domingo, 13 de fevereiro de 2011

Chico Xavier - “O astro incrível”

Navegando pelo arquivo digital da revista VEJA, deparei com uma interessante matéria publicada na edição de 29 de dezembro de 1971, nas páginas 64 e 66. Trata-se de uma reportagem sobre a participação do médium mineiro Chico Xavier no programa “Pinga-Fogo”, da extinta TV Tupi de São Paulo, que foi ao ar em dezembro de 1971. No recente filme sobre a vida de Chico Xavier, sua trajetória é contada paralelamente à sua participação no programa jornalístico da extinta emissora. Na verdade, foram realizados dois programas “Pinga-Fogo” com Chico Xavier: um em julho de 1971 e outro em dezembro do mesmo ano. O programa reconstituído no filme é o primeiro, de julho de 1971, do qual não há nenhum registro nos arquivos de VEJA. No entanto, há uma matéria sobre o segundo programa, na qual consta um comentário por alto sobre o primeiro programa.

É interessante a gente rever um pouco sobre fatos relevantes do passado pelo ponto de vista da mídia da época em que o tal fato se passou, sem o filtro da História. É isso que estamos fazendo ao ler um texto como este transcrito logo abaixo.

Na transcrição, tomei o cuidado de adaptar o texto às regras ortográficas atuais.

O astro incrível

A maior atração da televisão brasileira em 1971 contraria algumas das regras mais elementares do fascínio sobre grandes púbicos. Tem voz monótona, efeminada. Demora-se mais que o necessário mesmo nas explicações mais simples. Usa uma linguagem empolada, povoada de metáforas óbvias e gastas. Praticamente não se movimenta em cena: sentado, balança-se o tempo todo na poltrona, de modo irritante. Seu único gesto, repetido desajeitadamente, é o de, às vezes, ajustar os óculos.

Tantas limitações, no entanto, não perturbaram nem diminuíram o sucesso do médium de Uberaba, Chico Xavier, no “Pinga-Fogo” especial de segunda-feira da semana passada. Durante quase cinco horas pesadas de perguntas e respostas sobre divórcio, hippies, pena de morte, censura, reencarnação e mais uma dezena de assuntos variados, ele prendeu a atenção de uma plateia na maioria idosa, que superlotou o auditório da TV Tupi de São Paulo (capacidade para quinhentas pessoas). O número de telespectadores ainda é incalculável: quatro emissoras transmitiram em cadeia e catorze outras haviam encomendado vídeo-tapes com urgência. (esses tapes, mais os nove intervalos com dez comerciais cada um, devem ter rendido acima de 150.000 cruzeiros à Tupi). Antes do programa, mais de cem perguntas já haviam chegado à estação por escrito ou por telefone; outras duzentas foram feitas pelos três telefones que não pararam de chamar durante a entrevista. Na tarde de segunda-feira, o superintendente da Tupi, Orlando Negrão, entrou em pânico: os oitocentos convites existentes já estavam distribuídos e precisava conseguir um para dona Zilda Natel, mulher do governador paulista.

Pela quinta vez – Em julho, no mesmo auditório, Chico Xavier deu a sua primeira entrevista ao “Pinga-Fogo”; audiência quase total (75%) e pedidos insistentes para reprises. Esses pedidos foram atendidos três vezes, sempre com audiência acima de 25% (muito alta para um programa que começa depois das 10 da noite e dura mais de quatro horas). A entrevista da última semana seria, portanto, a quinta aparição de Chico Xavier neste ano. E ele próprio, em suas palavras iniciais, declarava-se surpreso com tanto interesse: “Sinceramente, devemos confessar que estamos aqui numa posição imerecida. Emprestou-se tamanha solenidade a êste programa que, sinceramente, nos surpreendemos sobremaneira”.

