terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O comércio da fé

Em Hebreus, um dos livros do Novo Testamento, no capítulo 11, versículo 1, lê-se o seguinte: “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem”

É lícito, e até louvável, que alguém prospere materialmente à custa da própria fé. Mas seria moralmente aceitável, também, alguém se enriquecer à custa da fé dos outros? 

O assunto é polêmico. Mas, lícito ou não, a verdade é que há muita gente ganhando dinheiro à custa da fé alheia. E não é pra menos, pois trata-se de um mercado amplo, diversificado e em pleno crescimento, aparentemente imune a qualquer tipo de crise. São CDs, DVDs, livros, bíblias, camisetas, revistas e um sem-núemero de outros produtos destinados a consumidores das diversas religiões. Trata-se de um nicho que, diferentemente do que muita gente pensa, não se restringir somente aos evangélicos. Esse tipo de comércio está presente em praticamente todos os segmentos religiosos: católicos, evangélicos, espíritas, seitas orientais,  etc.

Até certo ponto, tudo isso é saudável. Numa sociedade democrática e pluralista como a nossa, as instituições, sejam elas igrejas, seitas, ONGs, partidos políticos, clubes, sindicatos, associações altruístas, etc. têm todo direito de expor à sociedade suas ideias, seus propósitos, seus objetivos, desde que, é lógico, estejam amparadas na lei. Nos países islâmico, por exemplo, isso não ocorre, porque a religião lá é imposta a todos os cidadãos, que, por isso, não têm oportunidade de conhecer outros linhas de pensamentos religiosos, a não ser as do próprio Islamismo. Mas em nossa sociedade ocidental, livre e democrática, a liberdade de culto religioso é um direito inalienável. Por isso, há grande diversidade de pensamentos e crenças religiosas, o que faz com que as várias instituições tenham que fazer barulho, usar a mídia e outros recursos, para mostrarem que existem e, assim, atraírem adeptos.

Ocorre, no entanto, que esse comércio da fé está se transformando num negócio tão lucrativo que já surgiram, entre nós, verdadeiros magnatas do "faith business". Aqui no Brasil, hoje, eles são bem conhecidos. Suas igrejas se transformaram em verdadeiros impérios financeiros. Aí, sim, eu questiono: se ganhar dinheiro com a fé é moralmente discutível para algumas pessoas, o que dizer de quem faz grandes fortunas com ela?

É bom salientar que não estou questionando, aqui, a religião, a fé, as igrejas. Muito pelo contrário. A religião, a fé, a palavra de Deus são valores imprescindíveis para os fiéis. Quantas pessoas que não estavam à beira do abismo, no fundo do poço, e conseguiram resgatar sua dignidade graças à sua fé, à palavra de consolo e de carinho de um padre, de um pastor, de um sacerdote, ao apoio e solidariedade de uma comunidade religiosa? 

Não questiono aqui o dízimo e as ofertas que os fiéis, cumprindo uma tradição religiosa judaico-cristã, dão às suas igrejas, Mesmo porque sem os dízimos e as ofertas dos fiéis as igrejas não sobreviveriam, afinal de contas, para mantê-las em funcionamento há custos, que têm que ser, naturalmente, cotizados entre os fiéis. Também não questiono a idoneidade dessa ou daquela instituição religiosa, desse ou daquele padre, pastor, bispo, sacerdote. O que questiono é o uso da fé de milhares de pessoas, que procuram ajuda espiritual, socorro para seus inúmeros problemas, para criar verdadeiros conglomerados financeiros e até de comunicação. Além disso, vendem a fé como se ela fosse um simples produto de consumo, quase dizendo: “Venha para nossa igreja, pois o “nosso produto” é melhor”. 

Ora, a fé é um valor precioso demais para ser colocada à venda numa espécie de mercado persa de variados tipos e estilos de igrejas, das mais variadas matizes. A fé é algo que se consegue, muitas vezes, à custa de nossas próprias experiências de vida. 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

YES, HE CAN


Sim, ele pode. Barack Hussein Obama, o novo presidente dos Estados Unidos, desde 20 de janeiro último, pode mudar os Estados Unidos e, consequentemente, o mundo. É para isso que ele foi eleito no dia 04 de novembro do ano passado. É isso que seus eleitores querem que ele faça.Quem diria que, quase quarenta e um anos após o assassinato de Martin Luther King, Junior, um negro chegaria à presidência dos Estados Unidos? Esta é uma demonstração clara de que, a sociedade norte-americana, com todos os seus defeitos, seu conservadorismo, pode mudar, pode se transformar.

