segunda-feira, 30 de novembro de 2015

OS PERIGOS DA DOUTRINAÇÃO IDEOLÓGICA E/OU RELIGIOSA

Melita Maschmann

Algum tempo atrás, lendo “GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA HISTÓRIA DO MUNDO*, um interessante livro do jornalista e escritor Leandro Narloch, deparei com a curiosa história de Melita Maschmann (1918-2010), que, na década de 30 do século passado, era uma jovem alemã, com todo um futuro pela frente e uma vida tranquila e confortável com seus pais. No entanto, encantada com o discurso de Adolf Hitler e com as ideias nazistas, decidiu engajar-se na Juventude Hitlerista. Em sua biografia, escrita em 1965, ela afirma que queria fugir da “vidinha pequena e infantil” que levava com seus pais e se engajar em alguma coisa “grande e fundamental”. Como muitos jovens alemães de sua época, Melita decidiu colar uma suástica em seu braço e integrar o movimento político que prometia recuperar o orgulho do povo alemão. Inicialmente, o interesse de Melita eram os esportes, as caminhadas e os acampamentos promovidos pela Juventude Hitlerista, atividades aparentemente inocentes. Porém, não tardou muito para que ela começasse a se interessar também por questões políticas. Acabou se tornando líder da Liga das Moças Alemãs, que era a ala feminina da Juventude Hitlerista. Melita estava, enfim, doutrinada. O Nazismo acabara de cooptar mais um componente para seu exército jovem e idealista, que defenderia o chamado “Terceiro Reich”.

Melita escreveu em suas memórias: “Minha família tinha planos conservadores para mim. Na boca de meus pais, as palavras ‘social’ e ‘socialismo’ tinham sempre um tom de desprezo. Mas eu acreditava nos nazistas quando eles propunham acabar com o desemprego e tirar 6 milhões de pessoas da pobreza. Eu acreditava neles quando diziam que iriam unificar a nação alemã, então dividida em mais de 40 partidos e superar as consequências ditadas no Tratado de Versalhes”.

Mesmo contra a vontade de seus pais “conservadores”, a jovem Melita Maschmann passou a se dedicar integralmente aos ideais nazistas. Em 1942, viajou para a Polônia, então ocupada pelo exército alemão, para fazer um trabalho voluntário. Com apenas vinte e três anos de vida, era a mais velha de um grupo de doze colegas. A vida na Polônia não era nada fácil, sem regalias e sem confortos, mas isso parecia só aumentar o espírito de aventura da empreitada. O trabalho de Melita não era dos mais “limpos”. Os nazistas expulsavam os judeus e eslavos de suas casas nos povoados poloneses, para encaminhá-los aos campos de extermínios. Em seus lugares, isto é, nas casas antes ocupadas pelos judeus e eslavos, colocavam descendentes de alemães. A função de Melita e de suas colegas era entrar nas casas desocupadas dos judeus e eslavos, limpá-las, rearranjar os móveis, queimar fotografias e objetos pessoais sem valor. Quando os novos moradores chegavam, Melita e suas colegas organizavam aulas de alemão e de teoria racial para os novos assentados. Até o fim da guerra, Melita Maschmann trabalhou incansavelmente em seu projeto de “mundo melhor”. Mesmo depois do suicídio de Hitler, da rendição alemã, do Tribunal de Nuremberg, Melita Maschmann demorou cerca de doze anos para se “desintoxicar” das ideias nazistas.

Apesar de todo avanço tecnológico, a arma mais poderosa usada pelo homem para dominar e manipular seus semelhantes continua sendo a palavra, ou seja, a doutrinação, ou, usando uma expressão mais popular, a “lavagem cerebral”. Muitas vezes, mesmo pessoas aparentemente inteligentes, bem formadas e informadas, estão sujeitas a serem doutrinadas e manipuladas por alguma corrente ideológica ou religiosa, sem que elas mesmo se apercebam disso.

As pessoas, muitas vezes encantadas e até inebriadas com o discurso de algum líder político, religioso ou filosófico, acabam sendo envolvidas por sua eloquência, por sua pregação, por seu palavreado bonito, envolvente, pela promessa de um mundo melhor ou coisas desse tipo. Geralmente, qualquer nova corrente religiosa, filosófica ou política tem por estratégia prometer um “mundo melhor” aos seus neófitos. A caminhada, a luta, a empreitada pode até envolver sacrifícios, mas o objetivo final sempre compensa: um mundo melhor, aqui ou no paraíso. Por mais altruísta que seja, todo ser humano pensa em si, na recompensa que virá, na Terra ou em “outro mundo”.