O plural majestático e o estilo retórico durariam até o final. Habilmente, Chico Xavier salientou seu respeito pelas autoridades (“...rogamos aos nossos benfeitores espirituais que nos assistissem, que nos inspirassem para que a palavra que eu possa dizer não venha a ofender os nossos governantes, as nossas leis, as nossas autoridades, porque nós sabemos que sem lei nós rolaríamos no caos”). Com isso, evitava problemas como o enfrentado há três meses por Sílvio Santos, Flávio Cavalcanti e Chacrinha quando levaram aos seus programas a umbandista carioca que se apresenta como “Seu Sete da Lira”. E o “Pinga-Fogo” seguiria em paz até o último ato: um poema de exaltação à pátria, psicografado diante das câmaras e do auditório silencioso. O poema, com o título de “Brasil”, tem versos de rima nem sempre ricas (“Dos sonhos de Tiradentes/ Que se alteiam sempre mais/ Fizeste apóstolos, gênios/ Estadistas, generais” ou “Desde o dia em que nasceste/ Ao fórceps de Cabral/ O tempo se iluminou/ Na Bahia maternal”) e é atribuído a Castro Alves.

Com casca e tudo – Almir Guimarães, apresentador do “Pinga-Fogo”, procurou quebrar o clima solene de expectativa anunciado ao convidado que era chegada “a hora da onça beber água”. O radialista Vicente Leporace, um dos cinco entrevistadores da noite, reforçou a quebra de clima: autorizado por Chico Xavier, tratou-o “de mineiro para mineiro, com casca e tudo”. E fez a primeira pergunta: a morte trunca as pesquisas de um cientista ou “ele, depois de morto, pode continuar na evolução do espírito”? Segundo Chico Xavier, a morte não interrompe as pesquisas. O deputado e jornalista Freitas Nobre (MDB de São Paulo) fez a segunda pergunta: que significado tem o Natal para o espiritismo. Segundo Chico Xavier, o Natal é e continuará a ser importante. O parapsicólogo Ernani Guimarães Andrade apresentou a terceira pergunta: queria uma opinião sobre a reencarnação. Segundo Chico, as pesquisas sobre o assunto são da maior importância para os destinos da humanidade. O quarto entrevistador, o repórter dos Diários Associados, Durval Monteiro, tinha uma dúvida séria: “...serpa que a máquina fria, calculista, violenta, vai conseguir estrangular o homem”? Segundo Chico Xavier, a pergunta era “muito válida” e sôbre ela “precisamos estudar intensivamente”. O quinto entrevistador, repórter da Tupi, Saulo Gomes, quis saber “o que pensam os chamados benfeitores espirituais quanto à posição do Brasil atual”. Segundo Chico, “sem qualquer expressão eufemística, declaramos que a posição atual do Brasil é das mais encorajadoras e das mais dignas”.

Glória a Deus nas alturas – Qualquer outro programa razoável de televisão tem mais atrativos que a entrevista de Chico Xavier. Sorriso por sorriso, o de Sílvio Santos é mais cativante. Simpatia por simpatia, a de Hebe Camargo é mais convincente. O gesto de ajustar os óculos tem mais charme executado pelas mãos de Flávio Cavalcanti. A voz afetada de “Norminha”, personagem de Jô Soares, é mais espontânea.

Nenhum programa de televisão, por melhor que seja, terá no entanto os recursos de Chico Xavier. Qualquer problema do espírito, do corpo, deste ou de outro mundo tem dêle solução pronta e imediata – e isso nem os jurados destemidos jamais ousaram. E ninguém, a não ser o próprio Chico Xavier no programa de julho, teve até hoje, na televisão brasileira, condições de começar um programa transmitindo um recado de um espírito que, segundo êle, se encontrava ao seu lado, e terminar com um voto de “Glória a Deus nas alturas, Paz na Terra e Boa Vontade para com todos os homens. Feliz Natal a São Paulo e a todos. Muito obrigado”.

