil, frequenta uma creche, na zona leste de São Paulo, cinco dias por semana.

Em geral, os usuários das creches são idosos fragilizados. Ou seja, têm doenças como Alzheimer ou Parkinson, ou sequelas de derrame. Estima-se que em São Paulo existam ao menos 350 mil idosos com esse perfil.

"Esses idosos não aparecem. São aqueles debruçados nas janelas dos apartamentos ou no fundo dos quintais. São invisíveis para a sociedade", afirma Edelmar Ulrich, 60, presidente da Associação dos Familiares e Amigos dos Idosos (Afai).

Ele e um grupo de familiares de idosos criaram uma creche depois que o local que frequentavam foi fechado. Cada família paga entre R$ 580 e R$ 850 mensais. Hoje, existe fila de espera. Em outras creches, cujas diárias chegam a R$ 130, há vagas.

POLÊMICA

O termo creche é polêmico. Especialistas em envelhecimento dizem que ele é pejorativo, infantiliza o idoso. "É lamentável chamar de creche. Mesmo no caso de pessoas com demência é fundamental manter sua autonomia, respeitar seus desejos. Não é uma criança", diz o médico Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade.

Já os proprietários desses centros até usam o nome como marketing. "Já tentamos centro-dia, centro de vivência, mas o que pegou mesmo é creche ou escolinha", diz Neli Gaeta, sócia do Centro de Vivência Solar Flor de Lis.

Ex-diretor na OMS na área de envelhecimento, Kalache aprova o conceito dos centros-dia. "Eles ajudam o idoso a preservar a dignidade, aumenta a sociabilização e estimula as funções físicas e mentais remanescentes."

Mas ele alerta que a falta de uma regulamentação clara sobre o funcionamento dos serviços pode gerar abusos. "Vira um depósito de idosos."

CRECHE PÚBLICA PARA IDOSOS

Segundo a FOLHA, está tramitando na Câmara de São Paulo um projeto de lei que prevê a criação de creches públicas para idosos, dentro de um programa social voltado para a terceira idade. A população idosa no município da Capital é de 12%.

"É fundamental termos políticas públicas não só para esse idoso que tem família e que pode voltar para casa no final do dia, como para aquele que já foi abandonado pelos familiares", diz Hélio de Oliveira, responsável pela coordenadoria do idoso do município.

Parte desses idosos sem apoio familiar é atendida hoje por um programa de acompanhamento de idosos, da Secretaria Municipal da Saúde. Os acompanhantes levam os idosos ao médico, supervisionam a alimentação e higiene pessoal e ajudam na manutenção da casa. O programa atende hoje a cerca de 2.700 idosos.

As informações são de Cláudia Collucci, do jornal FOLHA DE S. PAULO, edição de domingo, 02/09/2012.