A doutrinação político-ideológica e/ou religiosa é um vírus que infesta o mundo há muitos séculos e tem ajudado a formar verdadeiros exércitos de “idiotas úteis”, de milhões de pessoas manipuladas, para as mais variadas finalidades, que, na maioria das vezes, não são nenhum pouco nobres. Como ocorreu no caso de Melita Maschmann, o Nazismo se apresentou a ela como algo bom, positivo, que resolveria os problemas da Alemanha, acabando com as injustiças sociais, com o desemprego, oferecendo a todos um “mundo melhor”. Atualmente, por exemplo, a mesma estratégia é muito utilizada por grupos de radicais islâmicos, que têm cooptado milhares de jovens europeus de famílias muçulmanas. O mais conhecido desses grupos é o terrível e sanguinário Estado Islâmico.

No Brasil, especificamente, o que mais preocupa são a doutrinação religiosa cristã e a doutrinação ideológica de “esquerda”, de orientação marxista-leninista. No entanto, tem crescido, também, nos últimos tempos, movimentos mais conservadores, rotulados de “direita”. Mas são movimentos muito fragmentados, de diversas nuances ideológicas, muitos deles ligados a correntes religiosas mais conservadoras.

A doutrinação religiosa cristã no Brasil tem como principal alvo as pessoas mais humildes, com formação escolar precária, por serem, obviamente, muito mais fáceis de serem doutrinadas e manipuladas. O instrumento utilizado pelos doutrinadores religiosos é a Bíblia, o livro sagrado do Cristianismo, que, com seus textos complexos, que dão margem a múltiplas interpretações, fornece todos os elementos necessários para a doutrinação de milhões de pessoas, que, obviamente, por terem pouca ou nenhuma formação escolar e intelectual, dificilmente questionarão os argumentos e os “ensinamentos” de seus doutrinadores.

Apesar de sua banalização entre as pessoas religiosas, o conteúdo das escrituras sagradas do Cristianismo não é para qualquer um, por ser de difícil entendimento e interpretação. É preciso saber que a Bíblia é uma coletânea de vários textos antigos, escritos por vários autores hebreus, anônimos, de diferentes gerações, ao longo de cerca mil e quinhentos anos, em hebraico, aramaico e grego koinê. Como foram escritos há muitos séculos, em idiomas antigos, por vários autores, de um povo que tinha uma cultura e uma visão de mundo totalmente diferente da nossa, isto é, de hoje em dia, os textos bíblicos têm que ser contextualizados com muito cuidado e, principalmente, à luz de conhecimento histórico e geográfico da época e dos lugares em que se passaram os fatos narrados. Além disso, segundo alguns especialistas, as traduções dos textos bíblicos para as línguas contemporâneas os empobrece um pouco, em comparação com suas versões nos idiomas originais, já que as línguas antigas tinham uma estrutura sintática e semântica diferente da grande maioria dos idiomas falados e escritos atualmente, com muitas variantes, que dificultam bastante a conversão de textos para os idiomas contemporâneos. Portanto, para tentar estudar e conhecer bem os textos bíblicos, é recomendável – mas não essencial - que o interessado conheça os idiomas em que eles foram escritos originalmente. Além disso, é preciso entender que os autores bíblicos estavam mais preocupados em transmitir ensinamentos de crença e fé do que em fidelidade histórica. Muitos dos casos narrados nos textos bíblicos não foram testemunhados pelos autores bíblicos, mas chegaram até eles por meio de seus ascendentes, através da literatura oral da época. Como os hebreus eram um povo que preservava as tradições de seus antepassados, as histórias eram transmitidas oralmente, de pai para filho, isto é, de uma geração para outra. Naquele tempo, ler e escrever era uma arte acessível a pouquíssimos, isto é, restrita quase que exclusivamente aos escribas (escrivães). Na maioria das vezes, nem os reis e a aristocracia sabiam ler e escrever. Era uma arte, na época, como acontecia, por exemplo,  com os computadores nos anos 60 e 70, que só podiam ser utilizados por pessoas iniciadas. Portanto, a maioria absoluta das pessoas daquele tempo não sabia ler nem escrever. Como essas histórias eram contadas e recontadas oralmente por gerações, é possível que elas tenham chegado aos autores bíblicos já distorcidas, com acréscimos, decréscimos, omissões e adições. No entanto, os cristãos acreditam que a Bíblia teria sido escrita “sob a inspiração divina” e, por isso, seria a “Palavra de Deus” aos homens. Mas essa é uma questão de fé, que tem que ser respeitada, mas que, dentro do contexto histórico e científico deste texto, não vamos aqui analisar.

