Muitas vezes, a gente reclama do bombardeio de informações a que somos sobmetidos diariamente pelos noticiários da redes de TV. Não bastassem os telejornais da TV aberta, hoje também existem emissoras de TV, a cabo e até abertas, especializadas em jornalismo 24 horas por dia. Haja cabeça para tanta informação, transmitidas ao vivo, em tempo real, de várias partes do Brasil e do mundo.
Mas nem sempre foi assim. Nos velhos tempos da TV em preto e branco, à válvulas, sem recursos técnicos, a televisão informava mal, quando informava. Até o final da década de 60, ver televisão era a melhor maneira de se manter alheio ao que acontecia no mundo. Para conhecer bem esse tempo, transcrevo abaixo, conservando até a grafia original, reportagem publicada na edição da revista VEJA, de 20 de novembro de 1968 que nos descreve como a televisão daquela época era precária. Nessa ocasião, o Brasil recebeu a visita da rainha da Inglaterra, Elizabeth II, ponto de partida da reportagem, escrita 42 anos atrás. Vale a pela ner e ver como tudo era bem diferente naquela épca.
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TELEJORNALISMO, ZERO
Em dez dias no Brasil, a Rainha foi e veio. Viajou por terra, mar e ar. Sorriu, falou acenou, trocou de vestidos, chapéus e jóias. Até cavalgou. Um show de notícias. Mas quem esperou pelas reportagens da TV não viu quase nada.
Quem ligou a TV, em Brasília, na esperança de assistir à visita da Rainha Elizabeth à cidade, sofreu uma decepção. Não viu quase nada, além do cerimonial da chegada, no Aeroporto, e de uma festa de fim de ano de colégio. A única câmara (sic) em uso, convocada para contar a sessão solene do Congresso, focalizava, alternadamente, a Rainha, o orador ou dava uma visão estática do plenário, cheio de parentes dos deputados e senadores. Em compensação, os telespectadores paulistas levaram cinco dias para verem o video-tape da visita da Rainha ao Recife, que foi exibido exatamente quando Sua Majestade desembarcava em Congonhas. Mas o Departamento de Telejornalismo da TV Tupi (SP) nem se preocupou em explicar-se. Tudo passou despercebido, ninguém reclamou. É que o público já está acostumado. E os noticiários jã são conhecidos como “aquele programinha de dez minutos que serve de intervalo entre as novelas”.
O repórter Antônio Maria – O “Jornal Bancominas” (TV Itacolomi – Belo Horizonte) se orgulha de ter um dos maiores índices de audiência entre os noticiários de telecvisão de todo o País: 80% dos aparelhos de televisão de Belo Horizonte, sem contar os espalhados pelos quatrocentos municípios do interior atingido pela sua imagem. Razão do recorde: quando termina o capítulo da novela “Antônio Maia”, o locutor Jaime Gtomide lê ràpidamente quarenta notícias (trinta locais, oito internacionais e duas nacionais). Em seguida começa outra novela: “A Última Testemunha”. Por isso, os demais canais transferiram seus noticiários para depois das 22 horas. Ninguém quer competir com o “Repórter Antônio Maria”. Apenas outro repórter aceita o desafio. É o “Repórter Esse” (TV Tupi – Rio), transmitido em cadeia com as Emissoras Associadas de Vitória e Belo Horizonte. Apresentado por Gontijo Teodoro, é um dos poucos programas de telejornalismo que o público leva a sério.
A Esso planeja para 1970 um telejornal com imagens transmitidas do Rio, São Paulo e Recife. Êste primeiro projeto de cadeia nacional de televisão somente será possível com a inauguração da Rêde Nacional de Micro-ondas da Embratel. Enquanto isso, a TV Globo (Rio) pensa em aproveitar as transmissões via satélites (Telstar) para realizar um telejornal internacional. Até agora a preocupação geral com a entrada do Brasil na era das telecomunicações espaciais se vem limitando à recepção das imagens da Copa do Mundo de 1970, no México. A TV Globo e a TV Tupi (Rio) são as que gastam as maiores verbas mensais da televisão nacional com jornalismo: 50.000 cruzeiros novos.
Vietnan ou Coréia – Grande parte das emissoras de TV só mentém noticiário porque é obrigada pela CONTEL. Algumas conseguem burlar a lei: não chegam a empregar em informativos 5% de tempo exigidos legalmente. Por isso incluem programas de entrevistas na relação de seus “telejornalísticos”. Êsses programas, como os humorísticos, programas de auditório, dão IBOPE e recebem bons patrocínios. Dão lucros, enquanto os telejornais geralmente dão prejuízo ou lucros muito reduzidos.
A conseqüência é que as verbas para telejornalismo são pequenas, os profissionais recebem pouco (em Porto Alegre, ganham 200 cruzeiros mensais). A TV Itapoã (Salvador) não possui telex, teletipo, não exibe telefotos. Restringe-se à leitura de telegramas, notícias locais do govêrno. A TV Brasília, como não tinha filmes da guerra do Vietnan, fabricou uma montagem com filmes da guerra da Coréia. Transmitiu várias vezes a montagem e o diretor-substituto da emissora, Afonso Fabri, não achou nada demais. “Todas as guerras se parecem, não é mesmo?” Nem por isso Fernando Barbosa Lima, criador do “Jornal de Banguarda” (TV Rio), deixa de lembrar que “somos um dos países mais adiantado do mundo em telejornalismo e já ganhamos um prêmio internacional com esse tipo de programa”. Ele se refere ao tipo de programa em que se especializou: “slides”, cortes de câmara (sic), bonequinhos, desenhos, sombra de locutores, vozes cavernosas para substituir a pobreza dos filmes de reportagem Heron Domingues (TV Rio) acha que está melhorando, mas Armando Nogueira (cronista esportivo, diretor de telejornalismo da TV Globo) e Nemércio Nogueira (“Repórter Esso” de São Paulo) observam que o telejornalismo brasileiro nasceu errado porque teve como base o velho rádio, quando a BBC de Londres, por exemplo, se estruturou com jornalistas. Nemércio ainda se defende: “Como posso fazer um bom telejornal se o meu camera-man durante o dia é pedreiro”. Assim, o telespectador brasileiro realmente bem informado é aquele que lê a chamada imprensa escrita, os jornais principalmente. Ligar a TV é o mesmoq que desligar-se do mundo.
(matéria da revista VEJA – edição n.º 11, de 20/11/1968, página 64)

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