Revisa VEJA – edição n.º 173 – 29/12/1971 – páginas 64 e 66.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O telejornalismo no tempo da TV a lenha

VEJA_20_121_1968

Muitas vezes, a gente reclama do bombardeio de informações a que somos sobmetidos diariamente pelos noticiários da redes de TV. Não bastassem os telejornais da TV aberta, hoje também existem emissoras de TV, a cabo e até abertas, especializadas em jornalismo 24 horas por dia. Haja cabeça para tanta informação, transmitidas ao vivo, em tempo real, de várias partes do Brasil e do mundo.

Mas nem sempre foi assim. Nos velhos tempos da TV em preto e branco, à válvulas, sem recursos técnicos, a televisão informava mal, quando informava. Até o final da década de 60, ver televisão era a melhor maneira de se manter alheio ao que acontecia no mundo. Para conhecer bem esse tempo, transcrevo abaixo, conservando até a grafia original, reportagem publicada na edição da revista VEJA, de 20 de novembro de 1968 que nos descreve como a televisão daquela época era precária. Nessa ocasião, o Brasil recebeu a visita da rainha da Inglaterra, Elizabeth II, ponto de partida da reportagem, escrita 42 anos atrás. Vale a pela ner e ver como tudo era bem diferente naquela épca.
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TELEJORNALISMO, ZERO

Em dez dias no Brasil, a Rainha foi e veio. Viajou por terra, mar e ar. Sorriu, falou acenou, trocou de vestidos, chapéus e jóias. Até cavalgou. Um show de notícias. Mas quem esperou pelas reportagens da TV não viu quase nada.

Quem ligou a TV, em Brasília, na esperança de assistir à visita da Rainha Elizabeth à cidade, sofreu uma decepção. Não viu quase nada, além do cerimonial da chegada, no Aeroporto, e de uma festa de fim de ano de colégio. A única câmara (sic) em uso, convocada para contar a sessão solene do Congresso, focalizava, alternadamente, a Rainha, o orador ou dava uma visão estática do plenário, cheio de parentes dos deputados e senadores. Em compensação, os telespectadores paulistas levaram cinco dias para verem o video-tape da visita da Rainha ao Recife, que foi exibido exatamente quando Sua Majestade desembarcava em Congonhas. Mas o Departamento de Telejornalismo da TV Tupi (SP) nem se preocupou em explicar-se. Tudo passou despercebido, ninguém reclamou. É que o público já está acostumado. E os noticiários jã são conhecidos como “aquele programinha de dez minutos que serve de intervalo entre as novelas”.

O repórter Antônio Maria – O “Jornal Bancominas” (TV Itacolomi – Belo Horizonte) se orgulha de ter um dos maiores índices de audiência entre os noticiários de telecvisão de todo o País: 80% dos aparelhos de televisão de Belo Horizonte, sem contar os espalhados pelos quatrocentos municípios do interior atingido pela sua imagem. Razão do recorde: quando termina o capítulo da novela “Antônio Maia”, o locutor Jaime Gtomide lê ràpidamente quarenta notícias (trinta locais, oito internacionais e duas nacionais). Em seguida começa outra novela: “A Última Testemunha”. Por isso, os demais canais transferiram seus noticiários para depois das 22 horas. Ninguém quer competir com o “Repórter Antônio Maria”. Apenas outro repórter aceita o desafio. É o “Repórter Esse” (TV Tupi – Rio), transmitido em cadeia com as Emissoras Associadas de Vitória e Belo Horizonte. Apresentado por Gontijo Teodoro, é um dos poucos programas de telejornalismo que o público leva a sério.

A Esso planeja para 1970 um telejornal com imagens transmitidas do Rio, São Paulo e Recife. Êste primeiro projeto de cadeia nacional de televisão somente será possível com a inauguração da Rêde Nacional de Micro-ondas da Embratel. Enquanto isso, a TV Globo (Rio) pensa em aproveitar as transmissões via satélites (Telstar) para realizar um telejornal internacional. Até agora a preocupação geral com a entrada do Brasil na era das telecomunicações espaciais se vem limitando à recepção das imagens da Copa do Mundo de 1970, no México. A TV Globo e a TV Tupi (Rio) são as que gastam as maiores verbas mensais da televisão nacional com jornalismo: 50.000 cruzeiros novos.

