Como devia ser a vida em Pereira Barreto em 1968?
Em 1968, Pereira Barreto era muito diferente do que é hoje. A cidade era bem menor. A sociedade local da época era dominada por uma dúzia de famílias tradicionais. Se bem que, já naquele ano, devido ao início da construção da usina hidrelétrica de Ilha Solteira e à chegada, na região, de trabalhadores para a construção da obra, esse quadro já começava a apresentar alguns discretos sinais de mudança, pois Pereira Barreto passaria por profundas transformações, principalmente no início dos anos 70. Em decorrência desses migrantes que vieram trabalhar direta e indiretamente na construção da usina de Ilha Solteira e, mais tarde, na de Três Irmãos, provavelmente mais de 70% da população da cidade, hoje, é composta por pessoas, entre ascendentes e descendentes, que aqui chegaram depois de 1970. Isso, talvez, explique um pouco a quase inexistência de vínculos da atual população pereira-barretense com o passado histórico e com os pioneiros habitantes da cidade.
Em 1968, Pereira Barreto era uma cidade bem provinciana ainda, aquela típica cidadezinha do interior mesmo, dominada por um grupo pequeno de famílias tradicionais e de imigrantes e seus descendentes, principalmente de origem japonesa. Naquele tempo, o número de japoneses e de seus descendentes em Pereira Barreto era bem maior do que hoje. A debandada de descendentes de japoneses fazendo o caminho de volta de seus pais e avós, indo trabalhar no Japão, principalmente nos anos 90, foi a principal causa desse encolhimento no tamanho da colônia nipônica local.
Vejamos a seguir alguns aspectos da vida pereira-barretense em 1968.
- O meio de comunicação mais usado, naquela época, ainda era o rádio. A TV já existia aqui, mas, por ser ainda caro, poucas famílias tinham um receptor, que era em preto-e-branco e pegava, de forma precária, a TV Tupi de São Paulo e, de forma mais precária ainda, a TV Record. As imagens vinham das retransmissoras de Araçatuba e Machado de Melo. Só em 1969 é que a cidade foi ter a sua primeira estação retransmissora de TV local, instalada no alto da caíxa d’água do Serviço Autônomo de Água. Naquele ano distante, não havia parabólica, TVs por assinaturas, videocassete nem DVD.
• O telefone, em 1968, ainda era manual. Mesmo para ligações locais, havia necessidade de auxílio de telefonista. Os números dos telefones da cidade tinham só três dígitos. Lembro-me de que o da casa comercial de meu avô, na época, era 185. Não havia DDD, nem DDI. Uma ligação interurbana podia demorar horas para ser completada e a qualidade era quase sempre ruim. As pessoas daqueles tempos heróicos tinham que falar com o seu interlocutor às vezes aos berros para serem ouvidas do outro lado da linha. Nem se pensava, ainda, em telefone celular. Aliás, ter um telefone naquela época era um privilégio de poucos. Outro meio de comunicação muito usado na época era o telégrafo, para troca de informações curtas, objetivas e que exigissem certa urgência, Era um sistema que utilizava o Código Morse. Naquele tempo, ainda não havia sido criada a ECT. Por isso, o serviço de telegrafia era prestado por empresa desvinculada dos Correios.
• A semana útil, em 1968, durava seis dias, e não cinco, como hoje. É que, naquela tempo, o sábado era considerado praticamente um dia normal de trabalho, pois o comércio funcionava o dia todo, até às 18 horas. Não havia ainda a chamada “Semana inglesa”. As repartições públicas tinham expediente até o meio-dia. O expediente bancário, em 1968, era de segunda a sexta, das 9h às 11h e das 13h às 17h. Mesmo aos sábados os bancários trabalhavam internamente, pois não podemos nos esquecer de que, naquele tempo, era tudo manual, tudo escriturado em livros e fichas. Não havia computadores. A compensação de um cheque e de uma ordem de pagamento para uma conta em outra cidade, por exemplo, demoravam dias, até semanas, para serem efetuadas. Aos domingos, no entanto, com exceção de bares, lanchonetes, sorveterias e restaurantes, praticamente nenhum estabelecimento comercial abria suas portas. Quem precisasse de alguma coisa de emergência, tinha de pedir a um comerciante amigo que fizesse a vendo pelos fundos do estabelecimento, quando possível. Só a partir de 1970 é que, em decorrência do enorme movimento de migrantes de outros pontos do País, que vieram para esta região trabalhar nas obras da construção de Ilha Solteira, é que houve um período em que boa parte do comércio abria suas portas aos domingos até o meio-dia.