Aliás, apesar de todas as críticas que se lhes possam fazer, os Estados Unidos são um exemplo claro de uma sociedade que deu certo em todos os sentidos. Já no final do século XIX, eram uma das maiores economias do mundo. Com o final da 2.ª Grande Guerra, em 1945, passaram a disputar com a extinta União Soviética o equilíbrio econômico e militar do planeta. Hoje, com o fim da União Soviética e mesmo com o surgimento de grandes nações emergentes, como China e Índia, os Estados Unidos continuam ainda a exercer seu poder de domínio econômico e cultural por praticamente todo o planeta.

O governo desastrado de George W. Bush fez com que os Estados Unidos começassem a perder crédito no mundo. Bush, considerado por muitos analistas como o pior presidente que os Estados Unidos já tiveram, que saiu da Casa Branca com apenas 20% de aprovação popular em seu país, destroçou a política externa norte-americana. O papel de Barak Obana vai ser o de superar esse descrédito a que seu país chegou, levado por seu antecessor. Para executar essa tarefa difícil, ele tem a credibilidade de um político novo, diferente de Bush, com novas ideias, com uma visão diferente. Se vai conseguir mudar a imagem dos Estados Unidos realmente, só o tempo dirá.

O slogan de sua campanha era “Yes, we can” (Sim, nós podemos). Sim, ele pode. Ele pode, se quiser, mudar a imagem dos Estados Unidos no mundo. Sim, ele pode acabar com a guerra do Iraque e combater o terrorismo de uma forma muito mais inteligente e competente do que Bush o fez. Sim, ele pode, se tiver apoio suficiente dos congressistas e do povo norte-americano, recuperar a economia dos Estados Unidos. Sim, ele pode e disse que vai fechar a prisão de Guantánamo. Sim, ele pode acabar com o bloqueio econômico a Cuba e, com isso, fazer com que o povo daquela ilha tenha esperança de viver em uma democracia em futuro breve. Sim, ele pode estabelecer uma relação de boa amizade com todos os países da América Latina. Sim, ele pode ajudar a que judeus e palestinos encontre uma forma de viverem em paz. Sim, ele pode fazer tudo isso e muito mais.

Se ele fará pelo menos metade de tudo isso, só o futuro nos dirá. O fato é que o mundo nunca colocou tanta esperança num novo líder mundial antes como está fazendo em relação a Barack Obama. Não é para menos. Afinal, os Estados Unidos continuam sendo a nação mais rica e importante do planeta. Praticamente metade da economia do mundo está nas mãos dos norte-americanos. O que Barak Obama fizer de certo ou de errado pode mudar os destinos do mundo.


sábado, 17 de janeiro de 2009

Por que palestinos e israelenses brigam tanto?

O ataque de Israel à Faixa de Gaza, causando mortes e sofrimento, está provocando revolta em todo o mundo. Mas por que será que os judeus de Israel não se entendem com os árabes, principalmente com os palestinos?

ooOoOoo


Por que Israel e palestinos brigam tanto? Por que tanta animosidade entre esses dois dois povos, que têm entre si fortes vínculos étnicos? Por que tantas guerras, tantas mortes, tanto sofrimento naquela região? Para saber os reais motivos desse ódio mútuo inesgotável, precisamos voltar no tempo.

Segundo a tradição judaico-islâmico-cristã, tudo começou, cerca de 2.000 anos a.C., numa cidade do sul da Mesopotâmia, atual Iraque, chamada Ur, ou a Ur dos Caldeus, onde um homem, chamado Abraão, teria recebido um chamado de Deus para que abandonasse seu povo e fosse, com sua família, para a “terra prometida” de Canaã, antigo nome pelo qual era conhecida a atual região ocupada hoje por Israel, Cisjordânia, parte ocidental da Jordânia e sul do Líbano. Abraão e sua família, obedecendo a Deus, teriam percorrido os desertos daquela região por muitos anos, em busca da tal terra prometida por Deus. O próprio Abraão teria morrido antes de alcançar Canaã, mas seus descendentes chegaram lá, entre eles, estavam seu filho Ismael, que seria ascendente dos povos árabes, e seu neto Jacó, filho de Isaque, que teria sido ascendente do povo hebreu.

