Neste post, quero reproduzir, na íntegra, matéria da jornalista Ana Claudia Fonseca, publicada nas páginas 68 e 69 da revista VEJA, edição n. 2199, que chegou às bancas neste final de semana. A matéria fala sobre os crimes pelos quais o italiano Cesare Battisti foi condenado à prisão perpétua em seu país, uma democracia, com um Judiciário independente.
ELES SÓ QUEREM JUSTIÇA
O depoimento de familiares das vítimas de Battisti derruba a tese do governo brasileiro de que o italiano sofre perseguição política
Alberto Torregiani ficou paralítico. Maurizio Campagna perdeu o irmão e viu o pai definhar de tristeza. Alessandro Santoro testemunhou, aos 10 anos de idade, o assassinato do pai. Desde então, sofre com distúrbios psíquicos e pesadelos. Adriano Sabbadin foi obrigado a largar os estudos para se tornar arrimo de família aos 17 anos. VEJA conversou com quatro pessoas que tiveram a vida arrasada por Cesare Battisti, o italiano que o governo brasileiro, um dia antes da posse de Dilma Rousseff, decidiu não extraditar para a Itália. Em seu país, Battisti foi condenado à prisão perpétua por quatro homicídios, cometidos nos anos 70, quando era membro de um grupo terrorista de esquerda. Ele nega. Na semana passada, o governo italiano entrou com recurso pedindo que o criminoso permaneça preso até os ministros do Suprimo Tribunal Federal julgarem, em fevereiro, a validade da decisão de manter Battisti no Brasil. O primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi também avisou que pretende levar o caso ao Tribunal Internacional de Haia, pelo fato de o Brasil ter violado um tratado bilateral de extradição.
Como argumento para não entregar o criminoso à Itália, a Advocacia Geral da União (AGU), órgão de assessoria jurídica à Presidência brasileira, considerou que Battisti seria vítima de perseguição política. Os depoimentos das vítimas indicam que, ao contrário do que diz a AGU, o desejo de ver o terrorista pagar por seus crimes não tem nenhum componente político. É simplesmente um anseio por justiça. Os protestos que tomaram as ruas de vinte cidades italianas na semana passada, a propósito, transpareciam principalmente indignação pela ofensa que a decisão brasileira representou contra as instituições democráticas do país. Nos cartazes liam-se frases acusando o ex-presidente brasileiro de cumplicidade com os terroristas assassinos. Entre os manifestantes, em Roma, estava Alberto Torregiani. Seu pai, o joalheiro Pierluigi Torregieni, foi morto em 1979, em Milão, por ter reagido a uma “desapropriação”, eufemismo usado pelos comunistas para se referir a “assalto à mão armada”.Alberto, então com 15 anos, estava junto de seu pai quando os assassinos entraram na joalheria. Como recebia ameaças anônimas havia semanas, o comerciante andava sempre armado. Na troca de tiros com os terroristas, uma bala disparada por Pierluigi atingiu a coluna do filho adolescente, que ficou paralítico. O joalheiro foi executado com um tiro na cabeça. As investigações mostraram que Battisti foi o mandante do crime. “Não busco vingança, apenas justiça. Quero ver Barttisti preso e que joguem a chave fora”, diz Alberto.
O primeiro crime de Battisti ocorreu em Udine, no norte da Itália. Em 06 de junho de 1978, o agente carcerário Antonio Santoro, de 52 anos, deixou sua casa rumo à prisão onde trabalhava, a apenas 200 metros de distância. Eram 8h30, e ele estava atrasado. Talvez por isso não tenha reparado no casal de namorados na calçada. Santoro não havia dado dez passos quando o rapaz – Battisti com barba e bigode postiços – largou a moça e disparou duas vezes no agente, pelas costas. Atraído pelo barulho dos tiros, um dos três filhos de Antonio, Alessandro, de apenas 10 anos, chegou a tempo de ver o casal entrar em um carro e partir em disparada, enquanto seu pai agonizava na calçada. Alessandro lembra-se até hoje do rosto do assassino e não tem dúvida de que era Battisti. “Foi um desastre para minha família. Não tenho palavras para expressar o desespero que sentimos”, diz Alessandro, que hoje vive sozinho a poucos quarteirões da cena do crime. Atormentado pelo trauma, não guarda quase nenhuma lembrança da própria infância, a não ser os momentos do assassinato que serviu de batismo de sangue para Battisti. “A morte de meu pai foi uma espécie de troféu para ele”, afirma Alessandro. Nos “anos de chumbo” da Itália, era comum grupos terroristas competirem entre si pelos melhores alvos. Nessa disputa, policiais e agentes de segurança valiam mais pontos. O policial Adrea Campagna, por exemplo, tinha 25 anos quando, ao sair da casa da namorada, em Milão, foi executado com cinco tiros por Battisti, que foi reconhecido por uma testemunha. O irmão da vítima, Maurizio, explica que Andrea foi morto por vingança, porque foi visto na televisão, algumas semanas antes, prendendo terroristas. “Meu pai perdeu o gosto pela vida. Foi horrível vê-lo definhar com a dor da morte do meu irmão”, diz Maurizio.
Lino Sabbadin, um açougueiro bonachão de 45 anos de Santa Maria de Sala, perto de Veneza, teve sua sorte decidida depois de, ao reagir a um assalto, matar um comparsa de Battisti. Após alguns meses, Battisti e outro terrorista, Diego Jacomini, entraram no açougue quase vazio e atiraram duas vezes no peito de Lino, repetindo os disparos quando o açougueiro caiu no chão. A mulher de Lino, que estava a seu lado, começou a gritar de desespero. O filho Adriano acudiu e encontrou a mão ajoelhada com o seu pai nos braços, em meio a uma poça de sangue. Com a morte do pai, Adriano foi obrigado a largar a escola e assumir o sustento da casa. Tinha 17 anos. Para ele, o ex-presidente brasileiro se tornou cúmplice de um assassino ao optar por não extraditar o terrorista. Diz Adriano: “Battisti não merece perdão porque nunca demonstrou arrependimento”. A recusa em devolvê-lo à Itália envergonha o Brasil.
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Fonte: matéria da jornalista Ana Claudia Fonseca para a revista VEJA – edição n.º 2199 – 12/01/2011 – páginas 68 e 69.