quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Pereira Barreto em 1968

Como devia ser a vida em Pereira Barreto em 1968?


Falei aqui, em postagem anterior, sobre o ano de 1968. Agora, quero falar sobre como foi esse mesmo ano aqui em minha cidade, em Pereira Barreto. Como era Pereira Barreto em 1968, justamente no ano do “Maio de 68” da França, dos festivais de música, do AI-5. Tudo isso a gente já sabe. Mas como era viver em Pereira Barreto em 1968?

Em 1968, Pereira Barreto era muito diferente do que é hoje. A cidade era bem menor. A sociedade local da época era dominada por uma dúzia de famílias tradicionais. Se bem que, já naquele ano, devido ao início da construção da usina hidrelétrica de Ilha Solteira e à chegada, na região, de trabalhadores para a construção da obra, esse quadro já começava a apresentar alguns discretos sinais de mudança, pois Pereira Barreto passaria por profundas transformações, principalmente no início dos anos 70. Em decorrência desses migrantes que vieram trabalhar direta e indiretamente na construção da usina de Ilha Solteira e, mais tarde, na de Três Irmãos, provavelmente mais de 70% da população da cidade, hoje, é composta por pessoas, entre ascendentes e descendentes, que aqui chegaram depois de 1970. Isso, talvez, explique um pouco a quase inexistência de vínculos da atual população pereira-barretense com o passado histórico e com os pioneiros habitantes da cidade.

Em 1968, Pereira Barreto era uma cidade bem provinciana ainda, aquela típica cidadezinha do interior mesmo, dominada por um grupo pequeno de famílias tradicionais e de imigrantes e seus descendentes, principalmente de origem japonesa. Naquele tempo, o número de japoneses e de seus descendentes em Pereira Barreto era bem maior do que hoje. A debandada de descendentes de japoneses fazendo o caminho de volta de seus pais e avós, indo trabalhar no Japão, principalmente nos anos 90, foi a principal causa desse encolhimento no tamanho da colônia nipônica local.

Vejamos a seguir alguns aspectos da vida pereira-barretense em 1968.

- O meio de comunicação mais usado, naquela época, ainda era o rádio. A TV já existia aqui, mas, por ser ainda caro, poucas famílias tinham um receptor, que era em preto-e-branco e pegava, de forma precária, a TV Tupi de São Paulo e, de forma mais precária ainda, a TV Record. As imagens vinham das retransmissoras de Araçatuba e Machado de Melo. Só em 1969 é que a cidade foi ter a sua primeira estação retransmissora de TV local, instalada no alto da caíxa d’água do Serviço Autônomo de Água. Naquele ano distante, não havia parabólica, TVs por assinaturas, videocassete nem DVD.

• O telefone, em 1968, ainda era manual. Mesmo para ligações locais, havia necessidade de auxílio de telefonista. Os números dos telefones da cidade tinham só três dígitos. Lembro-me de que o da casa comercial de meu avô, na época, era 185. Não havia DDD, nem DDI. Uma ligação interurbana podia demorar horas para ser completada e a qualidade era quase sempre ruim. As pessoas daqueles tempos heróicos tinham que falar com o seu interlocutor às vezes aos berros para serem ouvidas do outro lado da linha. Nem se pensava, ainda, em telefone celular. Aliás, ter um telefone naquela época era um privilégio de poucos. Outro meio de comunicação muito usado na época era o telégrafo, para troca de informações curtas, objetivas e que exigissem certa urgência, Era um sistema que utilizava o Código Morse. Naquele tempo, ainda não havia sido criada a ECT. Por isso, o serviço de telegrafia era prestado por empresa desvinculada dos Correios.

