Em depoimento à revista VEJA, disponível no portal da revista e no You Tube, o deputado e atual candidato ao governo do Rio de Janeiro, pelo Partido Verde, Fernando Gabeira, ao falar sobre a resistência ao golpe militar de 1964, admitiu que os grupos de resistência não queriam a restauração da democracia no País, e sim a implantação do socialismo e da ditadura do proletariado. “Ninguém no fundo queria a democracia, estrategicamente. Todo o mundo queria, na verdade, um socialismo. Buscava-se uma outra ditadura, que era a ditadura do proletariado. Tanto que, hoje, quando dizem assim 'Vocês foram os combatentes pela democracia', eu tenho minhas dúvidas e falo: 'Olha, não foi bem assim. Nós pudemos ter contribuído pra democracia, mas contra a nossa vontade, porque, naquele momento, realmente, o que estava em jogo era uma ditadura do proletariado'”. Veja o depoimento de Gabeira logo abaixo.
No dia 23 de novembro de 2008, publiquei um testo neste blog, com o título “Ditadura militar - quem realmente lutou pela volta da democracia no Brasil?”. O motivo do texto por mim aqui publicado era que o então ministro da Justiça, Tarso Genro, trouxera, então, à baila a proposta de revisão da Lei de Anistia, de 1979, que perdoou os perseguidos pelo regime militar e permitia que os exilados políticos voltassem ao Brasil. Em contrapartida, os crimes cometidos pela repressão também seriam érdpadps. Tarso Genro queria revisar a lei, 30 anos depois, para que os torturadores do regime militar também punidos.
Na verdade, a proposta de Tarso Genro se baseava numa grande falácia histórica: a de que todos os que lutaram contra a ditadura militar o fizeram em defesa da democracia. É mentira. É preciso desmascarar os falsos heróis desse período negro de nossa história. Houve, sim, quem batalhou bravamente pela restauração da democracia, do estado de direito. No entanto, a grande luta protagonizada pelos jovens, idealistas e ingênuos garotos aliciados pelas organizações guerrilheiras de esquerda, contra os cães de guarda da ditadura militar era pela implantação de um regime autoritário de esquerda no Brasil, e não pela democracia.
A era da ditadura militar no Brasil (1964-1985) foi um período negro, terrível, doloroso. Os golpistas, que não foram só os militares, rasgaram a Constituição de 1946 e impuseram um regime de força, sob a tutela das baionetas e dos fuzis. No entanto, ao analisar o ambiente daquela época, vamos notar que o mundo vivia o auge da chamada “Guerra Fria”. De um lado, o imperialismo dos Estados Unidos e de seus aliados europeus; do outro, o imperialismo da União Soviética e de seus “satélites”, ambos nocivos, ambos aniquiladores de consciência, ambos violentos, ambos perversos. No Brasil, o ambiente político era de grande turbulência. Sob a influência da “Guerra Fria”, havia, de um lado a chamada “direita”, que defendia a “família, a Pátria, a liberdade e a propriedade”, contra os “comunistas” de plantão, comedores de criancinhas. Do outro, uma horda de políticos, intelectuais e pseudointelectuais da chamada “esquerda”, que, deslumbrados com a figura mítica de “Che” Guevara e do ditador cubano Fidel Castro, defendiam uma reforma socialista. Na verdade, não só o Brasil, mas praticamente o mundo todo, naquela época, se dividia entre esses dois pensamentos políticos, decorrentes dos dois grandes impérios da época. Para os defensores de cada um dos lados, quem não era amigo era inimigo. Não havia como fugir deles. Ou se era um capitalista selvagem, um defensor do império Ianque, explorador da miséria e do trabalho dos países pobres, ou se era um comunista, uma ameaça à liberdade e ao direito de expressão e de propriedade e do liberalismo econômico. São dois sistemas que se baseiam em ideias totalmente falsas. Os capitalistas defendem a liberdade e o direito à propriedade. Como pode haver liberdade com miséria, com fome, com exploração do trabalho de milhões de despossuídos, com injustiças sociais profundas? Já os socialistas têm como base de suas ideias a igualdade entre os cidadãos e a justiça social, um discurso tão falso e nocivo quando o do capitalismo. Todas as experiências socialistas até hoje só promoveram socialização da pobreza e da fome, enquanto as elites das cúpulas dos Partidos Comunistas se refestelavam às escondidas, e, assim, fingiam para os ingênuos “intelectuais” de “esquerda” que estavam promovendo justiça social.
Voltando ao ambiente brasileiro em 1964, o presidente da República, quando ocorreu o golpe, era João Goulart (1919-1976), um dos herdeiros políticos de Getúlio Vargas, com forte ligação com os movimentos sindicais, ele se mostrou impotente diante da forte pressão dos diversos segmentos da esquerda para que implementasse as tais “reformas de base” e da reação de setores mais conservadores da sociedade, que viam nas tais reformas um caminho para o comunismo no Brasil. Apesar de as “reformas de base” terem sido rejeitadas no Congresso Nacional, por pressão da esquerda, Goulart começou a participar de uma série de comícios e atos púbicos para tentar defender suas propostas de mudança. Em 13 de março de 1964, foi realizado o histórico comício da Central do Brasil, no Rio de janeiro, com a participação de cerca de 150 mil pessoas. Acuado, Jango defendeu as reformas de base e apregoou o fim de sua política conciliadora com os setores mais conservadores da sociedade. A reação da sociedade foi imediata. No dia 19 de março, aconteceu, em são Paulo, a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, cujo objetivo era mobilizar a opinião pública contra o governo de João Goulart e a sua política, que poderia culminar, segundo seus organizadores, com a implantação de um regime totalitário comunista no Brasil. Para piorar a situação de Jango, houve, também, um discurso seu no Automóvel Clube do Brasil, com a presença dos líderes da revolta dos marinheiros, um movimento de rebelião militar que ocorria na época, o que significou uma quebra de hierarquia, o golpe não demorou. Em 31 de março de 1964, o general Olímpio Mourão Filho iniciou a movimentação das tropas de Juiz de Fora (MG) em direção ao Rio de Janeiro. Foi o início da “Revolução Redentora”, como ficou conhecido entre os militares o golpe de estado que derrubou o governo de João Goulart.
