De repente, a região da Rua 25 de
Março, em São Paulo, um dos maiores centros de comércio popular do
mundo, é invadida por mais de um milhão de pessoas, ávidas por
comprar presentes e enfeites de todo o tipo. As lojas dos centros das
cidades e os shopoings centers começam a ficar cada vez mais
movimentados à medida que o final do ano se aproxima. É um dos
primeiros sintomas de que o Natal está chegando. É a época em que
a gente começa, de novo, como acontece todo ano, a ouvir os acordes
da harpa de Luis Bordon.
A propósito, você sabe quem foi Luis
Bordon? Lembra daquelas músicas de Natal ao som de harpa que toca
todo ano, principalmente ao fundo das propagandas natalinas? Foi esse
Luis Bordon, com sua harpa e seu conjunto, que gravou, na década de
60. Ele era um harpista paraguaio, mas vivia no Brasil. Não podemos
nos esquecer, também, daquela música do Lenon, com versão em
português gravada pela Simone, aquela que, sinceramente, ninguém
aguenta mais... “Então é Natal”. Mas, para nosso desespero,
continuam tocando essa música quando o Natal se aproxima.
Mas o que é o Natal? Que data mágica
é essa, que mexe com praticamente o mundo todo? Pouca gente, no
entanto, sabe exatamente o que é o Natal.
“Ah, o Natal é a comemoração do
aniversário de Jesus Cristo, pois ele nasceu no dia 25 de dezembro,
não é isso?”
Não, não é isso. Se você ainda
acredita que o Natal é a comemoração do aniversário de nascimento
de Jesus Cristo, provavelmente, deve acreditar, também, em cegonha,
bicho-papão, fadinha mágica e até em Papai Noel.
Acredite: a festa que nós chamamos
hoje de Natal, originariamente, nada tem a ver com o nascimento de
Jesus Cristo. Nada, absolutamente nada. Além disso, o Natal foi, na
verdade, o primeiro e creio que o maior golpe de marketing
religioso, político e comercial da história da humanidade. Acredita? Não?
Então, vamos aos fatos, baseado, obviamente, no que diz a História,
e não em maras teorias conspiratórias. Não tenha preguiça de ler,
porque a história é um pouco longa, mas muito interessante. Vale a
pena saber.
Para entender isso melhor, vamos ter
de voltar no tempo, há muitos e muitos séculos atrás, pois o Natal
é muito mais antigo do que o nascimento de Jesus Cristo. Dizem que a
celebração do que a gente conhece hoje como Natal antecede o
cristianismo em cerca de 2.000 anos. Isso mesmo. Por isso que eu
disse acima que o Natal, originariamente, não tem nada a ver com o
nascimento de Cristo.
Dizem tudo começou com um antigo
festival mesopotâmico que simbolizava a passagem de um ano para
outro, o Zagmuk. Para os mesopotâmios, o Ano Novo
representava uma grande crise. Devido à chegada do inverno, eles
acreditavam que os monstros do caos enfureciam-se. Marduk, o seu
principal deus, precisava, então, derrotar esses monstros para
preservar a continuidade da vida na Terra. O festival de Ano Novo,
que durava 12 dias, era realizado para ajudar Marduk em sua batalha.
A tradição dizia que o rei devia morrer no fim do ano para, ao lado
de Marduk, ajudá-lo em sua luta. No entanto, para poupar o rei, um
criminoso era vestido com as suas roupas e tratado com todos os
privilégios do monarca, sendo, então, morto. Dessa forma,
acreditavam que esse criminoso que morria no lugar do rei levava
todos os pecados do povo consigo. Assim, a ordem era restabelecida.
Como se vê, até naquele tempo os poderosos eram “blindados”.
Um ritual semelhante era realizado
pelos persas e babilônios. Chamado de Sacae, a versão também
contava com escravos que tomavam o lugar dos seus mestres. Também
havia “blindagem”.