• A semana útil, em 1968, durava seis dias, e não cinco, como hoje. É que, naquela tempo, o sábado era considerado praticamente um dia normal de trabalho, pois o comércio funcionava o dia todo, até às 18 horas. Não havia ainda a chamada “Semana inglesa”. As repartições públicas tinham expediente até o meio-dia. O expediente bancário, em 1968, era de segunda a sexta, das 9h às 11h e das 13h às 17h. Mesmo aos sábados os bancários trabalhavam internamente, pois não podemos nos esquecer de que, naquele tempo, era tudo manual, tudo escriturado em livros e fichas. Não havia computadores. A compensação de um cheque e de uma ordem de pagamento para uma conta em outra cidade, por exemplo, demoravam dias, até semanas, para serem efetuadas. Aos domingos, no entanto, com exceção de bares, lanchonetes, sorveterias e restaurantes, praticamente nenhum estabelecimento comercial abria suas portas. Quem precisasse de alguma coisa de emergência, tinha de pedir a um comerciante amigo que fizesse a vendo pelos fundos do estabelecimento, quando possível. Só a partir de 1970 é que, em decorrência do enorme movimento de migrantes de outros pontos do País, que vieram para esta região trabalhar nas obras da construção de Ilha Solteira, é que houve um período em que boa parte do comércio abria suas portas aos domingos até o meio-dia.

• Naquele tempo não havia ainda supermercados em Pereira Barreto. O que havia eram mercearias, uma delas, inclusive, era a Casa Portuguesa, que, alguns anos depois, se transformou no atual Supermercado Proença, cujo prédio se localiza no mesmo local onde funcionava a antiga mercearia. O primeiro supermercado só começou a funcionar aqui por volta de 1970. Era o Supermercado Tem Tudo, de propriedade da família Milanezi, e se localizava onde hoje funciona a loja Luamar Móveis. Ele tinha quase o tamanho de um minimercado atual, um “mercadinho”. No entanto, era uma novidade para a época em nossa cidade. Afinal de contas, o cliente mesmo escolhia e pegava as mercadorias.

• Como televisão, em 1968, ainda era um bem acessível a uns poucos privilegiados e, mesmo assim, a qualidade da recepção era ruim, a vida noturna de Pereira Barreto era bem mais agitada, principalmente nos finais de semana. Havia bailes no CAP e no ACEP, Aliás, naquela época, o CAP só podia ser freqüentado por sócios ou convidados. Aliás, para ser sócio do CAP havia toda uma formalidade. O nome do candidato, como é de praxe, tinha de passar pelo crivo da diretoria, mas, devido ao conservadorismo da sociedade daquela época, a seleção era bem mais rigorosa que hoje. Para ir a um baile naquela época, havia necessidade de saber o traje exigido. Podia ser esporte fino, passeio ou traje a rigor, que exigia o uso de paletó e gravata. O mesmo se deve dizer também em relação ao ACEP, que é um clube cujo quadro de associados sempre foi mais restrito à colônia japonesa. Além disso, naquele tempo circos e parques de diversão eram atrações mais freqüentes em cidades do interior.

• A Praça da Bandeira era o local do footing das moças e dos rapazes da época. O Cine Itapura, com sessões diárias, inclusive com matinês aos domingos à tarde, era uma das diversões preferidas dos pereira-barretenses daquela época. Mas o ponto de encontro preferido dos jovens daquele tempo era o saudoso Tropical Bar, que se localizava onde existe hoje a galeria New Center.

• O prefeito de Pereira Barreto, em 1968, era Leo Liedtke Junior. Naquele tempo, a Câmara Municipal era composta por treze vereadores, que não recebiam nenhuma remuneração financeira por suas atividades legislativas. Mas isso não significava que o cargo de vereador fosse desinteressante. As disputas para uma cadeira na Câmara na época eram tão acirradas quanto hoje.

• A propósito, 1968 foi ano de eleição em Pereira Barreto. Os candidatos a prefeito na época foram Ernesto Trentin, da ARENA 1, o "positivo", Antônio Gomes da Silva, da ARENA 2, o "barra limpa", e o polêmico Lourival da Silva Louzada, do MDB, que não tinha nenhum símbolo para a sua campanha, mas muita gente, como chacota, dizia que ele era o "barra pesada". O vencedor foi Ernestro Trentin, que tinha o apoio do então prefeito Léo Liedtke Júnior, e tomou posso em 1.º de fevereiro de 1969.

• Naquela época, ainda havia por aqui muitas plantações de algodão. Muita gente, então, principalmente estudantes das escolas da cidade, aproveitava para ganhar um dinheirinho extra com a colheita. O algodão colhido nas lavouras de Pereira Barreto, naquela época, beneficiado aqui mesmo, pela Anderson Clayton e pela Cooperativa Agrícola da Fazenda Tietê, era de enorme importância econômica para o Município.