Pela narrativa do senador Pedro Simon no vídeo acima, João Goulart estava totalmente incomodado com a pressão exercida pela esquerda em seu governo. Quando ocorreu o golpe militar, Jango não reagiu, mesmo tendo apoio entre militares. Preferiu sair do País. A impressão que se tem, ao rever essa história, é que a Presidência da República tinha se tornando um fardo muito pesado para ele.
O golpe militar recebeu, de início, amplo apoio da sociedade brasileira da época. Mas a situação começou a mudar algum tempo depois. A ditadura começou a se tornar implacável e cruel com seus inimigos, tanto com as organizações de esquerda que lutavam para tomar o poder e instaurar aqui uma outra ditadura, quanto com os desarmados, que só queriam o retorno da democracia, nada mais. Por conta disso, prenderam, torturaram e mataram.
Mas não se deixe levar pelos discursos dos antigos guerrilheiros: as organizações de esquerda também não foram nada delicadas: mataram, sequestraram, assaltaram bancos, explodiram bombas. Era uma guerra suja, incentivada e até patrocinada pelos imperialistas do Ocidente (os EUA e seus parceiros), de um lado, e pelos imperialistas do Oriente (a URSS e seus estados "asseclas") de outro. Nessa guerra não havia mocinhos, só bandidos. Todos, ou pelo menos a maioria absoluta, lutavam pelo poder. Eram, na verdade, duas ditaduras, uma querendo derrubar a outra. Durante esse negro período de nossa história, foram poucos, muito poucos mesmo, os que realmente lutaram pela verdadeira democracia, pela restauração dos direitos individuais, pela liberdade de expressão, pelas liberdades políticas.
Entre os grandes e verdadeiros heróis da democracia estão figuras como Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro, Mário Covas, Hélio Bicudo e não políticos, como jornalistas, juristas e membros da sociedade civil, que lutaram realmente pela restauração da democracia. E com um detalhe: não precisaram pegar em armas para encarar a ditadura. Foi com muitos debates, muitos discursos, muitas articulações políticas, usando até a seu favor a própria legislação espúria que a ditadura criou que esses verdadeiros heróis conseguiram nos legar esta democracia plena que temos hoje no Brasil.
Por isso, foi muito oportuna essa declaração de Fernando Gabeira em seu depoimento à revista VEJA. Não podemos esquecer que Fernando Gabeira participou ativamente da luta armada contra a ditadura militar. Ele pertencia ao Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), que juntamente com a Ação Libertadora Nacional (ALN) sequestraram, no dia 04 de setembro de 1969, o embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick. A exigência do grupo era que o governo militar libertasse quinze (15) presos políticos, entre os quais o ex-ministro-chefe da Casa Cível do governo Lula José Dirceu. O governo atendeu à exigência, e o embaixador foi libertado. Mas os grupos, depois, foram descobertos e desarticulados.
A TÍTULO DE CURIOSIDADE
Neste mundo de disputa ideológica, as expressões “de esquerda” e “de direita” se tornaram muito comuns. Muita gente utiliza essas expressões, mas provavelmente não tem a menor ideia de onde elas surgiram.
Tudo começou na França, no final do séxulo XVIII. A situação econômica francesa da época era caótica. Ao longo da década de 1780, vários ministros da monarquia francesa tentaram amplicar a cobrança de impostos para tentar mudar o quadro econômico. No entanto, o conservadorismo da realeza e do clero impedia qualquer tipo de mudança.
Somente em 1789, durante o mandato do ministro Necker, foi que as autoridades reais abriram portas para um movimento reformista na França. Em maio daquele ano, houve a convocação de uma assembleia para mudar o conjunto de leis da França. Nessa grande assembleia, dividia-se a população francesa em três grandes classes sociais, os chamados Estados Gerais, que era composto pelo clero, pela nobreza e pelo terceiro estado, que representava o “resto” da população (banqueiros, comerciantes, médicos, artesãos, etc.). O Terceiro Estado era o único que tinha a obrigação de pagar os impostos, além de terem inúmeras limitações, como o fato de não poderem ocupar cargos públicos, por exemplo. Mas o que tem a ver a “direita” e “esquerda” com isso?
Durante a tal assembleia dos Estados Gerais, os membros do terceiro estado, isto é, o “resto”, o “povão”, sentavam-se à esquerda do Rei. Os membros do clero e da nobreza sentavam-se à direita. Foi daí que surgiu esse conceito. Direito passou, então, a servir de denominação para um grupo conservador, enquanto Esquerda passou a denominar um grupo de oposição.
Mas, se houver boa vontade e, principalmente, um pouco de ousadia, a gente pode mudar isso
Na segunda-feira à noite, véspera do feriado do Dia da Independência, fui, com familiares meus a uma pizzaria na cidade de Ilha Solteira, a fim de comemorarmos o aniversário de minha sobrinha-neta. Havia muito movimento nas ruas ilhenses, os bares estavam cheios, a pizzaria aonde fomos estava, também, muito movimentada, E era véspera de feriado, e, por isso, não havia quase universitários na cidade. A agitação era por conta da população local mesmo.
Ao voltamos de Ilha Solteira, quando cheguei a Pereira Barreto, deparamos com o monumento recentemente inaugurado na entrada da cidade totalmente às escuras, pois as lâmpadas que ali havia tinham sido roubadas. Afinal, Pereira Barreto não tem uma guarda municipal para cuidar de seu patrimônio. Senti mais tristeza, ainda, quando deparei com as ruas da cidade praticamente desertas, os poucos bares abertos praticamente às moscas, diferentemente da agitada Ilha Solteira.