A Mesopotâmia, chamada de mãe da
civilização, inspirou a cultura de muitos outros povos, como os
gregos, que englobaram as raízes do festival, celebrando a luta de
Zeus contra o titã Cronos. Mais tarde, através da Grécia, o
costume alcançou os romanos, sendo absorvido por um festival da
antiga Roma chamado de Saturnália ou Saturnalia (em
homenagem a Saturno). Essa festa, que já era, no seu formato, um
pouco semelhante ao “nosso” Natal, começava no dia 17 de
dezembro e ia até o 1º de Janeiro. Comemorava-se o solstício do
inverno. Solstício, para quem não sabe, é a época do ano em que o
Sol passa pela sua maior declinação boreal ou austral, e durante a
qual afasta-se do equador.
De acordo com cálculos dos romanos, o
dia 25 de dezembro era a data em que o Sol se encontrava mais fraco
(não podemos nos esquecer de que lá, na Europa, Hemisfério Norte,
nessa época, é inverno), porém tudo está pronto para recomeçar a
crescer e trazer vida às coisas da Terra. Durante a data, que acabou
conhecida como o "Dia do Nascimento do Sol Invicto"
ou Natalis Solis Invicti, as escolas eram fechadas,
ninguém trabalhava e eram realizadas festas nas ruas, grandes
jantares eram oferecidos aos amigos e árvores verdes - ornamentadas
com galhos de loureiros e iluminadas por muitas velas - enfeitavam as
salas para espantar os maus espíritos da escuridão. Os mesmos
objetos eram usados para presentear uns aos outros. Natalis Solis
Invicti, daí, provavelmente, o nome da data: Natal (natalis – dia
de nascimento).
Como você pode notar, essa festa
romana tinha já muito a ver com o Natal que comemoramos hoje em dia,
mas não tinha nada a ver, ainda, com o nascimento de Jesus Cristo.
Era uma festa pagã. Apenas após a cristianização do Império
Romano, é que o dia 25 de dezembro passou a ser considerada data de
celebração do nascimento de Cristo. E como foi isso? Será que
acharam a certidão de nascimento de Jesus lá na Galileia e
descobriram que ele nasceu em 25 de dezembro? Não, nada disso. É aí
justamente que vem o grande golpe de marketing do Império
Romano, então recém-adepto do cristianismo, e da Igreja Católica.
Conta a Bíblia que um anjo, ao
visitar Maria, disse que ela daria à luz o filho de Deus e que seu
nome seria Jesus. Quando Maria estava prestes a ter o bebê, ela e
seu marido José viajaram de Nazaré, onde viviam, até Belém, a fim
de realizar um recenseamento solicitado pelo imperador romano da
época (o Império Romano dominava a região da Palestina naquele
tempo). Diz a história oficial que esse recenseamento nunca ocorreu.
Não há nenhum registro dele nos anais da história romana. Mas isso
é outra história. A grande maioria dos historiadores afirma também
que Jesus teria nascido, na verdade, em Nazaré, e não em Belém.
Mas isso também é outra história. Vamos nos apegar, aqui, ao que
contam os evangelistas.
Segundo narram os evangelistas, quando
chegaram a Belém, numa noite fria, Jose e Maria não encontraram
nenhum lugar com vagas para pernoitar. Eles tiveram de ficar no
estábulo de uma estalagem. E ali mesmo, entre bois e cabras, Jesus
teria nascido, sendo enrolado com panos e deitado numa manjedoura,
que é uma espécie de tabuleiro no qual se coloca comida para os
animais. Pois é! Deu para notar que o povo daquela época ainda não
se preocupava muito com higiene. Eram outros tempos.
Conta, ainda, a tradição cristã que
pastores que estavam com seus rebanhos próximo do local foram
avisados por um anjo e visitaram o bebê. Magos do Oriente que
viajavam havia dias, seguindo uma estrela-guia, igualmente
encontraram o lugar e ofereceram presentes ao menino: ouro, mirra e
incenso, voltando depois para seus reinos e espalharam a notícia de
que havia nascido o filho de Deus.