Se Abraão existiu ou não, se árabes e judeus tiveram um ancestral em comum, como contam suas tradições religiosas, a História não pode confirmar seguramente. Mas a origem mesopotâmica desses povos, hoje, é quase certa, em razão de algumas semelhança culturais e linguísticas com os antigos mesopotâmios.

Deixemos de lado, agora, a origem de árabes e judeus e vamos nos ater a um fato ocorrido em Jerusalém, no ano 70 d.C., ou seja, cerca de trinta anos após o julgamento e crucificação de Jesus Cristo. Os romanos, que ainda dominavam aquela região e também eram pagãos, queriam construir na cidade um templo dedicado a Júpiter. Para os hebreus, que eram monoteístas e intransigentes em matéria de religião, era um absurdo, uma heresia. A revolta foi grande. Mas a resposta dos romanos foi impiedosa. Em suma, os hebreus foram expulsos da Judeia, isto é, enxotados de sua própria terra. Começava. aí, a grande diáspora. Os judeus, expatriados, espalharam-se pelo mundo. O antigo estado judeu, a partir de então, deixou de existir.

Muitos séculos se passaram e, mesmo espalhados pelo mundo, vivendo em comunidades judaicas na Ásia Menor, no leste da Europa, no norte da África, na Península Ibérica, nos Países Baixo, nos Bálcãs e, depois, até na América, estigmatizados, perseguidos, humilhados, às vezes até expulsos de uma região ou outra, os judeus não perderam sua identidade cultural, religiosa e linguística.

Na segunda metade do século XIX, surgiu, na Europa, o movimento Sionista (em referência ao monte Sion, que fica nos arredores de Jerusalém), que defendia o direito à autodeterminação do povo judeu e a criação de um estado nacional judaico. Seu principal líder era Theodor Herzl (1860-1904), um jornalista judeu húngaro, autor do livro "Der Judenstaat" ("O estado judaico"), no qual pregava que o problema do antissemitismo só seria resolvido quando os judeus dispersos pelo mundo pudessem se reunir e se estabelecer em um estado nacional independente. Durante um congresso, em Basileia, na Suíça, em 1897, os judeus reunidos iniciaram oficialmente a luta para a criação de um estado próprio. O grande problema era em que região o estado judaico deveria ser fundado. Entre vários locais apontados, estavam Chipre, Argentina e o Congo. Para alguns sionistas, a justificativa da expulsão em 70 d.C., da diáspora, não justificaria a recriação de um estado judeu na Palestina, pois, muito antes da expulsão pelos romanos, a grande maioria do povo hebreu já havia se helenizado e migrado espontaneamente ou, mesmo, nem retornado para a Palestina depois do cativeiro da Babilônia. No entanto, por razões históricas e pelo forte apelo religioso, baseado na redenção do povo de Israel na “terra prometida”, o local escolhido foi mesmo a Palestina, de onde haviam sido expulsos cerca de mil e oitocentos anos antes.

Em razão disso, a partir do final do século XIX, principalmente por causa do antissemitismo, a migração de judeus da Europa para a Palestina se intensificou. No entanto, a Palestina, naquela época, já estava cultural e etnicamente arabizada, isto é, já era habitada por uma população de esmagadora maioria árabe, lá enraizada por uma longa e consistente migração e assimilação iniciada por volta do ano 350 d.C. e que perdurou e floresceu por mais de 400 anos, durante as dinastias árabes Omanida, Abássida e Fatímida. No entanto, isso não impediu a migração em massa de judeus da Europa para a região. Para se ter uma ideia desse fluxo, basta dizer que, entre 1890 e 1922, a população judaica na Palestina dobrou, de 40 mil para cerca de 85 mil. Já em 1909, foi criado na região o primeiro kibutz, que é um tipo de colônia agrícola de inspiração socialista. Claro que os árabes palestinos não começaram a ver aquele verdadeira invasão de judeus com bons olhos. Por isso, já também em 1909, os judeus começavam a criar grupos armados para se defender da fúria dos árabes palestinos. Afinal de contas, depois de quase dois mil anos, eles queriam a Palestina de volta para si, mas os árabes ali instalados havia séculos também, obviamente, não estavam de acordo com essa invasão judaica.