O cenário melancólico de Pereira Barreto me fez lembrar de um conto que li num livro de Monteiro Lobato, chamado “Cidades Mortas”, No conto, o protagonista João Teodoro via com tristeza a decadência de sua Itaoca. Leia o conto. É curto e faz a gente pensar...
Um homem de consciência
Chamava-se João Teodoro, só. O mais pacato e modesto dos homens. Honestíssimo e lealíssimo, com um defeito apenas: não dar o mínimo valor a si próprio. Para joão Teodoro, a coisa de menos importância no mundo era João Teodoro. Nunca fora nada na vida, nem admitia a hipótese de vir a ser alguma coisa. E por muito tempo não quis nem sequer o que todos ali queriam: mudar-se para terra melhor. Mas João Teodoro acompanhava com aperto de coração o deperecimento visível de sua Itaoca. - Isto foi muito melhor, dizia consigo. Já teve três médicos bem bons - agora só um e bem ruinzote. Já teve seis advogados e hoje mal dá serviço para um rábula ordinário como o Tenório. Nem circo de cavalinhos bate mais por aqui. A gente que presta se muda. Fica o restolho. Decididamente, a minha Itaoca está se acabando... João Teodoro entrou a incubar a idéia de também mudar-se, mas para isso necessitava dum fato qualquer que o convencesse de maneira absoluta de que Itaoca não tinha mesmo conserto ou arranjo possível. - É isso, deliberou lá por dentro. Quando eu verificar que tudo está perdido, que Itaoca não vale mais nada de nada de nada, então arrumo a trouxa e boto-me fora daqui. Um dia aconteceu a grande novidade: a nomeação de João Teodoro para delegado. Nosso homem recebeu a notícia como se fosse uma porretada no crânio. Delegado, ele! Ele que não era nada, nunca fora nada, não queria ser nada, não se julgava capaz de nada... Ser delegado numa cidadinha daquelas é coisa seríssima. Não há cargo mais importante. É o homem que prende os outros, que solta, que manda dar sovas, que vai à capital falar com o governo. Uma coisa colossal ser delegado - e estava ele, João Teodoro, de-le-ga-do de Itaoca! ... João Teodoro caiu em meditação profunda. Passou a noite em claro, pensando e arrumando as malas. Pela madrugada botou-as num burro, montou num cavalo magro e partiu. - Que é isso, João? Para onde se atira tão cedo, assim de armas e bagagens? - Vou-me embora, respondeu o retirante. Verifiquei que Itaoca chegou mesmo ao fim. - Mas , como? Agora que você está delegado? - Justamente por isso. Terra em que João Teodoro chega a delegado, eu não moro. Adeus. E sumiu. (Monteiro Lobato – Cidades Mortas)
Pereira Barreto também já teve tempos melhores, e não soube aproveitar-se disso.
Temos de encarar o fato: Pereira Barreto é, hoje, uma cidade economicamente estagnada e em franca decadência. Mas nós podemos mudar isso. Basta a gente querer. Falta só boa vontade e uma certa dose de ousadia.
Nas eleições municipais de 1959, em São Paulo, um “candidato” a vereador de última hora, que teria sido lançado pelo jornalista Itaboraí Martins, em protesto contra o baixo nível dos candidatos àquele pleito, recebeu mais de 100 mil votos. O “candidato” campeão de votos não pôde assumir seu cargo de vereador porque os votos dados a ele foram todos anulados. Esse candidato era “Cacareco”, um inocente rinoceronte do Jardim Zoológico de São Paulo. Foi um dos casos de voto de protesto em massa mais famosos da história da política brasileira.
Outro caso de voto de protesto em massa bem conhecido ocorreu em 1988, quando os componentes do grupo de humoristas do Casseta & Planeta lançaram a candidatura do chimpanzé “Macaco Tião” para a Prefeitura do Rio de Janeiro. Ele recebeu mais de 400 mil votos, todos anulados, evidentemente.
Esse tipo de voto de protesto era possível antigamente porque a votação era realizada com cédulas de papel, e os eleitores podiam escrever o nome de seu candidato nela. Com a implantação da urna eletrônica, em 1996, esse tipo de voto não foi mais possível. Mas, mesmo assim, os eleitores insatisfeitos adotaram outra forma de expressar seu protesto contra os políticos tradicionais: votar em candidatos conhecidos atualmente como outsiders, que são aqueles estranhos ao meio político tradicional, os candidatos “exóticos”.
Na verdade, exemplos de candidaturas desse tipo não faltam na recente história política brasileira. Na primeira campanha para eleição presidencial depois do fim da ditadura militar, em 1989, surgiu uma figura bastante atípica: o já falecido cardiologista Enéas Carneiro. Apesar de ter conseguido uma votação inexpressiva naquela disputa para o Palácio do Planalto, seu modo rápido e empolgado de falar, sua longa barba negra, suas propostas mirabolantes e seu famoso bordão “Meu nome é Enéas!” marcaram época na política brasileira. Depois de mais uma tentativa fracassada para a Presidência em 1994, Enéas Carneiro se candidatou a deputado federal em 2002, ocasião em que obteve mais de 1,5 milhão de votos, a maior votação em termos absolutos já obtida para o cargo, em toda a história política brasileira, até hoje não superada.
Em 2010, o grande astro dos candidatos outsiders às próximas eleições é, sem dúvida, o cidadão Francisco Everaldo Oliveira Silva, de 45 anos, nascido em Itapipoca, no Ceará. Palhaço de circo e humorista de televisão, Francisco é mais conhecido por seu nome artístico, Tiririca, que, depois de fazer sucesso com a música “Florentina” e com suas atuações em programas humorísticos no SBT e na TV Record, faz sucesso, agora, com sua candidatura a deputado federal do PR (Partido da República) por São Paulo, nas próximas eleições, em 03 de outubro.
