sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Reforma ortográfica: será que o Brasil não vai acabar ficando sozinho nessa?

As novas regras ortográficas, fruto do Acordo de Unificação da Ortográfica de 1990, entraram em vigor no Brasil no último dia 1.º de janeiro. Mas não há motivo para desespero, pois as regras ortográficas antigas estarão em vigor até o dia 31 de dezembro de 2012. A partir de 1.º de janeiro de 2013, só valerão as novas regras.

Os países de língua portuguesa convivem há anos com dois sistemas de regras ortográficas: o lusitano, utilizado em Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor-Leste, e o brasileiro, em uso, obviamente, por nós, que vivemos cá, deste lado do Atlântico. Daí, a nova ortografia, pois o objetivo final dessa reforma é promover a unificação ortográfica, a fim de que todos os países que têm o português como idioma oficial possuam também um só conjunto de regras ortográficas, e não dois, como é atualmente. A justificativa dessa unificação é que o português, apesar de ser um dos idiomas mais falados do mundo, em razão da soma das populações de Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor-Leste, é politicamente inexpressivo. A unificação ortográfica iria fortalecer a língua portuguesa no mundo, como é o caso de idiomas como o espanhol, o árabe, o francês.

O argumento dos defensores da tal unificação ortográfica é inconsistente. O que tornou idiomas como o espanhol, o árabe, o francês e o inglês politicamente fortes e dominantes é o fato de que as pátrias-mães desses idiomas, ou seja, Espanha, Arábia, França e Inglaterra, terem sido nações fortes, dominadoras, que impuseram suas culturas e suas línguas por todos os seus domínios. O português é uma língua politicamente inexpressiva, porque, na era colonial, Portugal era um país politicamente inexpressivo.

De fato, a ortografia do espanhol, um idioma que, além de falado obviamente em seu país de origem, a Espanha, é utilizado também em praticamente toda a América Latina, bem como por uma parcela significativa de pessoas que vivem nos Estados Unidos, tem uma única ortografia. Mexicanos, argentinos, colombianos, espanhóis, uruguaios e nicaraguenses têm, cada um, suas peculiaridades no falar, isto é, falam diferente uns do outros, mas escrevem da mesma forma, o que demonstra o respeito que as ex-colônias espanholas tiveram e têm pelo idioma que herdaram, o que não ocorreu no Brasil. Nós sempre fomos rebeldes nessa parte. Tanto é assim, que todos os demais países de língua portuguesa, mesmo depois de se libertarem de Portugal, preservaram as regras ortográficas da antiga metrópole. Ao passo que nós, brasileiros, enveredamos por outros caminhos e criamos nossa própria ortografia. Agora queremos fazer o caminho de volta. Será que não é tarde demais?

É tão tarde que, quando se fala em unificação ortográfica, trata-se, na verdade, de uma unificação apenas legal. Isso significa que, se tudo der certo, se todos os países de língua portuguesa aderirem, teremos um só conjunto de regras ortográficas, mas, na prática, não haverá uma unificação real. Os portugueses continuarão escrevendo “génio”, “matiné”, “cómodo”, “facto”, enquanto nós, do lado de cá do Atlântico, continuaremos a escrever “gênio”, “matinê”, “cômodo”, “fato”.

A nova ortografia traz, sim, alguns avanços importantes, como o fim de certos acentos diferenciais que não tinham razão de ser; a eliminação do acento circunflexo em “vôo”, “crêem”, “vêem”. Por outro lado, traz também algumas incompreensíveis bobagens, como querer “uniformizar” a grafia de palavras como “hástia”, “véstia” e “cúmio”, e tentar “oficializar” formas de conjugação verbal, como “premeio”, “negoceio”, isso, sem falar na confusão que está causando na grafia de palavras unidas por hífen.

Como tem dito o conhecido professor Pasquale Cipro Neto, o custo dessa reforma ortográfica é muito alto para os poucos benefícios que ela pode gerar. Além disso, os portugueses, que serão bem mais atingidos por essa reforma do que nós, estão muito resistentes a essas mudanças na ortografia. Enquanto aqui no Brasil, apesar de críticas de intelectuais, escritores e outros setores da sociedade, não há nenhuma resistência à reforma ortográfica. Em Portugal, pelo contrário, que tem uma sociedade muito mais politizada, organizada e conservadora que a nossa, a forte resistência a essa unificação ortográfica pode fazer a diferença e, mesmo tendo o parlamento português aprovado a unificação, os lusitanos podem adiar indefinidamente a implantação da reforma e até nem a implantarem. Caso isso ocorra, é praticamente certo que Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste acompanharão a pátria-mãe e não implantarão também a tal reforma ortográfica. Se isso realmente vier a se concretizar, o que não é nada difícil, o Brasil vai ficar sozinho nessa aventura cara e, obviamente, vai ter de pagar a conta sozinho também.


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