• Pereira Barreto tinha dois problemas sérios naquele tempo: energia elétrica e abastecimento de água. Á água distribuída na cidade naquela época, retirada de poços artesianos, possuía uma quantidade excessiva de fluor, o que fez com que muita gente, principalmente crianças daquela época, adquirisse fluorose. Além disso, era uma água salobra, com um gosto muito ruim. Quanto à energia elétrica, os cortes no seu fornecimento, que eram de responsabilidade da Companhia Paulista de Força e Luz, então estatal, eram freqüentes. Naquele tempo, as grandes hidrelétricas ainda não estavam prontas. A energia de Pereira Barreto vinha de uma pequena usina geradora em Itapura, que já não existe mais. A energia aqui, então, além de ser fraca, sofria cortes constantes.

Para a história de Pereira Barreto, foi um ano importante. Foi em 1968 que começou a construção da usina hidrelétrica de Ilha Solteira, o que veio a mudar radicalmente a vida social, cultural e econômica de Pereira Barreto, principalmente a partir de 1970.

A propósito disso, muita gente costuma afirmar, hoje, que o prefeito da época, Léo Liedtke Junior, errou em não permitir ou em não lutar para que o que é hoje a cidade de Ilha Solteira fosse construído aqui em Pereira Barreto e que, se isso tivesse sido feito, Pereira Barreto, hoje, seria uma grande cidade. A afirmação é um enorme disparate, fruto de uma dose de ingenuidade e de desinformação histórica.

O
aglomerado urbano que é hoje a cidade de Ilha Solteira nunca seria construído aqui em Pereira Barreto, mesmo que o prefeito quisesse. São várias as razões para isso. Se não, vejamos.

O canteiro de obra de Ilha Solteira ficava a mais de quarenta quilômetros de nossa cidade. Se, mesmo a quarenta quilômetros de distância, todos os trabalhadores da usina hidrelétrica de Ilha Solteira tivessem vindo morar em Pereira Barreto, a CESP dificilmente teria investido aqui na construção da mesma infra-estrutura que implantou em Ilha Solteira. Afinal, Pereira Barreto já tinha, pelo menos em tese, toda infra-estrutura básica necessária, como hospital, médicos, lojas, restaurantes, etc., para abrigar os trabalhadores e suas famílias. Uma prova disso foi na época da construção da usina hidrelétrica de Três Irmãos, ocasião em que não foi construído nenhum núcleo urbano para abrigar os trabalhadores da obra, que passaram a residir e viver, em sua maioria, em Pereira Barreto, sem que isso trouxesse nada de relevante que contribuísse para o crescimento urbano da cidade.

Há, também, uma informação curiosa, que me foi passada por gente da época, segundo a qual, a maioria das terras onde está situada hoje a cidade de Ilha Solteira pertencia a pessoas com o sobrenome Junqeira, e o presidente da CESP, então, se chamaria Guilherme Junqueira, Coincidência apenas? Obviamente que seria uma leviandade afirmar hoje que, em razão disso, tanha havido qualquer tipo de benefício ou coisa desse tipo. Mas não deixa de ser um detalhe curioso, que não pode ser desprezado.

Outro detalhe importante, que pouca gente conhece hoje: naquele tempo havia, em Pereira Barreto, um preconceito muito forte contra os chamados “barrageiros”. As famílias tradicionais da cidade consideravam a maioria desse pessoal que vinha de fora para trabalhar nas obras de Ilha Solteira gente ”sem eira nem beira”, desqualificados, gente perigosa, em quem não se poderia confiar. Conta-se até que o então prefeito Léo Liedtke Junior guardou por muito tempo um abaixo-assinado a ele dirigido, firmado por ilustres pereira-barretenses da época, pedindo-lhe que não permitisse que nossa cidade abrigasse os “barrageiros” de Ilha Solteira, para que não houvesse riscos de que eles viessem a “desonrar” as dignas famílias da cidade. O prefeito teria ignorado a reivindicação e engavetado o documento.