No evangelho de Mateus, não há a
menção de que os magos vindos do Oriente eram reis e nem que eram
três. A versão sobre os três reis magos, que se chamavam Gaspar,
Melquior e Baltazar, foi acrescentada à tradição popular cristã
provavelmente por autores criativos da Idade Média.
Um outro fato curioso sobre Jesus é
que ele nasceu “antes de Cristo”. Pode parecer absurdo mas,
segundo os relatos dos evangelhos, Jesus teria nascido no tempo de
Herodes, o Grande. Como esse reinado terminou no ano 4 a.C., Jesus
não poderia ter nascido depois disso. O Herodes que aparece nos
evangelhos na fase adulta de Jesus, quando ele foi julgado e
crucificado, era Herodes Antipas, filho de Herodes, o Grande. Toda
essa confusão de datas se deva às sucessivas alterações feitas
nos calendários ao longo do tempo.
Pois é! Chegamos, então, ao "X"
da questão: apesar de toda essa narrativa bíblica, não há nenhum
registro de quando Jesus teria nascido.
Na verdade, a data de 25 de dezembro
foi instituída pela Igreja Católica Romana, provavelmente no século
IV, para desarraigar a tal festa pagã, que era justamente a
Saturnália (ou Saturnalia), em homenagem ao
"Nascimento do Sol Invicto" ou Natalis Solis Invicti,
da qual já falamos acima. Esse foi o objetivo da criação do Natal.
Note que eu disse criação. Sim, porque podemos dizer, seguramente,
que o Natal foi uma data INVENTADA pela Igreja Católica
Romana, a fim de passar a ser uma espécie de aniversário simbólico,
isto é, “de mentirinha,”de Jesus, uma vez que não se sabe a
data em que ele teria nascido. Os evangelistas não dizem porque,
para eles, afirmam os estudiosos da Bíblia, o importante era a
mensagem de Cristo, e não o rigor histórico.
Aliás, existem mil teorias sobre a
data ou época em que Jesus teria nascido circulando por aí. Muitos
livros e artigos já foram publicados, com cálculos de todos os
tipos, calendários, dizendo que Jesus teria nascido em tal data, ou
naquela outra, por causa disso ou daquilo, etc. Tudo conversa mole
para boi dormir. O certo é que ninguém sabe mesmo quando Jesus
nasceu, e provavelmente nunca saberá. O importante, para os
cristãos, é a mensagem e os ensinamentos que ele deixou, pelo menos
é isso que dizem os diversos segmentos cristãos.
Em verdade, parece que nem os próprios
autores dos evangelhos sabiam exatamente quando, como e onde Jesus
teria nascido. Toda essa história de manjedoura, pastores,
estrela-guia, magos, etc. foi extraída por eles da tradição oral
da época, por falta de informações históricas seguras. É quase
certo, portanto, que tudo tenha sido bem diferente daquilo que está
narrado na Bíblia sobre o nascimento de Jesus. Não podemos nos
esquecer de que os evangelistas não estavam preocupados com o rigor
histórico, e sim em transmitir a mensagem e os ensinamentos de
Jesus.
Por isso eu concluo que o Natal foi,
sim, a primeira grande jogada de marketing da história da
humanidade. O que a Igreja Católica queria realmente não era
simplesmente inventar uma data para comemorar o aniversário de
Jesus, e sim desarraigar uma festa pagã romana da época, muito
popular, cuja data principal era justamente o dia 25 de dezembro, e,
dessa forma, combater o paganismo. E deu certo. Deu tão certo que
provavelmente até você acreditava que o dia 25 de dezembro era
realmente a data do aniversário de Jesus Cristo, não é mesmo?
A maior parte dos historiadores afirma
que o primeiro Natal, como conhecemos hoje, foi celebrado no ano 336
d.C.. A troca de presentes, que já havia na Saturnália, passou a
simbolizar, para os cristãos, as ofertas feitas pelos magos do
Oriente ao menino Jesus - de que fala o evangelho de Mateus, assim
como outros rituais também foram adaptados. Como eu disse, foi a
primeira grande jogada de marketing da História da humanidade.