Tudo, na candidatura de Tiririca, parece uma grande brincadeira. Isso pode ser visto em suas aparições no horário gratuito na TV. Sua campanha vem chamando a atenção. É um dos assuntos preferidos do Twitter, e os vídeos de seus anúncios para a propaganda eleitoral são campeões de acesso no You Tube. No entanto, pode haver um aspecto perverso nessa candidatura, aparentemente tão ingênua.
Segundo informações divulgadas pelo portal FOLHA.COM, no último domingo, dia 19 de setembro, pesquisa do Datafolha mostra que Tiririca obteria, hoje, 3% da votação para deputado federal em São Paulo, o que equivaleria a 900 mil votos, considerando-se a proporção de 30 milhões de eleitores no Estado de São Paulo. Seria a segunda maior votação para deputado federal, em termos absolutos, em toda a história das eleições brasileiras, superada apenas por Enéas Carneiro, falecido em 2007, que, como já assinalado acima, nas eleições de 2002, recebeu mais de 1,5 milhão de votos.
Todo cidadão em gozo de seus direitos políticos, caso deseje, pode ingressar em uma agremiação política e se candidatar a um cargo eletivo. Afinal de contas, estamos em um país livre e democrático. No entanto, posso até estar enganado, mas a impressão que tenho é de que, por trás de candidaturas como a de Tiririca, pode haver uma jogada fisiológica.
Tiririca, na verdade, se os prognósticos do Datafolha estiverem certos, será o grande “puxador de votos” de seu partido, o PR, e da coligação “Juntos por São Paulo”, composta pelo PT, PRB, PC do B e PT do B. Isso se deve ao critério da proporcionalidade previsto pela legislação eleitoral brasileira. O número de vagas de cada partido é definido pelo quociente eleitoral - a soma de votos dos candidatos e da legenda dividida pelo número de vagas a que cada Estado tem direito na Câmara dos Deputados. O sistema proporcional cria a possibilidade de parte das vagas serem preenchida por candidatos que receberam volume de votos nominais insignificantes. O exemplo mais recente ocorreu nas eleições de 2002, quando Enéas Carneiro, do antigo PRONA, conseguiu arrastar consigo cinco candidatos do seu partido, que receberam pouquíssimos votos, entre eles, por exemplo, estava Vanderlei Assis, que obteve somente 275 votos.
Há que se esclarecer que o voto para o Legislativo no Brasil é proporcional porque as vagas disputadas nas Câmaras Municipais, nas Assembleias Legislativas e no Congresso Nacional não são destinadas diretamente aos candidatos eleitos, mas sim aos seus partidos ou às suas coligações partidárias.
Caso se confirme a votação expressiva de Tiririca, um dos beneficiados poderá ser a figura magna do PR em São Paulo, Waldemar Costa Neto. Envolvido no escândalo do “Mensalão”, em 2005, ele renunciou ao mandato de deputado federal para não ser cassado. Também foi acusado, em 2006, pelo Ministério Público Eleitoral, de compra de votos. No entanto, acabou sendo absolvido, depois, pelo TSE. Pode ser beneficiado, ainda, o polêmico cantor Agnaldo Timóteo, que já foi deputado federal pelo Rio de Janeiro e, atualmente, é vereador em São Paulo. Outro candidato conhecido é o compositor, cantor e humorista Juca Chaves, que já tentou se eleger senador pela Bahia em 2006, pelo PSDC, sem sucesso.
Além desses, também podem ir para a Câmara Federal, no rastro dos votos de Tiririca, outros candidatos menos conhecidos, como Luciana Costa, que já é deputada federal (suplente de seu “mestre”, Enéas Carneiro, falecido em 2007); Milton Monti, que, como deputado federal, apresentou um projeto de lei para recolocar o Latim e OSPB (Organização Social e Polícia do Brasil) no currículo das escolas brasileiras, sem sucesso; Pastor Paulo Freire, presidente da Igreja Assembleia de Deus de Campinas e do Conselho de Doutrina da Igreja Assembleia de Deus. Podem, ainda, ser beneficiados outros candidatos dos partidos que fazem parte da coligação “Juntos Por São Paulo”, que são o PR, o PT, o PRB e o PC do B.
Claro que, mesmo que tenha havido por parte do PR a intenção de lançar Tiririca como candidato “puxador de votos” para os demais candidatos do partido, o que não tem nada de ilegal ou politicamente imoral – trata-se de uma estratégia que se vale dos critérios de proporcionalidade da eleição, tudo não passa ainda de uma aposta política. Tiririca pode, sim, não ter tantos votos assim. Mas o eleitor tem que estar atento a esse importante detalhe da disputa eleitoral e saber que seu voto pode beneficiar não só o candidato em que ele votar.
Neste dia dia 18 de setembro de 2010, a televisão brasileira está completando 60 anos de existência. Por esse motivo, estamos disponibilizando este post especial, a fim de resgatar um pouco da origem desse veículo, que, como definiu Assis Chateaubriand, no longínquo ano de 1944, foi “o mais subversivo dos meios de comunicação do século XX”.
A palavra TELEVISÃO foi criada muito tempo antes da invenção do aparelho. Em 1900, durante um congresso em Paris, um francês chamado Constantin Perskyi descreveu um equipamento que, a base de selênio, conseguiria transmitir imagens à distância. O título da tese de Constantin era “Televisão”, mistura da palavra grega 'tele' (longe) e da latina 'videre' (ver).
Televisão mecânica
As primeiras experiências de transmissão de TV no Brasil ocorreram em 1931 e foram comandadas pelo engenheiro Edgar Roquete Pinto, o mesmo que implantara, oito anos antes, a primeira emisora de rádio brasileira, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Essas experiências foram feitas com a televisão mecânica, um sistema de TV primitivo, inventado, em 1924, pelo escocês John Logie Baird (1888-1946) e o americano Charles Francis Jenkins )1867-1934). Era um sistema rudimentar, que transmitia imagens ao vivo sincronizando dois discos perfurados em alta rotação. A TV mecânica se mostrou inviável e foi logo deixada de lado, substituída pela televisão eletrônica, que o Brasil veio a conhecer somente em junho de 1939, durante a Feira Internacional de Amostras, no Rio de Janeiro, então capital do País. Na demonstração, com equipamentos alemães, as pessoas que visitavam a feira podiam brincar com aquela parafernália estranha. O visitante falava por telefone com outra pessoa que estava a 20 metros dali e, ao mesmo tempo, podia vê-la numa telinha a um palmo de seu nariz. Era algo assombroso para a época.