Em suma, diante de tanta complexidade, podemos concluir que os textos bíblicos oferecem os ingredientes perfeitos para serem usados como instrumentos de doutrinação e manipulação.

Claro que a doutrinação religiosa, por si só, não constitui nenhum perigo para o indivíduo nem para a sociedade. Quando o objetivo é somente a divulgação da fé, ela pode até ser saudável. O grande perigo está nas intenções que estão por trás de um processo de doutrinação religiosa. Muitas vezes, o objetivo é garantir um poder de manipulação de um grande número de pessoas, que, doutrinadas, tornam-se perfeitos “idiotas úteis” para um líder religioso ou para uma instituição com objetivos não muito nobres.

A doutrinação ideológica, hoje em dia, em plena era da informação, talvez não tenha tanta chance de ser abrangente e bem-sucedida como ocorreu com o nazifascismo, na Europa, nos anos 20 e 30 do século passado, mas ela, obviamente, não deixou de existir. No Brasil, por exemplo, ela está presente, principalmente em escolas, universidades, movimentos sociais, sindicatos e entidades congêneres. Seu grau de periculosidade é relativo, dependendo, obviamente, do conteúdo e dos objetivos do processo de doutrinação. No Brasil e em toda a América Latina, a predominância é da doutrinação ideológica de esquerda (marxista-leninista). Curioso é que, com a queda do Muro de Berlim, em 1989, o fim da União Soviética e a derrocada do comunismo, no início dos anos 90, a chamada “esquerda” sofreu um baque, o que fez muita gente pensar que seria o fim da chamada utopia socialista/comunista. Não foi. Muitos partidos de esquerda se renovaram diante da nova ordem mundial que surgia, como, por exemplo, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), o velho “partidão”, que abandonou velhos conceitos de esquerda, adotou uma nova concepção de socialismo, mais voltado para a social-democracia, mudando até de nome da agremiação, passando a se chamar Partido Popular Socialista, PPS. Contudo, outros segmentos da esquerda, apesar da nova realidade geopolítica mundial, mantiveram-se fiéis ao sonho de construir uma sociedade moldada rigorosamente no receituário marxista-leninista, alegando que o “verdadeiro socialismo” ainda não aconteceu e que as experiências vividas até o início dos anos 90, na União Soviética, na Europa Oriental, na China, Coreia do Norte, no Vietnan, Camboja, Albânia e Cuba, que se transformaram em regimes autoritários, estavam longe de ser o verdadeiro socialismo/comunismo.

A ditadura militar (1964-1985), com truculência, perseguições, torturas, mortes e censura, e a forte influência da “esquerda” na mídia e nos movimentos culturais nas últimas décadas enfraqueceram bastante os discursos da chamada “direita” no Brasil. O vínculo que se criou, um tanto errôneo e arbitrário, entre “ditadura militar” e a palavra “direita” fez com que se estabelecesse aqui uma impropriedade semântica: ser “de direita” no Brasil passou a ser um pecado, um crime. No entanto, com o tempo, isso foi mudando, e os movimentos mais conservadores, rotulados de “direita”, estão crescendo novamente no Brasil, principalmente, e surpreendentemente, entre os jovens. Aliás, a sociedade brasileira, em sua grande maioria, sempre foi e continua sendo bastante conservadora. Em razão disso, mesmo esses segmentos “de direita” não possuindo muito espaço na chamada “grande mídia”, eles exercem grande influência no modo de pensar da grande maioria do povo brasileiro. Uma das razões disso é que boa parte desses segmentos recebe forte influência religiosa, principalmente dos setores mais conservadores da Igreja Católica e de igrejas evangélicas. Não podemos nos esquecer de que nunca antes na história deste país tanta gente frequentou igrejas como agora. Os templos, principalmente os de denominações evangélicas, vivem lotados de fiéis. Esse aumento espantoso de religiosidade na população brasileira nos últimos anos fez com que houvesse, obviamente, um processo de reconservadorização da maior parte da sociedade brasileira. Curiosamente, há aí um processo de doutrinação religiosa que pode resvalar para a doutrinação também ideológica.

Para concluirmos nossas conjecturas, vamos tentar saber, então, quais seriam, afinal, os efeitos danosos da douinação ideológica e/ou religiosa. Isso depende de uma série de fatores relacionados à pessoa doutrinada, entre os quais sua formação cultural e religiosa, sua personalidade, suas condições emocionais, seus conceitos de vida, etc. Mas os efeitos podem variar da limitação do horizonte intelectual e cultural do doutrinado, passando pelo comprometimento de sua vida social, podendo chegar ao risco de transformá-lo em um completo fanático.

