A revista VEJA, em sua edição de 12 de janeiro de 2011, nas páginas 68 e 69, narra quatro histórias reais e muito tristes.
HISTÓRIA 1
Eram 8h30min da manhã de 06 de junho de 1978, em Udine, no norte da Itália, quando o agente carcerário Antonio Santoro, de 51 anos, deixou sua casa com destino ao presídio onde trabalhava, que ficava a apenas 200 metros de sua casa. Como estava apressado por estar atrasado, Antonio não reparou no casal de namorados na calçada. Mal ele havia dado dez passos, quando o rapaz largou a moça e lhe disparou dois tiros pelas costas. Um dos três filhos de Antonio, Alessandro, de dez anos na época, atraído pelo barulho, chegou a tempo de ver o casal entrar em um carro e partir em disparada, enquanto seu pai agonizava na calçada. Alessandro lembra-se até hoje do rosto do assassino e não tem dúvida de que era Cesare Battisti.
HISTÓRIA 2
O policial Adrea Campagna tinha apenas vinte e cinco anos quando, ao sair da casa da namorada, em Milão, foi executado com cinco tiros. O assassino foi reconhecido por uma testemunha: Cesare Battisti. Campagna teria sido morto por vingança, conforme afirmou seu irmão, Maurizio. Campagna havia sido visto algumas semanas antes, na TV, prendendo terroristas.
HISTÓRIA 3
Lino Sabbadin era um açougueiro, de 45 anos, de Santa Maria di Sala, próximo a Veneza. Ao reagir a um assalto, matou um dos assaltantes, que percentia à mesma organização terrorista a qual pertencia Cesare Battisti. A vingança não tardou. Alguns meses depois, o próprio Cesare Battisti e um parceiro, Diego Giacomini, invadiram o açougue de Lino e atiraram duas vezes em seu peito. Quando o açougueiro caiu no chão, deram-lhe mais dois tiros. A mulher de Lino, que estava ao seu lado no hora, começou a gritar desesperada. Quando Adriano, filho do casal, chegou para acudir a mãe, a encontrou-a ajoelhada com seu pai nos braços, em meio a uma poça de sangue.
HISTÓRIA 4
O pai de Alberto Torregiani, o joalheiro Pierluigi Torregiani, foi morto em 1979, em Milão, por haver reagido a uma “desapropriação”, eufemismo que os terroristas que se diziam “comunistas” usavam naquela época para se referir a “assalto à mão armada”. Alberto, que na época tinha 15 anos, estava junto com seu pai quando os terroristas invadiram a joalheria. Como já vinha recebendo ameaças anônimas havia semanas, o joalheiro andava sempre armado. Na troca de tiros com os criminosos, uma bala disparada pelo próprio Pierluigi atingiu a coluna de seu filho adolescente, que ficou paralítico. O comerciante foi executado com um tiro na cabeça.
Cesare Battisti foi acusado de haver praticado pessoalmente os três primeiros crimes acima narrados. Ele nega. Do quarto assassinato, o joalheiro de Milão, ele é acusado de ser o mandante. Ele também nega.
Cesare Batisti nasceu no dia 18 de dezembro de 1954, no vilarejo de Sermoneta, que fica província de Latina. Pouco se sabe sobre sua vida. Ele seria filho e neto de comunistas. Sua mãe, no entanto, seria católica fervorosa. Conta-se que havia na sala da casa onde Battisti, ainda criança, morava com sua família um retrato do ditador comunista russo Stalin, que Cesare, então, pensava ser um santo católico.
Pelo que se sabe, Battisti não foi muito longe nos estudos, não chegando a concluir sequer o ensino médio, que abandonou aos dezesseis anos. Aos dezessete anos, foi preso pela primeira vez, por furto. Aos vinte, foi preso novamente, por assalto à mão armada. Preso pela terceira vez, aos 22 aos, conheceu na cadeia Arrigo Cavalina, que era membro de um grupelho chamado Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), ao qual Battisti se juntou.
Na década de 70, surgiram na Europa várias organizações terroristas, tanto de esquerda quanto de direita. Só na Itália mais de seiscentos grupos desse tipo, das mais variadas matizes político-ideológicas, entre as quais as Brigadas Vermelhas, grupo de orientação marxista, que tinha uma estrutura quase militar. Foi esse grupo, inclusive, que sequestrou e matou, em 1978, o então primeiro-ministro Aldo Moro.
A organização à qual pertencia Cesare Battisti, no entanto, os PAC, Proletários Armados pelo Comunismo, era um grupo pequeno, com cerca de sessenta componentes, sem uma hierarquia definida, que cometia assaltos à mão armada mais para garantir o sustento de seus militantes do que para promover a “expropriação” do capitalismo.
Além de negar os crimes pelos quais foi condenado à prisão perpétua na Itália, Cesare Battisti afirma que abandonou a “luta armada” quando o primeiro-ministro Aldo Mouro foi sequestrado e assassinado pelo grupo Brigadas Vermelhas. Battisti alega que as organizações de esquerda se sentiram acuadas por causa da violenta repressão do governo italiano após a morte de Moro. Independentemente disso, Cesare Battisti acabou sendo preso em 1979. Mas, em 1981, fugiu da prisão, ajudado por Pietro Mutti, que, mais tarde, se declarou “arrependido” e imputou a Battisti participação central nos crimes cometidos pelos PAC. A dúvida aí é se Mutti teria dito a verdade ao acusar seu ex-companheiro ou disse isso apenas para se beneficiar da “delação premiada”, que é um benefício legal concedido a criminosos que aceitem colaborar na investigação ou a denunciar seus companheiros. Esse tipo de dispositivo legal foi criado na Itália, justamente durante o combate ao terrorismo e a grupos mafiosos. Depois, ele foi adotado em muitos países, inclusive no Brasil.