Estes são alguns aspectos de Pereira Barreto em 1968 dos quais me recordo. Claro que pode haver outros. Você, leitor, se se lembrar de mais fatos ou coisas curiosas referente àquele ano em nossa cidade, pode postar na parte de comentários, logo abaixo, ou enviar pelo endereço gilmargrespan@gmail.com, que vou publicar aqui, desde que você se identifique, é claro.

domingo, 14 de dezembro de 2008

1968 - o ano que virou História

Na história recente do Brasil e da humanidade, 1968 foi um ano diferente de todos os que o antecederam e, também, de todos os que o sucederam. Não foi um ano de mudanças, mas foi um ano que fez o mundo mudar. Como diz o sugestivo título do famoso livro de Zuenir Ventura, 1968 foi o ano que não terminou. Ele só terminou no calendário. Na memória dos que o viveram, ele continua até hoje. 

O mundo, em 1968, era bem diferente dos tempos atuais. Não havia ainda muita tecnologia, mas havia magia. Enquanto estudantes e operários franceses faziam seus protestos pelas ruas de Paris, no que ficou conhecido como “Maio de 68”, a Tchecoslováquia tentava, sob a liderança de Alexander Dubcek, se libertar do jugo do imperialismo de Moscou e criar uma sociedade mais democrática. Em represália a essa rebeldia, o exército soviético invadiu a Tchecoslováquia e massacrou o movimento liberal daquele país, que ficou conhecido como “Primavera de Praga”.

Em 1968, a Guerra do Vietnã estava em seu auge, gerando protestos nos Estados Unidos e em outros países do mundo. Foi o ano, também, da morte do pacifista e pastor protestante Martin Luther King e do senador Robert Kennedy, ambos norte-americanos, ambos assassinados. O ano de 1968 também foi declarado como “Ano Internacional dos Direitos Humanos”. 

No Brasil, a morte, pela polícia, no Rio de Janeiro, de um estudante secundarista, chamado Edson Luís de Lima Souto, de 16 anos, durante um protesto contra a alimentação servida pelo restaurante estudantil Calabouços. Foi um dos estopins que fizeram com que os estudantes, setores da Igreja Católica Romana e da classe média começassem a se mobilizar contra a ditadura militar. No dia 26 de junho, realizou-se a histórica “Passeata dos Cem Mil”, na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Em 03 de setembro, o jornalista e deputado federal Márcio Moreira Alves, do MDB carioca, fez um discurso na tribuna da Câmara dos Deputados criticando a ditadura, no qual ele ironiziou os militares, pedindo para as mães de moças não permitirem que suas filhas namorassem cadetes. Esse discurso do deputado irrita os generais, que tentam, pelas vias legais, processar o deputado, alegando ofensa às Forças Armadas. No entanto, a Câmara, numa decisão histórica, nega autorização para que o Supremo Tribunal Federal processe Márcio Moreira Alves. Foi a gora d’água para que o presidente da República, o General Costa e Silva, reunisse o então famigerado Conselho de Segurança Nacional, na tarde-noite do dia 13 de dezembro, no Palácio Laranjeiras, no Rio de Janeiro e decretasse o Ato Institucional n.º 5, o AI-5, que dava poderes praticamente ilimitados ao presidente da República, dando início ao período mais fechado e violento da ditadura militar no Brasil.

Mas 1968 não foi um ano só de protestos, de arbitrariedades, de violência. Apesar de toda repressão, foi um ano marcante para a cultura, principalmente para a música. Foi a época dos grandes festivais da TV Record e do Festival Internacional da Canção, promovido pela então recém-nascida Rede Globo de Televisão. Foi um ano de efervescência cultural no Brasil e no mundo. Era época do movimento hippie, da contracultura, do surgimento da Tropicália, um movimento que iria mudar radicalmente a música brasileira, cujo ponto de partida oficial foi o lançamento, com show, em São Paulo, do disco (LP, na época) “Tropicália ou Panis et Circensis”, em 12 de agosto de 1968, com a participação de Caetano Veloso Gilberto Gil e convidados. 