Há quem afirme que a Rádio Nacional do Rio de Janeiro também teria feito, em 1947, transmissões experimentais de TV em seus estúdios. Como o resultado teria sido frustrante, a ideia da direção da emissora de implantar um canal de TV não teria prosperado. No entanto, não há confirmação segura se essas experiências ocorreram realmente ou não, mas, conforme informação que me foi passada por um amigo de uma comunidade da TV Tupi, no Orkut, que constaria no livro DICIONÁRIO DE ELETRECIDADE RÁDIO E TELEVISÃO, de Wilhelm Rothweiss, publicado em 1957, pela Editora Tupã, no Rio de Janeiro, que, no começo da década de 50, a concessão do canal 4 (VHF) do Rio de Janeiro, hoje pertencente à REDE GLOBO, estava disponibilizada para a Rádio Nacional, a fim de que ela implantasse o seu canal de TV. Não há informação, no entanto, se depois a direção da emissora teria desistido da ideia. O fato é que, no início dos anos 60, a concessão do canal 4 carioca passou para as Organizações Globo. Uma possível causa da desistência do canal teria sido a mudança da capital para Brasília, em 1960. A emissora estatal, então, teria optado por implantar um canal de TV na nova capital, a TV Nacional de Brasília, canal 3 (VHF), que hoje é a TV Brasil.
A propósito, no mesmo livro, consta que a concessão do canal 7 do Rio de Janeiro, hoje pertencente à BAND (antiga TV Guanabara) estava destinada, também no início dos anos 50, à antiga Rádio Mayrink Veiga, que foi fechada pela ditadura militar, em 1964, pois tinha entre seus proprietários o ex-governador Leonel Brizola, cunhado do presidente deposto João Goulart.
Em 1948, houve uma transmissão experimental de TV na cidade de Juiz de Fora (MG), durante as comemorações do centenário da cidade. Foram mostradas cenas do Congresso Eucarístico e de um jogo de futebol entre o Bangu, do Rio de Janeiro, e o Tupi, um clube local. O cameraman se chamava Olavo Bastos e, segundo o site TUDO SOBRE TV, por causa disso, foi considerado o primeiro operador de câmera de TV brasileiro.
Apesar desses antecedentes, o jornalista e escritor Fernando Moraes, afirmou em depoimento à TV Cultura, em 1990, que o início da história da televisão no Brasil teria ocorrido seis anos antes de sua inauguração oficial, isto é, em 1944, Naquele ano, o jornalista e empresário Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, uma cadeia de jornais e emissoras de rádio brasileiros, depois de assistir a uma transmissão experimental de televisão na Inglaterra, declarou a amigos que, assim que que acabasse a 2.ª Guerra mundial, então em cursoi, ele, Chateaubriand, iria instalar uma emissora de TV em São Paulo.
PRF 3 TV TUPI, A PRIMEIRA
Em 1948, Chateaubriand, juntamente com Mário Alderighi e Jorge Edo, técnicos de rádio, foram aos Estados Unidos a fim de adquirir os equipamentos necessários para montar a tão sonhada emissora de TV. Como não conheciam televisão, Mário e Jorge tiveram de fazer um estágio na RCA (Radio Corporation of America) e na NBC, em Nova York, para aprenderem a utilizar os novos equipamentos que seriam instalados na então futura emissora.
O BRASIL E O MUNDO EM 1950
O Brasil, em 1950, obviamente, era bem diferente do Brasil de hoje. A população não chegava a 60 milhões de habitantes. A renda per capta estava em torno de Cr$8,00 (oito cruzeiros). Uma ligação telefônica de São Paulo para o Rio de Janeiro podia demorar até seis horas para ser completada. Éramos um país ainda em início de processo de industrialização. A vida era outra, os hábitos eram outros. As músicas de maior sucesso em 1950 eram “Pé de Manacá”, com Izaurinha Garcia e Hervê Cordovil, “Antonico”, com Alcides Gerardi, “Olhs Verdes”, com Dalva de Oliveira, “Ave Maria”, com o Trio de Ouro, “General da Banda”, na voz de Linda Batista, “Meu brotinho”, com Francisco Carlos, “Balzaqueana”, com Jorge Gulart, “Boa noite, meu amor”, com Francisco Alves, e “Paraíba”, com Emilinha Borba. O rádio era o grande meio de comunicação da época. Mesmo assim, nem todo o mundo podia ter um receptor. Eles não eram assim tão inacessíveis, mas eram um pouco caros para os padrões da maioria dos brasileiros da época. A grande líder de audiência era a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, uma espécie de Rede Globo da época.
O mundo já vivia em clima de "Guerra Fria", pois Estados Unidos e União Soviética, que haviam saído vitoriosos da 2.º Guerra Mundial, já eram as duas superpotências que dividiam o mundo em dois blocos, um capitalista e outro comunista. O primeiro sintoma dessa bipolaridade começou justamente em 1950, com o início da Guerra da Coreia. Naquele ano, a Índia, já independente desde 1947, tornava-se república e eliminava todos os símbolos do domínio inglês de seus prédios públicos. A recém-implantada República Popular da China ocupava o Tibet. O Papa era Pio XII. No Brasil, naquele ano, ocorreram dois fatos marcantes. O primeiro foi a volta de Getúlio Vargas a vida política. Ele canditatou-se a presidente da República e se elegeu com uma significativa votação. O outra fato, de triste memória, foi a realização da primeira Copa do Mundo de Futebol no Brasil. Nossa seleção chegou à final contra o Uruguai. A seleção brasileira era favoritíssima, mas, na decisão, perdeu, em pleno Maracanã, para o Uruguai, por 2 a 1. Após o encerramento do jogo, todo o estádio do Maracanã foi dominado por um silêncio sepulcral, naquela tarde de 16 de julho de 1950, numa das cenas mais tristes da história do esporte brasileiro. O fato, se ocorresse hoje, provavelmente causaria mais indignação do que tristeza, mas, em 1950, o Brasil era um país provinciano, totalmente insignificante no contexto político, econômico e social do mundo. Nm título mundial para nosso futebol seria uma enorme conquista para os brasileiros daquela época.