Foragido, Battisti foi para a França, tendo vivido por um ano clandestinamente em Paris, onde conheceu sua futura esposa. Da França, foi para o México, instalando-se na cidade de Puerto Escondido (o nome, no caso da situação de Battisti, é sugestivo), onde nasceu sua primeira filha. No México, Battisti virou intelectual. Escreveu seu primeiro livro e teve uma intensa vida cultural. Chegou a fundar até uma revista.
Acreditando numa proposta do governo do então presidente francês François Mitterrand de que pessoas envolvidas em atividades terroristas na Itália até 1981 e que tivessem abandonado a violência poderiam optar pela não extradição para a Itália, caso não praticassem mais crimes, Battisti retornou para a França em 1990, mas acaba sendo preso, um ano depois, em razão de um pedido de extradição da justiça italiana. Permaneceu na prisão de Fresnes por quatro meses, antes de ter sua extradição negada, em abril de 1991, pela Câmara de Acusação de Paris, que o declara, por duas vezes, não extraditável. Em razão disso, foi liberado e viveu em Paris com a esposa e duas filhas, trabalhando como escritor e tradutor.
Em 2004, a situação política muda e a França concorda em extraditar Cesare Battisti paa a Itália. Como Battiste já era uma pessoa conhecida na França, em razão de sua investida no mundo literário, houve reações a essa atitude do governo francês. Na iminência de ser extraditado, Cesare Battisti foge para o Brasil. Há quem afirme que, para essa fuga, Battisti contou até com a ajuda de membros do serviço secreto francês, que lhe teriam sugerido o Brasil como destino, além de lhe fornecerem um passaporte italiano, com sua foto e dados pessoais
Para encurtar a história, Cesare Battisti veio para o Brasil, acabou sendo preso, por portar um passaporte falso, e se transformou nessa enorme dor de cabeça para o governo brasileiro.
Pela biografia de Cesare Battisti, não se pode negar que ele não pode ser considerado nenhum anjo. Apesar de posar de intelectual, de escritor, sua vida escolar foi curta. Aos dezesseis anos, abandonou os estudos. Aos dezessete, foi preso por furto. Dois anos depois, voltou a ser preso, dessa vez por assalto à mão armada, Tudo isso aconteceu antes de ele ingressar na tal organização “Proletários Armados pelo Comunismo”, que, na verdade, não passava de um grupelho de desocupados, que pendia mais para o puro banditismo do que para a luta armada político-ideológica. Em suma, Cesare Battisti, independentemente de haver cometido os crimes pelos quais foi condenado à prisão perpétua pela justiça italiana, nunca foi nenhum exemplo de conduta irrepreensível.
Não se pode querer comparar as organizações guerrilheiras, de esquerda ou direita, que atuaram, no Brasil, no auge da ditadura militar, com os grupelhos armados que surgiram na Europa, especialmente na Itália e na Alemanha Ocidental, em meados dos anos 70. O Brasil estava sob o controle de uma ditadura militar impiedosa e truculenta. Não havia democracia e, por conseguinte, nem liberdade de expressão. Esse clima todo favoreceu o surgimento de inúmeras organizações armandas dispostas e lutar contra a ditadura militar.
No entanto, a Itália, nos anos 70, vivia uma outra realidade. Era uma democracia plena, como é até hoje, com um parlamento composto por representares dos principais segmentos da população italiana. O surgimento, ali, de inúmeros grupelhos que se diziam “revolucionários”, tentando seduzir as classes trabalhadoras, era mais uma espécie de “modismo” da época do que o resultado de um descontentamento político-ideológica do povo. O grupo mais organizado, atuante e violento eram as “Brigadas Vermelhas”, que, em 1978, chegaram a sequestrar e, depois, a matar o primeiro-ministro italiano Algo Moro. Isso fez com que o governo daquele país iniciasse uma verdadeira guerra aos grupos de terroristas. A repressão foi tão forte, tão intensa, que em pouco tempo a grande maioria das organizações terroristas italianas desapareceram. Muita gente foi presa, julgada e condenada.
No dia 31 de dezembro de 2010, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em seu último dia de mandato, negou o pedido de extradição de Cesare Battisti, baseado em um parecer da Procuradoria Geral da União, a mesma instituição que se negou a investigar o rápido crescimento patrimonial do ex-ministro-chefe da Casa Civil Antonio Palocci. Essa atitude, ratificada, recentemente, pelo Supremo Tribunal Federal, que determinou sua libertação, foi um desrespeito à Itália, um país amigo, uma democracia. Se extraditado, Cesare Battisti não seria perseguido, e sim devidamente punido pelos crimes pelos quais foi condenado pela Justiça italiana.
Será que, se Cesare Battisti fosse um dissidente da ditadura cubana, da Venezuela, a atitude de Lula seria a mesma? Duvido.