Navegando pelo arquivo digital da revista VEJA, deparei com uma interessante matéria publicada na edição de 29 de dezembro de 1971, nas páginas 64 e 66. Trata-se de uma reportagem sobre a participação do médium mineiro Chico Xavier no programa “Pinga-Fogo”, da extinta TV Tupi de São Paulo, que foi ao ar em dezembro de 1971. No recente filme sobre a vida de Chico Xavier, sua trajetória é contada paralelamente à sua participação no programa jornalístico da extinta emissora. Na verdade, foram realizados dois programas “Pinga-Fogo” com Chico Xavier: um em julho de 1971 e outro em dezembro do mesmo ano. O programa reconstituído no filme é o primeiro, de julho de 1971, do qual não há nenhum registro nos arquivos de VEJA. No entanto, há uma matéria sobre o segundo programa, na qual consta um comentário por alto sobre o primeiro programa.
É interessante a gente rever um pouco sobre fatos relevantes do passado pelo ponto de vista da mídia da época em que o tal fato se passou, sem o filtro da História. É isso que estamos fazendo ao ler um texto como este transcrito logo abaixo.
Na transcrição, tomei o cuidado de adaptar o texto às regras ortográficas atuais.
O astro incrível
A maior atração da televisão brasileira em 1971 contraria algumas das regras mais elementares do fascínio sobre grandes púbicos. Tem voz monótona, efeminada. Demora-se mais que o necessário mesmo nas explicações mais simples. Usa uma linguagem empolada, povoada de metáforas óbvias e gastas. Praticamente não se movimenta em cena: sentado, balança-se o tempo todo na poltrona, de modo irritante. Seu único gesto, repetido desajeitadamente, é o de, às vezes, ajustar os óculos.
Tantas limitações, no entanto, não perturbaram nem diminuíram o sucesso do médium de Uberaba, Chico Xavier, no “Pinga-Fogo” especial de segunda-feira da semana passada. Durante quase cinco horas pesadas de perguntas e respostas sobre divórcio, hippies, pena de morte, censura, reencarnação e mais uma dezena de assuntos variados, ele prendeu a atenção de uma plateia na maioria idosa, que superlotou o auditório da TV Tupi de São Paulo (capacidade para quinhentas pessoas). O número de telespectadores ainda é incalculável: quatro emissoras transmitiram em cadeia e catorze outras haviam encomendado vídeo-tapes com urgência. (esses tapes, mais os nove intervalos com dez comerciais cada um, devem ter rendido acima de 150.000 cruzeiros à Tupi). Antes do programa, mais de cem perguntas já haviam chegado à estação por escrito ou por telefone; outras duzentas foram feitas pelos três telefones que não pararam de chamar durante a entrevista. Na tarde de segunda-feira, o superintendente da Tupi, Orlando Negrão, entrou em pânico: os oitocentos convites existentes já estavam distribuídos e precisava conseguir um para dona Zilda Natel, mulher do governador paulista.
Pela quinta vez – Em julho, no mesmo auditório, Chico Xavier deu a sua primeira entrevista ao “Pinga-Fogo”; audiência quase total (75%) e pedidos insistentes para reprises. Esses pedidos foram atendidos três vezes, sempre com audiência acima de 25% (muito alta para um programa que começa depois das 10 da noite e dura mais de quatro horas). A entrevista da última semana seria, portanto, a quinta aparição de Chico Xavier neste ano. E ele próprio, em suas palavras iniciais, declarava-se surpreso com tanto interesse: “Sinceramente, devemos confessar que estamos aqui numa posição imerecida. Emprestou-se tamanha solenidade a êste programa que, sinceramente, nos surpreendemos sobremaneira”.
O plural majestático e o estilo retórico durariam até o final. Habilmente, Chico Xavier salientou seu respeito pelas autoridades (“...rogamos aos nossos benfeitores espirituais que nos assistissem, que nos inspirassem para que a palavra que eu possa dizer não venha a ofender os nossos governantes, as nossas leis, as nossas autoridades, porque nós sabemos que sem lei nós rolaríamos no caos”). Com isso, evitava problemas como o enfrentado há três meses por Sílvio Santos, Flávio Cavalcanti e Chacrinha quando levaram aos seus programas a umbandista carioca que se apresenta como “Seu Sete da Lira”. E o “Pinga-Fogo” seguiria em paz até o último ato: um poema de exaltação à pátria, psicografado diante das câmaras e do auditório silencioso. O poema, com o título de “Brasil”, tem versos de rima nem sempre ricas (“Dos sonhos de Tiradentes/ Que se alteiam sempre mais/ Fizeste apóstolos, gênios/ Estadistas, generais” ou “Desde o dia em que nasceste/ Ao fórceps de Cabral/ O tempo se iluminou/ Na Bahia maternal”) e é atribuído a Castro Alves.
Com casca e tudo – Almir Guimarães, apresentador do “Pinga-Fogo”, procurou quebrar o clima solene de expectativa anunciado ao convidado que era chegada “a hora da onça beber água”. O radialista Vicente Leporace, um dos cinco entrevistadores da noite, reforçou a quebra de clima: autorizado por Chico Xavier, tratou-o “de mineiro para mineiro, com casca e tudo”. E fez a primeira pergunta: a morte trunca as pesquisas de um cientista ou “ele, depois de morto, pode continuar na evolução do espírito”? Segundo Chico Xavier, a morte não interrompe as pesquisas. O deputado e jornalista Freitas Nobre (MDB de São Paulo) fez a segunda pergunta: que significado tem o Natal para o espiritismo. Segundo Chico Xavier, o Natal é e continuará a ser importante. O parapsicólogo Ernani Guimarães Andrade apresentou a terceira pergunta: queria uma opinião sobre a reencarnação. Segundo Chico, as pesquisas sobre o assunto são da maior importância para os destinos da humanidade. O quarto entrevistador, o repórter dos Diários Associados, Durval Monteiro, tinha uma dúvida séria: “...serpa que a máquina fria, calculista, violenta, vai conseguir estrangular o homem”? Segundo Chico Xavier, a pergunta era “muito válida” e sôbre ela “precisamos estudar intensivamente”. O quinto entrevistador, repórter da Tupi, Saulo Gomes, quis saber “o que pensam os chamados benfeitores espirituais quanto à posição do Brasil atual”. Segundo Chico, “sem qualquer expressão eufemística, declaramos que a posição atual do Brasil é das mais encorajadoras e das mais dignas”.
Glória a Deus nas alturas – Qualquer outro programa razoável de televisão tem mais atrativos que a entrevista de Chico Xavier. Sorriso por sorriso, o de Sílvio Santos é mais cativante. Simpatia por simpatia, a de Hebe Camargo é mais convincente. O gesto de ajustar os óculos tem mais charme executado pelas mãos de Flávio Cavalcanti. A voz afetada de “Norminha”, personagem de Jô Soares, é mais espontânea.
Nenhum programa de televisão, por melhor que seja, terá no entanto os recursos de Chico Xavier. Qualquer problema do espírito, do corpo, deste ou de outro mundo tem dêle solução pronta e imediata – e isso nem os jurados destemidos jamais ousaram. E ninguém, a não ser o próprio Chico Xavier no programa de julho, teve até hoje, na televisão brasileira, condições de começar um programa transmitindo um recado de um espírito que, segundo êle, se encontrava ao seu lado, e terminar com um voto de “Glória a Deus nas alturas, Paz na Terra e Boa Vontade para com todos os homens. Feliz Natal a São Paulo e a todos. Muito obrigado”.
Revisa VEJA – edição n.º 173 – 29/12/1971 – páginas 64 e 66.

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