Um fato que ficou gravado na história cultural brasileira, ocorreu em 28 de setembro de 1968, no III Festival Internacional da Canção, da Globo, em São Paulo, no Teatro da Universidade Católica, Acompanhado pelo conjunto Os Mutantes, Caetano Veloso apresentou a música “É proibido proibir”. Os Mutantes mal começaram a tocar a introdução da música, e a platéia já atirava ovos, tomates e pedaços de madeira contra o palco. O provocativo Caetano apareceu vestido com roupas de plástico brilhante e colares exóticos. Entrou em cena rebolando, fazendo uma dança erótica que simulava os movimentos de uma relação sexual. Escandalizada, a platéia deu as costas para o palco. A resposta dos Mutantes foi imediata: sem parar de tocar, viraram as costas para o público. Gilberto Gil, que também participava, foi atingido na perna por um pedaço de madeira, mas não se rendeu. Em tom de deboche, mordeu um dos tomates jogados ao chão e devolveu o resto à irada platéia. Caetano fez um longo e inflamado discurso que quase não se podia ouvir, tamanho era o barulho dentro do teatro. 

Em 1968, o movimento da Jovem Guarda estava já em decadência, mas a sua estrela maior, Roberto Carlos, sobreviveu. Naquele ano mesmo, venceu um festival na Itália, o de San Remo, e, finda a Jovem Guarda, tornou-se o mais popular cantor romântico do País. Sem engajamento político, Roberto Carlos e a elite politizada da época ignoravam-se mutuamente. Sua única obra “levemente subversiva” foi uma música, lançada no início dos anos 70, em homenagem a Caetano Veloso, que se encontrava exilado em Londres, chamada “Debaixo dos caracóis de seus cabelos”.

Ouvir música, naquele tempo, era bem diferente. Não havia CD, nem DVD, nem MP3, nem as já superadas fitas cassetes ainda existiam. As músicas eram gravadas em discos de vinil, isto é, em LPs (Long Plays) e em discos compactos, que eram menores e traziam somente duas músicas, compacto simples, ou quatro músicas, compacto duplo. Para gravadoras, autores e cantores, a vantagem daquela época era que, como a tecnica para produzir esses discos era complexa e cara, a pirataria era preticamente impossível de existir, como hoje acontece, infelizmente, com os CDs e DVDs. A desvantagem é que, como os discos de vinil eram caros, a maior parte da população não podia comprá-los. O jeito, para esse segmento, era ouvir as músicas de seus cantores preferidos pelo rádio. Havia, então, os programas de musicais de grande sucesso, nas principais emissoras do Rio e de São Paulo, que, por ondas curtas, chagavam praticamente a todo o Brasil. O rádio ainda era a principal fonte de informação da maioria absoluta da população em 1968. A televisão ainda tinha pouca abrangência naquele tempo. Por isso, o sucesso de uma determinada canção não era medido somente pela quantidade de discos que vendia, mas, e principalmente, pelo número de vezes que ela era tocada no rádio. Claro que, naquele tempo, já existia o famoso “jabá”, mas isso é outra história.

Segundo o site do radialista Beto Brito, da Rádio Globo (www.betobrito.com.br), as músicas que faziam mais sucesso em 1968 eram: Hey Jude – Beatles, Viola Enluarada - Marcos Valle & Milton Nascimento (destaque no Festival de MPB da TV Record), Baby - Gal Costa, Sá Marina - Wilson Simonal, Love Is Blue - Paul Mauriat e sua orquestra, Light My Fire - Jose Feliciano, Se Você Pensa - Roberto Carlos (que já iniciava sua fase mais romântica), MacArthur Park - Richard Harris, Pata Pata - Miriam Makeba, Tenho Um Amor Melhor Que o Seu - Antonio Marcos, Última Canção - Paulo Sergio, Sou Louca Por Você – Elizabeth, San Francisco (Be Sure To Wear Flowers In Your Hair) - Scott McKenzie, Mrs. Robinson - Simon & Garfunkel, A Chuva Que Cai - Os Caçulas, The Rain, The Park And Other Things – Cowsills, Do You Want To Dance - Johnny Rivers, Só o Ôme - Noriel Vilela, Segura Esse Samba Ogunhé - Osvaldo Nunes.

Naquele tempo, apesar da efervescência musical, havia muita música direcionada ao chamado "povão", como as do iniciante Paulo Sérgio, de Aguinaldo Timóteo, de Elizabeth e muitos outros, mas não havia espaço para a música sertaneja, como acontece hoje. A música sertaneja era vista com certo preconceitos, mesmo pelas classes C e D da época. Ela era direcionada a um público específico, que habitava, principalmente, o interior de Goiás, Matro Grosso, Minas Gerais, São Paulo e Paraná. Se bem que aqui estou falando de música sertaja típica mesmo, de raiz. Essa música psudo-sertaneja de hoje, cantada por Zezé de Camargo e Luciano, Bruno e Marrone, Victor e Leo e outros, que, na realiadade, está mais para música suburbana do que para sertaneja, ainda não existia.