Foi justamente nesse ambiante que foi implantada a primeira emissora de televisão do Brasio, a PRF 3 – TV Tupi de São Paulo, no dia 18 de setembro de 1950, sob o comando de Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados.
Mas não era só Chateaubriand que queria montar um canal de TV em São Paulo. Um grupo de investidores paulistas tinha o mesmo objetivo, que, mais tarde, viria a se concretizar com a implantação da TV Paulista, canal 5. Mas houve boatos na época de que Chateaubriand teria usado sua influência política para atrasar o projeto dos empresários a fim de, dessa forma, poder inaugurar seu canal, a PRF 3 TV Tupi bem antes de a TV Paulista ir ao ar. Se houve ou não interferência de “Chatô”, não se sabe até hoje. O fato é que a TV Paulista só foi inaugurada cerca de um ano e meio depois de a TV Tupi entrar no ar.
Chateaubriand teve dificuldades em comprar a aparelhagem para montar sua emissora de TV. A RCA resistia em vender os equipamentos, temendo que não houvesse no Brasil mercado para televisão e, consequentemente, que eles tivessem dificuldade em receber a conta. Depois de muita conversa, o negócio foi fechado. Chateaubriand, então, foi convidado a assistir a uma demonstração, em circuito fechado, de TV em cores, tecnologia que já estava em pleno desenvolvimento nos Estados Unidos. Ficou entusiasmado e quis trocar a TV em preto e branco, cujos equipamentos já haviam sido comprados, por TV em cores. Dizem que ele chegou até a rasgar as notas fiscais de compra dos equipamentos em preto e branco para trocá-los por equipamentos TV em cores. Naturalmente, foi dissuadido da ideia, pois a tecnologia para TV em cores ainda estava em desenvolvimento, e muitos problemas técnicos ainda tinham que ser superados para que pudesse ser utilizada de forma efetiva. As notas tiveram de ser refeitas, e o negócio fechado com a RCA.
Em 25 de março de 1950, finalmente os equipamentos chegaram ao porto de Santos. Chateaubriand, então, foi retirá-los, acompanhado de muitos de seus funcionários e artistas de suas emissoras de rádio de São Paulo. Já no dia 03 de abril, houve uma transmissão experimental, com uma apresentação do Frei José Mojica, um padre cantor mexicano, mas as imagens ficaram restritas a alguns aparelhos de TV instalados no prédio dos Diários Associados, em São Paulo.
Nova transmissão experimental da TV Tupi ocorreu no dia 10 de setembro de 1952, ou seja, oito dias antes de sua inauguração oficial. Segundo o site TUDO SOBRE TV (www.tudosobretv.com.br), a atração teria sido um filme em que Getúlio Vargas fala de seu retorno à vida política.
Cerca de dois meses antes da estreia oficial de sua emisora de TV, Chateaubriand se ateve a um detalhe importante: como inaugurar um canal de TV em São Paulo, se não havia receptores disponíveis suficientes no mercado? Dessa forma, quem iria assistir às primeiras transmissões da TV Tupi? Ele resolve, então, importar cerca de 200 aparelhos receptores de TV e os distribuiu a amigos, comerciantes e manda instalar alguns em pontos estratégicos da cidade, a fim de que o maior número possível de pessoas pudesse ver as primeiras transmissões oficiais da PRF3 TV Tupi de São Paulo, canal 3. Walter Foster, em seu depoimento à TV Cultura, em 1990, no programa 40 ANOS DE TV, disse que foram importados cerca de 500 televisores. No entanto, a maioria dos relatos disponíveis fala em 200 aparelhos. Aliás, sobre essa história dos televisores, dizem que Chateaubriand teve dificuldades em importar os aparelhos pelas vias normais. Teve, então, de usar sua influência e contrabandeá-los. Segundo o ALMANAQUE DA TV, de Bia Braune e Rixa, a primeira pessoa a receber um desses receptores de TV de presente foi a secretária de Assis Chateaubriand, Vera Faria. Segundo o mesmo ALMANAQUE DA TV, Roberto Marinho também teria sido contemplado com o mimo, o que seria estranho, pois a PRF3 TV Tupi era em São Paulo, e Roberto Marinho morava, como sempre morou, no Rio de Janeiro. A não ser que Chatauebriand já estivesse pensando na inauguração da TV Tupi do Rio de Janeiro, que viria a acontecer quatro meses depois.
A INAUGURAÇÃO
Finalmente chegou o grande dia: 18 de setembro de 1950. Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo realizou seu grande sonho: inaugurar uma emissora de TV em São Paulo, a PRF3 TV Tupi, canal 3, cuja razão social era Rádio e Televisão Difusora. As imagens eram geradas de um estúdio localizado na Rua 7 de Abril, centro de São Paulo. O transmissor da RCA foi colocado no topo do edifício do Banco do Estado de São Paulo, no início da Avenida São João. Estava tudo pronto. No entanto, algumas horas antes do início das transmissões, uma das duas câmeras que seriam utilizadas no programa de inauguração quebrou. Walter Obermiller, engenheiro norte-americano, que era o responsável pela implantação técnica,achou melhor adiar tudo. O jovem diretor artístico Cassiano Babus Mendes decidiu ir ao ar assim mesmo, com uma câmera só. Tudo aquilo que, durante semanas seguidas, havia sido ensaiado com duas câmeras, teria de ser feito com apenas uma. E o primeiro programa da TV brasileira, o TV NA TABA, foi ao ar assim mesmo, com uma única câmera. Deu tudo certo. Talvez se nós, hoje, acostumados com os modernos recursos da televisão contemporânea, assistíssemos a esse programa, feito com uma única câmera, acharíamos meio esquisito, mas, naquele tempo, para um público restrito, cuja maioria nunca havia visto televisão na vida, funcionou bem.