Vietnan ou Coréia – Grande parte das emissoras de TV só mentém noticiário porque é obrigada pela CONTEL. Algumas conseguem burlar a lei: não chegam a empregar em informativos 5% de tempo exigidos legalmente. Por isso incluem programas de entrevistas na relação de seus “telejornalísticos”. Êsses programas, como os humorísticos, programas de auditório, dão IBOPE e recebem bons patrocínios. Dão lucros, enquanto os telejornais geralmente dão prejuízo ou lucros muito reduzidos.

A conseqüência é que as verbas para telejornalismo são pequenas, os profissionais recebem pouco (em Porto Alegre, ganham 200 cruzeiros mensais). A TV Itapoã (Salvador) não possui telex, teletipo, não exibe telefotos. Restringe-se à leitura de telegramas, notícias locais do govêrno. A TV Brasília, como não tinha filmes da guerra do Vietnan, fabricou uma montagem com filmes da guerra da Coréia. Transmitiu várias vezes a montagem e o diretor-substituto da emissora, Afonso Fabri, não achou nada demais. “Todas as guerras se parecem, não é mesmo?” Nem por isso Fernando Barbosa Lima, criador do “Jornal de Banguarda” (TV Rio), deixa de lembrar que “somos um dos países mais adiantado do mundo em telejornalismo e já ganhamos um prêmio internacional com esse tipo de programa”. Ele se refere ao tipo de programa em que se especializou: “slides”, cortes de câmara (sic), bonequinhos, desenhos, sombra de locutores, vozes cavernosas para substituir a pobreza dos filmes de reportagem Heron Domingues (TV Rio) acha que está melhorando, mas Armando Nogueira (cronista esportivo, diretor de telejornalismo da TV Globo) e Nemércio Nogueira (“Repórter Esso” de São Paulo) observam que o telejornalismo brasileiro nasceu errado porque teve como base o velho rádio, quando a BBC de Londres, por exemplo, se estruturou com jornalistas. Nemércio ainda se defende: “Como posso fazer um bom telejornal se o meu camera-man durante o dia é pedreiro”. Assim, o telespectador brasileiro realmente bem informado é aquele que lê a chamada imprensa escrita, os jornais principalmente. Ligar a TV é o mesmoq que desligar-se do mundo.
(matéria da revista VEJA – edição n.º 11, de 20/11/1968, página 64)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Voltando a postar

Tenho deixado pouca coisa escrita aqui ultimamente. Mesmo em férias do meu trabalho, não tive, durante os últimas dias, inspiração para escrever algo interessante. Comentar os fatos que são divulgados pela mídia diariamente tornou-se uma tarefa penosa. Graças à facilidade de comunicação, somos bombardeados todos os dias com uma grande quantidade de informação. É difícil digerir tudo isso. É mais difícil ainda formar um juízo de valor sobre cada coisa que acontece de importante por este mundo afora.

Eu sempre procuro escrever sobre aquilo que realmente me incomoda. Obviamente, antes de postar qualquer coisa, procuro me inteirar dos fatos, saber mais sobre o assunto a ser abordado em meu texto, para não escrever bobagem. Isso é importante. Não devemos escrever asneiras, mesmo em se tratando de um blog que praticamente ninguém lê, como é o caso deste aqui. Não podemos subestimar o poder de fogo da Internet. Queria eu, todos os dias, postar aqui alguma coisa, alguma impressão minha sobre algum assunto ou sobre algum fato importante que tenha sido divulgado pela imprensa. No entanto, com poucas informações, não é prudente emitir qualquer parecer. Não devemos falar sobre o que não sabemos.

Acho que vou começar a captar na Internet fatos que julgue importantes e, no final da semana, expô-los e comentar sobre eles, de forma resumida, com bom humor. Por isso, esta semana já começa a coletar informações e anotar tudo aquilo que me parece importante divulgar e comentar.

Então, mãos à obra.