Assim como a música, o teatro também vivia dias de novos ares em 1968. No entanto, a radicalização política não perdoava, também, as artes cênicas. No dia 16 de janeiro, estreou, no Rio de Janeiro, a peça “Roda Viva”, de Chico Buarque de Holanda, dirigida por José Celso Martinez Corrêa. No entanto, quando se apresentavam em São Paulo, no Teatro Ruth Escobar, no dia 18 de julho, os integrantes da peça foram agredidos fisicamente por um grupo pertencente a um tal CCC (Comando de Caça aos Comunistas).

No cinema, 1968 marca o início da 3.ª fase do chamado “Cinema Novo”, cujo marco principal foi o filme Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade. No entanto, a repressão política foi particularmente cruel com o cinema naquele período. Mas alguns ficaram na história, como O Bandido da Luz Vermelha,
O Homem Nu, As Amorosas, Panca de Valente, Lance Maior e outros. 

Na Medicina, o Brasil dava um importante passo. Em 1968, foi realizado o primeiro transplante de coração no Brasil, Em 26 de maio daquele ano, no Hospital das Clínicas de São Paulo. O Dr. Euryclides de Jesus Zerbini, ganharia notoriedade ao colocar o coração de um jovem morto em um acidente no peito de João Ferreira da Cunha, um agricultor conhecido como “João Boiadeiro”. Apesar de a cirurgia ter se tornado um marco histórico, João Ferreira Cunha sobreviveu por apenas 18 dias depois do transplante. Naquela época, ainda não se sabia contornar o grande entrave dos transplantes de órgãos, a rejeição.

Como seria viver em 1968?

Se fosse possível e você decidisse viajar no tempo para viver em 1968, certamente estranharia muito o modo de vida daquela época. Para um típico cidadão do início do século XXI, não seria nada fácil viver em 1968. Uma coisa é a gente ler sobre uma determinada época, saber sobre ela, ver um filme ou uma novela que se passa naquela época; outra coisa é viver nessa época. 

Em 1968, o mundo, obviamente, era bem diferente de hoje, ou seja, muito mais atrasado. Não havia telefonia celular, que só chegou no Brasil no início da década de 90. Fazer uma ligação telefônica interurbana era um exercício de perseverança e paciência naquela época. Muitas cidades ainda tinham sistema de telefonia manual e precário. Não havia DDD. Havia necessidade de pedir a ligação para uma telefonista e, às vezes, esperar por horas. Outro meio de comunicação muito usado na época era o telegrama. A televisão ainda era em preto-e-branco e tinha, naquele tempo, pouca abrangência, pois não havia satélites domésticos disponíveis e nem um sistema de retransmissão via microondas. Muitas regiões brasileiras só foram receber os primeiros sinais de TV em meados da década de 70. Em 68, o rádio ainda era o grande meio de comunicação de massa do Brasil. A TV em cores só surgiu no Brasil em 1972. 

A informática ainda estava engatinhando. Não havia computadores pessoais. Para se ter uma idéia do atraso daquele ano, esse computador que você está utilizando agora para ler este texto, seja ele qual for, é milhões e milhões de vezes mais poderoso do que o mais avançado e robusto computador do Departamento de Defesa dos Estados Unidos em 1968. A Internet era só um embrião nos Estados Unidos, de uso exclusivamente militar, e se chamava, na época, Arpanet. Era um sistema tão rudimentar, que nada tem a ver com a Internet de hoje. 

Os carros mais usados em 1968 eram o Aero Willis, o DKV, o Galaxie, o Itamaraty, o Karmann Ghia, o Fusca e o lançamento do ano, o Opala. Em comparação com as modernas máquinas de hoje, esses carros eram verdadeiras “carroças motorizadas”.

Por mais que 1968 faça a gente sentir uma forte vontade de reviver aqueles tempos loucos e rebeldes, dos festivais, da contracultura, dos Beatles, você gostaria de viver num tempo em que não havia forno de microondas, telefone celular, antena parabólica, TV por assinatura, computador, Internet? Acredito que não. Ou viveria?