Entrou no ar, finalmente, naquela noite de 18 de setembro de 1950, uma segunda-feira, o programa TV NA TABA, primeiro programa da televisão brasileira. Narra o portal TUDO SOBRE TV que a primeira imagem que apareceu naquela noite na TV foi a de Sônia Maria Dorce, então com 5 anos, como uma indiazinha com um cocar e umas peninhas na cabeça. Ela apareceu e dsse: “Está no ar a TV no Brasil”. Segundo narra Elmo Francfort, no site http://www.sampaonline.com.br/, eram quase dez horas da noite, quando a atriz Yara Lins, então com 20 anos,. começou a falar, dando os prefixos de todas as emissoras de rádio do Brasil pertencentes aos Diários Associados e anunciou o início do primeiro programa de televisão da América Latina. Não era, na verdade, o primeiro programa de televisão da América Latina, mas o erro passou despercebido. Em seguida, Homero Silva convida Lolita Rodrigues a cantar "O Hino da TV" ou "Canção da TV"; composto especialmente para o evento por Marcelo Tupinambá, com letra de Guilherme de Almeida, conhecido na época como o “príncipe dos poetas”. Inicialmente, quem estava escalada para cantar o “Hino da Televisão” era Hebe Camargo. No entanto, com a desculpa de uma rouquidão, Hebe não compareceu à inauguração da TV Tupi, tendo sido substituída por Lolita Rodrigues. No entanto, soube-se depois que a história da rouquidão não era verdadeira. Hebe fora, na verdade, se encontrar com o empresário Luiz Ramos, seu namorado na época. Depois, Wilma Bentivegna cantou algumas músicas. Em seguida, Mazzaropi fez um pequeno esquete humorístico com o seu tipo caipira clássico, quadro que deu origem, depois, a um programa próprio de Mazzaropi na TV Tupi, chamado "O Rancho Alegre". Na sequencia, Aurélio Campos foi chamado para demonstrar aos telespectadores como seria feito as transmissões esportivas pela televisão, utilizando como base um tabuleiro de futebol de botão.
Dos primeiros dias de existência da PRF 3 TV, só restaram alguns minutos de um filme curto, sem som, feito por um cinegrafista amador anônimo, e de um outro filme, um musical feito especialmente para a TV, com Hebe Camargo e Ivon Cury cantando, juntos, uma música romântica. Ambos os filmes estão disponíveis no Youtube.
Elmo Francfort Ankerkrone, em seu artigo no site SAMPAONLINE, fala sobre esse filme de Hebe Camargo e Ivon Cury, mas não esclarece se ele foi exibido ou não durante o programa inaugural da TV Tupi, o TV NA TABA. Veja abaixo os filmes.
Filme do dia da inauguração da TV Tupi, em 18/09/2009, feito por um cinegrafista anônimo. Pelo que se sabe, são as únicas imagens que restaram do evento
Hebe Camargo e Ivon Cury, no primeiro musical feito para a TV brasiliera, em 1950.
TV NA TABA foi, pois, o primeiro programa exibido oficialmente pela televisão brasileira, no dia 18 de setembro de 1950.
A título de esclarecimento, a primeira emissora de televisão brasileira, a PRF 3 TV Tupi, canal 3, de São Paulo, foi a primeira emissora de TV da América do Sul, e não da América Latina. Na verdade, a primeira emissora de televisão a entrar no ar na América Latina foi a XHTV, Canal 4, da Cidade do México, embrião da atual TELEVISA, que foi inaugurada apenas 18 dias antes de a TV Tupi entrar oficialmente no ar. A XHTV, canal 4, existe até hoje e é o canal local da Televisa na Cidade do México.
COMO ERA A TELEVISÃO EM SEUS PRIMEIROS DIAS
Comparada às emissoras de TV dos Estados Unidos daquela época, a PRF3 TV era bem precária, bem rudimentar. Tudo era feito ao vivo, com parcos recursos, mas com muito idealismo, criatividade e talento.
A PRF 3 TV Tupi era uma emissora local; sua imagem só podia ser captada na cidade de São Paulo, e mesmo assim não era em todos os lugares da cidade que pegava bem.
Enquanto isso, nos Estados Unidos já havia o conceito de rede. Não havia, ainda, as transmissões a longa distância, micro-ondas, satélites, nem mesmo o videotape, mas as emissoras norte-americanas já utilizavam técnicas de gravação bem criativas, usando película. O programa era filmado diretamente de um monitor. Dessa forma, uma determinada atração podia ser reapresentada na mesma emissora ou apresentada em outras emissoras da mesma rede, da mesma forma como acontecia, por exemplo, com o videotape nas emissoras brasileiras, antes das transmissões em rede nacional ao vivo, por micro-ondas e satélites, na década de 60.
Veja logo a seguir a gravação de um episódio do programa “Ed Wynn Show”, da CBS de Los Angeles, que teve a participação de Carmem Miranda, em 29 de setembro de 1949, ou seja, quase um ano antes da inauguração da PRF3 TV Tupi.
Gravação, em película, de um programa da TV norte-americana, levado ao ar no dia 29/09/1949, quase um anos antes da inauguração da TV no Brasil, com a participação de Carmem Miranda, um documento raríssimo.