Uma pessoa com o horizonte intelectual limitado, decorrente de um processo de doutrinação intensa, a famosa “lavagem cerebral”, é aquela popularmente conhecida como “bitolada”, que tem uma compreensão ou uma visão do mundo, das coisas e da vida muito limitada. Parece que seu cérebro foi “reformatado”. Seu universo parece estar restrito àquilo que foi colocado em sua mente pelos seus doutrinadores. O que sair fora desses limites, a pessoa refuta, repele, desconsidera. No entanto, independentemente disso, ela pode até ter uma vida normal, possuir amigos e até uma vida social intensa. Há, no entanto, casos em que a pessoa passa a ter dificuldades de se relacionar com parentes e amigos. Ela se torna a “chata” ou o “chato” da turma, que todos começam a evitar, por não suportar mais suas ideias fixas de religião, ou de ideologia, ou de política. Como a pessoa julga-se descobridora da “Verdade”, achando que encontrou a “luz”, convence-se de que tem a obrigação de “salvar a humanidade”, de disseminar suas ideias “revolucionárias” ou “salvadoras”. Esse ou essa já está a um passo do fanatismo.

Somente uma formação intelectual e cultural sólida não é o bastante para proteger alguém de um processo de doutrinação. É preciso que a pessoa tenha, acima de tudo, um senso crítico apurado. Foi dito sempre aos fiéis das religiões do mundo: não questione. Creia. Eu, porém, lhes digo que não devem somente crer, mas questionar também. Pergunte, pesquise, duvide. Só a dúvida leva ao conhecimento. Não aceite uma ideia de pronto somente porque ela lhe parece bonita, bem-intencionada. Eu não diria que ninguém é dono da verdade. Mas, com certeza, ninguém, até hoje, conseguiu provar ser o dono da verdade. Então, não se deixe levar por oradores eloquentes, por discursos bonitos. Cuidado quando sentir aquela impressão de que “ele ou ela está dizendo justamente aquilo que eu precisava ouvir”. É justamente aí que pode estar a armadilha. Não se deixe enganar pelos falsos heróis, pelos falsos defensores dos pobres e oprimidos. Como diz a sabedoria popular, o inferno está repleto de bem-intencionados.

________________

* NARLOCH, Leandro, Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, São Paulo, Leya, 2013, pgs. 199 e 202.

sábado, 14 de novembro de 2015

Terrorismo islâmicos? O que fazer com eles?

O que aconteceu na última sexta-feira, dia 13 de novembro de 2015, em Paris, aquela tragédia terrível, aquele banho de sangue, só tem uma explicação lógica: se você cria monstros, acaba tendo que conviver com eles.

Ao longo das últimas décadas, especialmente durante a chamada “Guerra Fria”, as grandes potências, como Estados Unidos e seus aliados, assim como a União Soviética e seus satélites comunistas, financiaram grupos de guerrilha muçulmanos para lutarem a seu favor nos vários conflitos regionais que patrocinaram, componentes sujos da disputa ideológica e econômica que travavam entre si naquela época.


Os Estados Unidos, por exemplo, financiaram, nos anos 80, guerrilheiros islâmicos para lutarem contra a União Soviética, que havia invadido o Afeganistão. Com isso, criaram Bin Laden e a Al Qaeda. A união Soviética e seu herdeiro natural, o governo russo nacionalista de hoje, submeteram e submetem até hoje vários povos muçulmanos ao seu jugo.


O que esperar disso? A “Guerra Fria” acabou há um bom tempo, mas os mesmos erros continuam sendo cometidos, por parte dos Estados Unidos, que têm um presidente, hoje, curiosamente, de centro-esqurda, e de seus aliados ocidentais, e por parte da Rússia, que tem um presidente, hoje, curiosamente, também, populista, nacionalista e de direita.


E os monstros criados por eles estão aí, cometendo atrocidades, como as que aconteceram na última sexta à noite em Paris. O que fazer com eles?  

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Não me esqueci deste espaço...

Quem, porventura, abre este blog, tem se decepcionado, pois faz um bom empo que não psoto nada aqui. Mas eu não abandonei este espaço. Em breve devo voltar a postar aqui minhas ideias, minhas opiniões, enfim, aquilo que eu penso e acho que devo deixar registrado publicamente. Já tenho um texto quase pronto para publicar aqui, mas ele é um tanto delicado e polêmico. Por isso, estou tendo um certo cuidado em redigi-lo. 

Por isso, dentro de alguns dias, deve ter algo novo por aqui.