A origem do Papai Noel
A figura do Papai Noel, que os
portugueses chamam de Pai-Natal; os franceses, de Père Noël; os
alemães, de Weihnachtsmann; os italianos de Babbo Natale e os
norte-americanos de Santa Claus, tem origem na história de São
Nicolau, um santo especialmente querido pelos cristãos ortodoxos e,
em particular, pelos russos.
Conta-se que São Nicolau, quando
jovem, viajava muito e por isso, conheceu a Palestina e o Egito. Por
onde passava, ficava na memória das pessoas do lugar, devido à sua
bondade e o costume de dar presentes às crianças necessitadas.
Conta-se, ainda, que o primeiro presente que Papai Noel deu foram
moedas de ouro, entregues a três meninas pobres. Quando voltou a sua
cidade natal, Patara, na província de Lícia, Ásia Menor, São
Nicolau foi declarado bispo da cidade de Mira.
Com o tempo, como sempre acontece, o
santo foi ganhando fama de fazedor de milagres, sendo esse um dos
temas favoritos dos artistas medievais. Nessa época, a devoção por
São Nicolau estendeu-se para todas as regiões da Europa, tornando-o
o padroeiro da Rússia e da Grécia, das associações de caridade,
das crianças, marinheiros, moças solteiras, comerciantes e também
de algumas cidades, como Friburgo e Moscou. Milhares de igrejas
europeias foram-lhe dedicadas, uma delas ainda no séc. VI,
construída pelo imperador romano Justiniano I, em Constantinopla
(hoje, Istambul).
A Reforma Protestante fez com que o
culto a São Nicolau desaparecesse da Europa, com exceção da
Holanda, onde sua figura persistiu como Sinterklaas, adaptação do
nome São Nicolau. Colonizadores holandeses levaram a tradição
consigo até New Amsterdan (a atual cidade de Nova Iorque) nas
colônias norte-americanas do séc. XVII. Sinterklaas foi adaptado
pelo povo americano, falante do Inglês, que passou a chamá-lo de
Santa Claus - em português, Papai Noel, para os brasileiros, e
Pai-Natal, para os portugueses.
Aqui, chegamos ao arremate do que
chamo de maior jogada de marketing da História: o surgimento da
imagem de Papai Noel como conhecemos hoje, com aquela roupa vermelha,
cinto de cowboy, gorro na cabeça, barba branca. Ela foi criada, em
1931, por um sueco beberrão, chamado Haddon Sundblon, numa tentativa
extremamente bem-sucedida da Coca-Cola em conquistar o público
infantil. Pensavam agarrar rapidamente a próxima geração de
consumidores, assim a Companhia investiu na publicidade dirigida a
menores de 12 anos, mesmo havendo um grande tabu quanto a isso na
época. Esse aspecto acabou por reformular a cultura popular
americana. O Papai Noel de Sundblon era o homem da Coca-Cola perfeito
- eternamente alegre, alto, vermelho vivo, metido em situações
engraçadas, envolvendo um conhecido refrigerante como recompensa por
uma dura noite de trabalho entregando brinquedos. Antes das
ilustrações de Sundblon, o santo do Natal foi variadamente vestido
de azul, amarelo, verde ou vermelho. Na arte europeia, ele era em
geral alto e magro, ao passo que Clement Moore o descreveu como um
elfo (gênio que simboliza os fenômenos atmosféricos, na mitologia
nórdica) em The Night Before. Christmas.
O golpe de marketing de aproveitar o
crescimento do cristianismo em Roma para adotá-lo como religião
oficial do Império Romano, graças à conversão de Constantino, que
era, na verdade, tão cristão quanto eu sou palmeirense e petista,
e de transformar a Saturnália e o “Natalis Solis Invicti” em uma
falsa comemoração do aniversário "de mentirinha" de Jesus deu tão certo, que o
Natal está aí, enchendo os shoppings centers e a Rua 25 de Março
de gente ávida por consumir, ao som de Luis Bordon. FELIZ NATAL!