Diante dessas dificuldades, para o estabelecimento de um estado judeu, o movimento sionista teria de fazer uma grande alteração para mudar o equilíbrio étnico e demográfico da região, mesmo porque o projeto de um estado judaico padrão deveria se basear nas utopias religiosas e culturais bem próprias, exclusivas e definidas com os costumes e o idioma do povo judeu que habitava o leste europeu, uma cultura totalmente estranha não só para a comunidade árabe local, mas também para os judeus que já viviam na região bem antes do sionismo.

Até o final da I Guerra Mundial, a Palestina fazia parte do Império Turco-Otomano. Com a dissolução desse império, o território passou para o domínio da Grã-Bretenha. Em 1917, o chanceler britânico Arthur Balfour declarou formalmente apoio ao estabelecimento de um estado judeu na Palestina, desde que respeitados os direitos das comunidades não judaicas da região (Declaração Balfour). Na época, o governo britânico prometeu aos árabes-palestinos a criação de um grande estado, que jamais chegou a existir. A Liga das Nações, entidade que correspondia à ONU de hoje, outorgou ao Reino Unido a administração da Palestina em 1920. A comunidade árabe da região sentiu-se traída pelos britânicos e ameaçados pelos judeus. As animosidades se intensificaram. Nos anos de 1929 e 1936, ocorrem violentos distúrbios entre árabes e judeus.

A perseguição aos judeus imposta pelo regime nazista de Adolf Hitle, a partir de 1933, intensificou a migração para a Palestina. Finda a II Guerra Mundial, o apoio internacional à criação de um estado judaico aumentou em virtude da revelação do massacre de seis milhões de judeus nos campos de extermínio nazistas, o holocausto. Os britânicos, então, delegaram à então recém-criada ONU (Organizações das Nações Unidas) a tarefa de solucionar os problemas daquela região. Sem consulta prévia aos árabes-palestinos, a ONU aprovou, em 1947, a divisão da Palestina em dois estados, um para os judeus, e outro para os árabes, que rejeitam a decisão.

Apesar da revolta árabe, em 14 de maio de 1948, foi, então, criado o Estado de Israel, com David Ben-Gurin como primeiro-ministro. Cinco países árabes enviaram tropas para tentar evitar a fundação do estado hebreu. A guerra terminou em janeiro de 1949, com a vitória de Israel. Cerca de 700 mil palestinos se refugiaram na Cisjordânia, na Faixa de Gaza ou migraram para os países árabes. A maioria deles perdeu casas e propriedades. O Egito incorporou a Faixa de Gaza ao seu território; a Jordânia recebeu Jerusalém Oriental e a Cisjordânia. O estado árabe-palestino, previsto pela ONU, acabou não sendo criado, enquanto Israel passou a controlar 75% do território da Palestina. Os árabes-palestinos, então, ficam sem território,

Com apoio estrangeiro e remessa privada de dinheiro, a economia de Israel floresceu rapidamente. Com o apoio dos Estados Unidos, os israelenses se tornaram militarmente fortes. Com isso, ao longo dos anos, Israel tem conseguido sobreviver cercados de inimigos, aos quais tem conseguido vencer nos campos de batalha. Em 1967, diante da aliança militar entre Egito, Síria e Jordânia, com apoio da União Soviética, Israel, fortemente armado pelos Estados Unidos, teve a ousadia de atacar os três países ao mesmo tempo, em 05 de junho. O episódio, conhecido como “Guerra dos Seis Dias”, terminou no dia 10 de junho, com a vitória de Israel, que conquistou o Sinai, a Faixa de Gaza, a Cisjordânia, as Colinas de Golã (na Síria), e a zona oriental de Jerusalém. Mesmo com uma resolução da ONU na época, determinando a devolução das áreas ocupadas, Israel exigiu que os países árabes reconhecessem sua existência como nação.

