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@GilmarGrespan – EM TEMPO REAL
Um dos patrimônios mais valiosos de um país é sua própria história. Para que ela seja contada e recontada com precisão e clareza, toda informação tem de ser disponibilizada, de forma transparente. Independente da circunstâncias em que os fatos históricos ocorreram, nada pode ser omitido, escondido. A história de um país tem de ser pautada na verdade e na isenção.
Tramita no Senado um projeto de lei complementar que regulamenta o acesso a informações de interesse coletivo produzidas ou custodiadas pelo Estado. Estranhamente, duas figuras conhecidas da política nacional, os senadores José Sarney (PMDB-AP) e Fernando Collor de Melo (PTB-AL) pediram à presidente Dilma Rousseff que alguns tipos de documentos sejam mantidos sob “sigilo eterno”. Questionado, José Sarney citou como exemplo os documentos relativos a fronteiras negociadas pelo Barão de Rio Branco, no final do século XI e início do século XX. Segundo ele, a revelação de tais documentos podem “abrir feridas” antigas. O curioso é que Sarney defende a abertura de arquivos da história recente.
Como podem documentos relativos a fatos ocorridos há mais de cem anos abrir feridas antigas? O argumento de Sarney é tão absurdo, que causa estranheza.
Quem acompanhou a campanha eleitoral de Fernando Collor à Presidência da República, em 1989, se lembra de como o atual senador por Alagoas fazia pesadas críticas ao então presidente da República José Sarney. Eu me recordo que, quando foi lançada a candidatura à Presidência do empresário e apresentador de TV Sílvio Santos, que depois foi anulada pela Justiça Eleitoral, Collor, em pronunciamento na TV, acusou Sarney de ser o principal artífice daquela candidatura, afirmando que o então presidente estava transformando a disputa numa brincadeira de programa de auditório. Além disso, acusou Sarney de ter “pegado uma carona na História”, referindo-se ao fato de ter o então presidente ter assumido o cargo em decorrência do falecimento de Tancredo Neves, em 1985.
O fato é que Sarney e Collor, agora belos parceiros e amiguinhos, estão se esforçando atrapalhar a aprovação do projeto. É possível que tenham êxito em seus propósitos. A nova coordenadora política do governo, a ex-senadora Ideli Salvatti, já deu sinais de que poderá facilitar as coisas para que a pretendida alteração seja feito no projeto, obtendo em troca a defesa de vários temas de interesse do governo que estão tramitando no Congresso.
Seria um absurdo manter documentos oficiais de interesse histórico permanentemente trancafiados, eternamente sob sigilo. Trata-se de uma atitude que tira do povo brasileiro o direito básico de conhecer a própria história. Esses documentos devem ser ter, no tempo certo, seus conteúdos revelados, independentemente das “feridas” que possam abrir, para que a história seja contada, recontada e, sempre que for o caso, revisada, a fim de se evitar injustiças; A verdade tem que ser revelada, mesmo que seja dolorosa, mesmo que venha a mudar a reputação de algum personagem histórico. Pior que “abrir feridas” é cultuar falsos heróis, é execrar falsos vilões, é preservar a mentira e desprezar a verdade.
Se isso realmente se efetivar, esse será mais um desserviço que esses dois cidadãos prestarão ao Brasil.

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