• Naquele tempo não havia ainda supermercados em Pereira Barreto. O que havia eram mercearias, uma delas, inclusive, era a Casa Portuguesa, que, alguns anos depois, se transformou no atual Supermercado Proença, cujo prédio se localiza no mesmo local onde funcionava a antiga mercearia. O primeiro supermercado só começou a funcionar aqui por volta de 1970. Era o Supermercado Tem Tudo, de propriedade da família Milanezi, e se localizava onde hoje funciona a loja Luamar Móveis. Ele tinha quase o tamanho de um minimercado atual, um “mercadinho”. No entanto, era uma novidade para a época em nossa cidade. Afinal de contas, o cliente mesmo escolhia e pegava as mercadorias.
• Como televisão, em 1968, ainda era um bem acessível a uns poucos privilegiados e, mesmo assim, a qualidade da recepção era ruim, a vida noturna de Pereira Barreto era bem mais agitada, principalmente nos finais de semana. Havia bailes no CAP e no ACEP, Aliás, naquela época, o CAP só podia ser freqüentado por sócios ou convidados. Aliás, para ser sócio do CAP havia toda uma formalidade. O nome do candidato, como é de praxe, tinha de passar pelo crivo da diretoria, mas, devido ao conservadorismo da sociedade daquela época, a seleção era bem mais rigorosa que hoje. Para ir a um baile naquela época, havia necessidade de saber o traje exigido. Podia ser esporte fino, passeio ou traje a rigor, que exigia o uso de paletó e gravata. O mesmo se deve dizer também em relação ao ACEP, que é um clube cujo quadro de associados sempre foi mais restrito à colônia japonesa. Além disso, naquele tempo circos e parques de diversão eram atrações mais freqüentes em cidades do interior.
• A Praça da Bandeira era o local do footing das moças e dos rapazes da época. O Cine Itapura, com sessões diárias, inclusive com matinês aos domingos à tarde, era uma das diversões preferidas dos pereira-barretenses daquela época. Mas o ponto de encontro preferido dos jovens daquele tempo era o saudoso Tropical Bar, que se localizava onde existe hoje a galeria New Center.
• O prefeito de Pereira Barreto, em 1968, era Leo Liedtke Junior. Naquele tempo, a Câmara Municipal era composta por treze vereadores, que não recebiam nenhuma remuneração financeira por suas atividades legislativas. Mas isso não significava que o cargo de vereador fosse desinteressante. As disputas para uma cadeira na Câmara na época eram tão acirradas quanto hoje.
• A propósito, 1968 foi ano de eleição em Pereira Barreto. Os candidatos a prefeito na época foram Ernesto Trentin, da ARENA 1, o "positivo", Antônio Gomes da Silva, da ARENA 2, o "barra limpa", e o polêmico Lourival da Silva Louzada, do MDB, que não tinha nenhum símbolo para a sua campanha, mas muita gente, como chacota, dizia que ele era o "barra pesada". O vencedor foi Ernestro Trentin, que tinha o apoio do então prefeito Léo Liedtke Júnior, e tomou posso em 1.º de fevereiro de 1969.
• Naquela época, ainda havia por aqui muitas plantações de algodão. Muita gente, então, principalmente estudantes das escolas da cidade, aproveitava para ganhar um dinheirinho extra com a colheita. O algodão colhido nas lavouras de Pereira Barreto, naquela época, beneficiado aqui mesmo, pela Anderson Clayton e pela Cooperativa Agrícola da Fazenda Tietê, era de enorme importância econômica para o Município.