De lá para cá, o cotidiano dos povos daquela regiao é de permanente hostilidade mútua. Durante as Olimpíadas de 1972, em Munique, na então Alemanha Ocidental, onze atletas israelenses foram mortos pelo grupo “Setembro Negro”, ligado à OLP (Organizaão para a Libertação da Palestina). Em 1973, na chamada Guerra do Yom Kippur, o “Dia do Perdão” (feriado religioso judeu), a Síria e o Egito, de surpresa, atacaram Israel pelo Sinai e pelas colinas de Golã. Depois de 48 horas de lutas, Israel inverteu a vantagem dos árabes e os derrotou. Nesse ano, os árabes fizeram do petróleo uma arma de guerra: boicotaram seu fornecimento aos países que apoiavam Israel, aumentando o preço do produto e causando a primeira grande crise do petróleo no mundo. Em 1974, o Fatah, facção dominante na OLP, passou a defender a criação de um Estado binacional na Palestina, quando facções palestinas mais radicais romperam com a OLP. Em 1978, por ocasião da assinatura do acordo de Camp David, mediado pelos Estados Unidos, Israel devolveu o Sinai ao Egito. Em 1982, Israel invadiu o Líbano para expulsar a OLP de lá. O exército israelense chegou a Beirute, onde permitiu o massacre de refugiados palestinos nos campos de Sabra e Shatila por milícias cristãs aliadas. Em 1987, eclodiu a primeira Intifada (revolta) contra Israel em Gaza e na Cisjordânia. Em 1988, uma declaração de independência palestina, feita pela OLP, reconheceu indiretamente o Estado de Israel, de acordo com as fronteiras anteriores a 1967. No mesmo ano, surgiu o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), que prega até hoje a destruição de Israel.

Por pressão dos Estados Unidos, Israel iniciou, em 1991, as primeiras negociações diretas com representantes palestinos, na Conferência de Madri (Espanha). Em 1993, Israel e OLP firmam o Acordos de Oslo, que previa um estágio interino de autonomia palestina em Gaza e na Cisjordânia até a conclusão de negociações para a criação de um estado palestino na região. Foi criada, então, a Autoridade Nacional Palestina (ANP), sob comando de Yasser Arafat, que em 1994 voltou do exílio na Tunísia. Em 1996, Arafat foi eleito presidente da ANP. Dessa forma, áreas de Gaza e da Cisjordânia passaram ao controle palestino, mas Israel manteve a colonização da Cisjordânia. Em 1994, o Hamas promoveu seu primeiro atentado terrorista, após a morte de 29 palestinos por grupo extremista judaico em Hebron. Em 1995, o primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin foi assassinado por um extremista judeu. Em 1996, o direitista Binyamin Netanyahu foi eleito primeiro-ministro de Israel. Em 1999, ele foi sucedido pelo trabalhista Ehud Barak. Em julho de 2000, no último ano de seu mandato, o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, reuniu o primeiro-ministro de Israel Ehud Barak e o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat, em Camp David (EUA) para cúpula destinada a pôr fim à questão. A cúpula fracassou, apesar de Israel julgar ter apresentado sua melhor proposta. Barak oferecia aos palestinos 95% de Gaza e da Cisjordânia (equivalente a menos de 22% da Palestina histórica) e capital em parte da Jerusalém árabe, mas não soberania sobre Esplanada das Mesquitas. Também não houve acordo sobre retorno dos refugiados.

Em setembro de 2000, Ariel Sharon, líder do partido de direita israelense Likud, em campanha para eleitoral, foi à Esplanada das Mesquitas. Começou, então a Segunda Intifada. Atentados terroristas, ataques israelenses e confrontos deixaram cerca de 5.000 palestinos e 1.000 israelenses mortos em quatro anos. Sharon, eleito primeiro-ministro em 2001, fundou o partido Kadima, que prometia abrir mão da "Grande Israel". Em 2002, ele começou construção do muro entre Israel e Cisjordânia. Esse muro reduziu a quase zero os atentados em Israel, mas anexou grandes porções do território palestino. Em 2004, Yasser Arafat morreu e foi substituído na Presidência da ANP por Mahmoud Abbas, do Fatah, eleito em 2005. Naquele mesmo ano, Israel retirou soldados e 8.000 colonos de Gaza, mas manteve controle sobre fronteiras marítimas e terrestres do território. Na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental foram mantidos 400 mil colonos. O primeiro-ministro Ariel Sharon entrou em coma em 2006 e foi substituído por Ehud Olmert. Em 2006, o Hamas venceu as eleições legislativas palestinas de janeiro de 2006. Seu gabinete foi boicotado por Israel e pelo Ocidente, que classificaram o grupo como terrorista. Em 2007, combates entre Hamas e Fatah levaram à expulsão do Fatah de Gaza. A ANP nomeou, então, novo gabinete, que só teve voz em parte da Cisjordânia. Israel iniciou, em razão disso, um cerco econômico a Gaza. O Hamas começa a usar túneis na fronteira com o Egito para contrabandear alimentos, combustível e armas. O grupo e facções ultrarradicais, como Jihad Islâmica, aumentaram os ataques com foguetes contra Israel. Uma trégua, mediada pelo Egito, entre Israel e Hamas vigorou entre junho e dezembro de 2008. Nenhum dos dois lados cumpriu estritamente o acordo. Deu no que deu. Desde 27 de dezembro do ano passado, Israel, respondendo aos ataques com foguetes do Hamas, vem atacando violentamente a Faixa de Gaza, provocando, até agora, mais de mil palestinos mortos, entre os quais, muitas crianças.

O permanente clima de hostilidades entre judeus e palestinos parece não ter solução. O radicalismo de ambos os lados e o fanatismo religioso não permitem que haja bom senso, que haja concessões. É um problema, pelo menos a curto e a médio prazo, sem uma solução definitiva. Mesmo que se transforme a Faixa de Gaza e a Cisjordânia em um estado nacional palestino, as hostilidades vão continuar, infelizmente.

Israel e as reservas de gás natural no litoral da Faixa de Gaza

Está circulando na Internet uma informação, originariamente divulgada por Michel Chossudovsky, um economista, professor da Universidade de Ottawa, no Canadá, que dirige também um tal Centro de Estudos de Globalização, a versão de que overdadeiro motivo de Israel ter atacado militarmente a Faixa de Gaza é o interesse dos israelenses em assumir o controle das reservas de gás natural existentes no litoral daquela região.

Até faz sentido. No entanto, como  muita gente não leva a sério o que Chossudovsky diz em seu livros e artigos, seria bom encarar essa versão dele com certa reserva.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Reforma ortográfica: será que o Brasil não vai acabar ficando sozinho nessa?

As novas regras ortográficas, fruto do Acordo de Unificação da Ortográfica de 1990, entraram em vigor no Brasil no último dia 1.º de janeiro. Mas não há motivo para desespero, pois as regras ortográficas antigas estarão em vigor até o dia 31 de dezembro de 2012. A partir de 1.º de janeiro de 2013, só valerão as novas regras.

Os países de língua portuguesa convivem há anos com dois sistemas de regras ortográficas: o lusitano, utilizado em Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor-Leste, e o brasileiro, em uso, obviamente, por nós, que vivemos cá, deste lado do Atlântico. Daí, a nova ortografia, pois o objetivo final dessa reforma é promover a unificação ortográfica, a fim de que todos os países que têm o português como idioma oficial possuam também um só conjunto de regras ortográficas, e não dois, como é atualmente. A justificativa dessa unificação é que o português, apesar de ser um dos idiomas mais falados do mundo, em razão da soma das populações de Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor-Leste, é politicamente inexpressivo. A unificação ortográfica iria fortalecer a língua portuguesa no mundo, como é o caso de idiomas como o espanhol, o árabe, o francês.

O argumento dos defensores da tal unificação ortográfica é inconsistente. O que tornou idiomas como o espanhol, o árabe, o francês e o inglês politicamente fortes e dominantes é o fato de que as pátrias-mães desses idiomas, ou seja, Espanha, Arábia, França e Inglaterra, terem sido nações fortes, dominadoras, que impuseram suas culturas e suas línguas por todos os seus domínios. O português é uma língua politicamente inexpressiva, porque, na era colonial, Portugal era um país politicamente inexpressivo.

De fato, a ortografia do espanhol, um idioma que, além de falado obviamente em seu país de origem, a Espanha, é utilizado também em praticamente toda a América Latina, bem como por uma parcela significativa de pessoas que vivem nos Estados Unidos, tem uma única ortografia. Mexicanos, argentinos, colombianos, espanhóis, uruguaios e nicaraguenses têm, cada um, suas peculiaridades no falar, isto é, falam diferente uns do outros, mas escrevem da mesma forma, o que demonstra o respeito que as ex-colônias espanholas tiveram e têm pelo idioma que herdaram, o que não ocorreu no Brasil. Nós sempre fomos rebeldes nessa parte. Tanto é assim, que todos os demais países de língua portuguesa, mesmo depois de se libertarem de Portugal, preservaram as regras ortográficas da antiga metrópole. Ao passo que nós, brasileiros, enveredamos por outros caminhos e criamos nossa própria ortografia. Agora queremos fazer o caminho de volta. Será que não é tarde demais?