• Pereira Barreto tinha dois problemas sérios naquele tempo: energia elétrica e abastecimento de água. Á água distribuída na cidade naquela época, retirada de poços artesianos, possuía uma quantidade excessiva de fluor, o que fez com que muita gente, principalmente crianças daquela época, adquirisse fluorose. Além disso, era uma água salobra, com um gosto muito ruim. Quanto à energia elétrica, os cortes no seu fornecimento, que eram de responsabilidade da Companhia Paulista de Força e Luz, então estatal, eram freqüentes. Naquele tempo, as grandes hidrelétricas ainda não estavam prontas. A energia de Pereira Barreto vinha de uma pequena usina geradora em Itapura, que já não existe mais. A energia aqui, então, além de ser fraca, sofria cortes constantes.
Para a história de Pereira Barreto, foi um ano importante. Foi em 1968 que começou a construção da usina hidrelétrica de Ilha Solteira, o que veio a mudar radicalmente a vida social, cultural e econômica de Pereira Barreto, principalmente a partir de 1970.
A propósito disso, muita gente costuma afirmar, hoje, que o prefeito da época, Léo Liedtke Junior, errou em não permitir ou em não lutar para que o que é hoje a cidade de Ilha Solteira fosse construído aqui em Pereira Barreto e que, se isso tivesse sido feito, Pereira Barreto, hoje, seria uma grande cidade. A afirmação é um enorme disparate, fruto de uma dose de ingenuidade e de desinformação histórica.
O aglomerado urbano que é hoje a cidade de Ilha Solteira nunca seria construído aqui em Pereira Barreto, mesmo que o prefeito quisesse. São várias as razões para isso. Se não, vejamos.
O canteiro de obra de Ilha Solteira ficava a mais de quarenta quilômetros de nossa cidade. Se, mesmo a quarenta quilômetros de distância, todos os trabalhadores da usina hidrelétrica de Ilha Solteira tivessem vindo morar em Pereira Barreto, a CESP dificilmente teria investido aqui na construção da mesma infra-estrutura que implantou em Ilha Solteira. Afinal, Pereira Barreto já tinha, pelo menos em tese, toda infra-estrutura básica necessária, como hospital, médicos, lojas, restaurantes, etc., para abrigar os trabalhadores e suas famílias. Uma prova disso foi na época da construção da usina hidrelétrica de Três Irmãos, ocasião em que não foi construído nenhum núcleo urbano para abrigar os trabalhadores da obra, que passaram a residir e viver, em sua maioria, em Pereira Barreto, sem que isso trouxesse nada de relevante que contribuísse para o crescimento urbano da cidade.
Há, também, uma informação curiosa, que me foi passada por gente da época, segundo a qual, a maioria das terras onde está situada hoje a cidade de Ilha Solteira pertencia a pessoas com o sobrenome Junqeira, e o presidente da CESP, então, se chamaria Guilherme Junqueira, Coincidência apenas? Obviamente que seria uma leviandade afirmar hoje que, em razão disso, tanha havido qualquer tipo de benefício ou coisa desse tipo. Mas não deixa de ser um detalhe curioso, que não pode ser desprezado.
Outro detalhe importante, que pouca gente conhece hoje: naquele tempo havia, em Pereira Barreto, um preconceito muito forte contra os chamados “barrageiros”. As famílias tradicionais da cidade consideravam a maioria desse pessoal que vinha de fora para trabalhar nas obras de Ilha Solteira gente ”sem eira nem beira”, desqualificados, gente perigosa, em quem não se poderia confiar. Conta-se até que o então prefeito Léo Liedtke Junior guardou por muito tempo um abaixo-assinado a ele dirigido, firmado por ilustres pereira-barretenses da época, pedindo-lhe que não permitisse que nossa cidade abrigasse os “barrageiros” de Ilha Solteira, para que não houvesse riscos de que eles viessem a “desonrar” as dignas famílias da cidade. O prefeito teria ignorado a reivindicação e engavetado o documento.
Estes são alguns aspectos de Pereira Barreto em 1968 dos quais me recordo. Claro que pode haver outros. Você, leitor, se se lembrar de mais fatos ou coisas curiosas referente àquele ano em nossa cidade, pode postar na parte de comentários, logo abaixo, ou enviar pelo endereço gilmargrespan@gmail.com, que vou publicar aqui, desde que você se identifique, é claro.