É tão tarde que, quando se fala em unificação ortográfica, trata-se, na verdade, de uma unificação apenas legal. Isso significa que, se tudo der certo, se todos os países de língua portuguesa aderirem, teremos um só conjunto de regras ortográficas, mas, na prática, não haverá uma unificação real. Os portugueses continuarão escrevendo “génio”, “matiné”, “cómodo”, “facto”, enquanto nós, do lado de cá do Atlântico, continuaremos a escrever “gênio”, “matinê”, “cômodo”, “fato”.

A nova ortografia traz, sim, alguns avanços importantes, como o fim de certos acentos diferenciais que não tinham razão de ser; a eliminação do acento circunflexo em “vôo”, “crêem”, “vêem”. Por outro lado, traz também algumas incompreensíveis bobagens, como querer “uniformizar” a grafia de palavras como “hástia”, “véstia” e “cúmio”, e tentar “oficializar” formas de conjugação verbal, como “premeio”, “negoceio”, isso, sem falar na confusão que está causando na grafia de palavras unidas por hífen.

Como tem dito o conhecido professor Pasquale Cipro Neto, o custo dessa reforma ortográfica é muito alto para os poucos benefícios que ela pode gerar. Além disso, os portugueses, que serão bem mais atingidos por essa reforma do que nós, estão muito resistentes a essas mudanças na ortografia. Enquanto aqui no Brasil, apesar de críticas de intelectuais, escritores e outros setores da sociedade, não há nenhuma resistência à reforma ortográfica. Em Portugal, pelo contrário, que tem uma sociedade muito mais politizada, organizada e conservadora que a nossa, a forte resistência a essa unificação ortográfica pode fazer a diferença e, mesmo tendo o parlamento português aprovado a unificação, os lusitanos podem adiar indefinidamente a implantação da reforma e até nem a implantarem. Caso isso ocorra, é praticamente certo que Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste acompanharão a pátria-mãe e não implantarão também a tal reforma ortográfica. Se isso realmente vier a se concretizar, o que não é nada difícil, o Brasil vai ficar sozinho nessa aventura cara e, obviamente, vai ter de pagar a conta sozinho também.


quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Cuba - 50 anos socializando a miséria

No dia 1.º de janeiro de 1959, um grupo de algumas dezenas de homens, liderado por Fidel Castro, Camilo Cienfuegos e Ernesto “Che” Guevara, derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista, um sargento medíocre e semi-analfabeto, que, desde 1952, havia imposto um governo corrupto e tirano a Cuba. Foi a Revolução Cubana, que transformaria Cuba, um país que fica em uma ilha a pouco mais de 150 quilômetros da costa dos Estados Unidos, no único país comunista das Américas,

Cuba era uma colônia espanhola, mas os Estados Unidos demonstraram interesse pela Ilha. Entraram, então, em guerra contra a Espanha pelo domínio de Cuba e acabaram expulsando os espanhóis e governando a Ilha até 1902, quando Cuba se tornou independente. Independente em parte, pois o País passou a ser praticamente tutelado pelos Estados Unidos, que fez de Cuba uma espécie de neocolônia sua. Para se ter uma ideia da dimensão desse neocolonialismo, basta dizer que, em meados do século XX, mais de 70% das lavouras de cana-de-açúcar de Cuba estavam nas mãos de norte-americanos. Até a queda da ditadura de Fulgêncio Batista, em 1959, a ingerência política e econômica dos Estados Unidos na Ilha era muito forte.

Para desespero dos norte-americanos, essa situação mudou radicalmente, em 1.º de janeiro de 1959, com a Revolução Cubana, que transformou Cuba no único “satélite” do imperialismo soviético nas Américas. Assim como fazia com todos os demais países do Leste Europeu, Moscou trazia o governo cubano sob seu controle e ainda fornecia alimentos, petróleo e armamentos subsidiados ao governo de Fidel Castro. Ou seja, Cuba passou das mãos do Demônio para as de Satanás. Aliás, o país-satélite dos soviéticos que ousasse contrariar as orientações de Moscou sofreria sérias sanções do Kremlin. Hungria, em 1956, e Tchecoslováquia, em 1968, sentiram na pele a intransigência do imperialismo soviético a rebeldias e a ideias liberalizantes de seus “satélites”.

Cuba, depois da Revolução, teve alguns progressos sociais significativos na saúde, no esporte e na educação, uma educação direcionada, evidentemente, mas, em comparação com o que havia antes de Fidel chegar ao poder, já era algum avanço. Todos os cubanos adultos, hoje, sabem ler, mas só podem ler aquilo que o governo autorizar; todos os cubanos adultos, hoje, também saber escrever, desde que não escrevam nada contra o governo cubano ou contra o comunismo.

A exemplo do que havia antes da Revolução, continuaram, também, as perseguições, as prisões e as execuções. Não se sabe, com precisão, até hoje, quantos dissidentes o regime comunista cubano executou ao longo de sua existência. Há quem fale em 60 mil. Presume-se que ainda há muitos presos políticos em Cuba, assim como ainda há muita gente tentando fugir do País. Por causa disso é que, provavelmente, a pesca marinha em Cuba seja proibida, afinal de contas, os Estados Unidos ficam logo ali, a 150 quilômetros da costa cubana.

A verdade é que, hoje, depois que o Muro de Berlim foi derrubado, a União Soviética acabou, a China adotou um capitalismo ultrasselvagem, os países do Leste Europeu se democratizaram e adotaram a economia de mercado, inclusiva a Rússia, e o Vietnan, um antigo desafeto dos Estados Unidos, passou a ter os norte-americanos como seus maiores parceiros comercias, Cuba, que insistiu em manter-se até hoje na ortodoxia marxista, transformou-se num verdadeiro museu do socialismo utópico.

Como toda revolução, a cubana também criou um mito: o médico e aventureiro Ernesto “Che” Guevara, um argentino de classe média, que, por sua participação na Revolução Cubana, ganhou notoriedade e prestígio muito maiores que o próprio líder do movimento, Fidel Castro.

Ernestro “Che” Guevara foi mais um mito do que um herói ou vilão. Na verdade, sua atuação como guerrilheiro, com certo sucesso, restringiu-se apenas à Revolução Cubana. Na verdade, o grupo comandado por ele, Fidel Castro e Camilo Cienfuegos foi vitorioso mais por incompetência do próprio ditador Fulgêncio Batista do que pelos méritos dos guerrilheiros. No final de 1958, Batista estava praticamente isolado, sem apoio. Seu exército recusava-se a sair dos quartéis para combater a guerrilha de Fidel. Além disso, já não possuía mais o apoio dos Estados Unidos.

Depois da vitória da Revolução, “Che” foi ser presidente do Banco Nacional de Cuba e, em seguida, ministro da Indústria. Foi um fracasso nos dois cargos. Seu único feito, nessa época, foi comandar a reação do exército de Fidel à frustrada tentativa dos Estados Unidos de invadir Cuba, pela baia dos Porcos, a fim de derrubar os revolucionários cubanos. Sua duas tentativas seguintes de voltar à guerrilha revolucionária foram um fracasso, tanto no Congo como na Bolívia, onde ele morreu, em 09 de outubro de1967, em La Higuera, executado por Mario Terán, um tenente do exército boliviano. Fidel castro, então, se transformou naquele tipo de mito que, se não é amado, é odiado.

Muita gente culpa o bloqueio econômico que os Estados Unidos impõem a Cuba, há quase cinquenta anos, pela atual situação de penúria em que vive o país de Fidel Castro hoje. Apesar de haver já um comércio informal de cerca de US$500 milhões por ano entre Estados Unidos e Cuba, não há dúvida de que ficar privado de negociar com a maior economia do mundo pode afetar muito a vida da população da Ilha. No entanto, o próprio governo cubano não tem feito sua parte para mudar isso. A saída de cena de Fildel Castro, substituído por seu irmão, Raul Castro, trouxe alguma expectativa de mudanças e de abertura no País, mas liberar uso de celulares e de computadores é muito pouco para mostrar aos Estados Unidos e ao resto do mundo que Cuba está mudando, está se abrindo para o mundo moderno, para o século XXI. Enquanto o governo cubano teimar em continuar inflexível na velha ortodoxia socialista e não iniciar logo um processo de democratização do seu país, dificilmente haverá boa vontade do governo dos Estados Unidos, seja ele democrata ou republicano, para abrir suas portas para Cuba. Enquanto isso os cubanos vão continuar se privando de bem de consumo básicos, ganhando salários baixo. Ou seja, Cuba continuará socializando somente a miséria.

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Este texto foi elaborado já com base na nova ortografia da língua português, vigente a partir desta data