A PRF3 TV Tupi até chegou a utilizar, na década de 50, recursos semelhantes a esse em alguns teleteatros e no seriado “Alô, doçura”, mas não chegou a utilizá-los de forma mais frequente, como faziam os norte-americanos, porque, diferentemente do videotape, as gravações não podiam ser apagadas e os filmes reaproveitados, o que tornava o processo caro. Alguns fragmentos dessas gravações em películas feitos pela Tupi, na década de 50, também estão disponíveis no You Tube. Veja abaixo.
Fragmento de um episódio do programa "Alô, doçuça", de 1954, com John Herbert e Eva Vilma, gravado em película.
Fragmentos do teleteatro "TV de Vanguarda", no qual é exibida peça "Crime e Castigo", levado ao ar em 1956, pela TV Tupi de São Paulo, também gravado em película, com a participação de Marly Bueno, como Sonya, ao lado de Cassiano Gabus Mendes, como Raskolnikov. Este também é um documento raríssimo e de grande valor histórico.
No segundo dia de existência oficial da TV brasileira, 19 de setembro de 1950, já foi ao ar o primeiro telejornal brasileiro, que se chamava IMAGENS DO DIA. Segundo o portal TUDO SOBRE TV, ele era apresentado por Ribeiro Filho, com texto e reportagens de Rui Rezende. O primeiro programa de notícias da TV brasileira não tinha horário fixo para entrar no ar. Ele podia começar mais ou menos entre as 21h30min e as 22h. Isso dependia um pouco da sorte de não ocorrer nenhum imprevisto na operação, da programação da noite. As reportagens eram feitas com câmeras Auricons de cinema com filme de 16 milímetros. Dependendo da região do País de onde viesse a reportagem, era preciso revelar o filme e enviá-lo de avião até São Paulo. Geralmente chegavam em cima da hora, isso quando chegavam. Os cinegrafistas da equipe eram Jorge Kurkjian, Paulo Salomão e Alfonsas Zibas.
A questão do horário nos primeiros dias da PRF3 TV Tupi não se restringia apenas ao telejornal. Eram poucas horas de Tv por dia, e a programação não tinha horário fixo. Prova disso é um anúncio que foi publicado nos jornais dos Diários Associados de São Paulo, no dia 27 de setembro de 1950, com a programação daquele da PRF3 TV. O anúncio informava que a programação começaria às 20h. Era a seguinte a programação daquele dia:
Isso era o que os poucos proprietários de um receptor de TV em São Paulo, em 1950, tinham para ver. E tem gente que reclama da programação de TV atual. Eram poucas horas de TV no ar por dia, das 20h às 23h ou à meia-noite, no máximo, e só havia um canal. Além disso, durante o primeiro ano de TV no Brasil, não havia aqui fábricas de receptores de TV. Só havia disponíveis no mercado aparelhos importados, que eram caros, quase o preço de um automóvel da época, inacessíveis, portanto, à maioria da população. Como toda novidade tecnológica, televisão, em 1950, era coisa para gente rica. Só depois, com o passar do tempo, quando começaram a aparecer no mercado os primeiros televisores já produzidos no Brasil, da marca “Invictus”, é que a televisão começou, aos poucos, se popularizar. Mesmo assim, por muitos anos ainda, possuir um receptor de TV em casa era sinal de “status”.
OS “PERIGOS” E OS “MITOS” DE VER TELEVISÃO
Você, criatura do século XXI, que tem intimidade com a tecnologia digital de hoje, pode não acreditar, mas, durante muitos anos após a implantação da televisão no Brasil, circularam entre a população alguns mitos e crendices em relação ao aparelho de TV. Dizia-se, por exemplo, que ver televisão podia causar problemas na visão, que não era recomendável ver televisão no escuro ou de muito perto. Havia gente que acreditava que os artistas que apareciam na telinha podiam ver os telespectadores. Também se dizia que não se podia tocar no vidro da tela de um receptor de TV que estivesse ligado, pois o aparelho poderia explodir. Essas e outras lendas fizeram com quem muita gente, na década de 50, tivesse medo de ver TV. Hoje, está provado cientificamente que a radiação luminosa de um televisor não causa nenhum dano ao organismo.
Os imponentes receptores de TV daquele tempo, como se sabe, funcionavam a válvulas. Não havia, ainda, o transistor. Depois de ligado, os circuitos do aparelho tinham de se aquecer. Só depois de cerca de 1 minuto ou mais é que a imagem surgia na tela e o som começava a econar pela sala do telespectador. Além disso, a recepção dos televfisores daquela época, que era, obviamente em preto e branco, apresentava, dependendo da qualidade do sinal, alguns “sintomas”: a imagem às vezes “corria” na vertical ou “entortava”, o que não ocorre mais nas transmissões de TV de hoje em dia.
OS BRASILEIROS REINVENTARAM A TELEVISÃO
Depois de sua solene inauguração, a PRF3 TV Tupi começou a criar a televisão brasileira, a nossa forma de fazer televisão. Esse é um detalhe extremamente importante. Estávamos implantando a terceira televisão comercial do mundo. Só havia TV comercial nos Estados Unidos e no México em 1950. Como os primeiros produtores, diretores, artistas e profissionais da PRF3 TV Tupi, quase todos oriundos do rádio, nunca haviam visto televisão na vida, não tinham nenhuma referência desse novo veículo, nenhum deles havia sequer ido aos Estados Unidos para ver como era a televisão de lá, podemos dizer, seguramente, que eles tiveram de reinventar a televisão, criar, a partir da linguagem do rádio, do circo, do teatro e do cinema, uma linguagem própria para aquele novo veóculo que eles estavam inaugurando. Podemos dizer, sim, que aqueles profissionais que
colocaram no ar a PRF 3 TV Tupi de São Paulo, em 18 de setembro de 1950, não estavam só inaugurando a emissora pioneira, mas também criando a TV brasileira, ou seja, reinventando a televisão.
Por quase um ano e meio, a PRF3 TV Tupi foi a única emissora de TV de São Paulo. Sem concorrência, foi possível então fazer todo tipo de experiência com o novo veículo, e não foram poucas. Mas o maior destaque da televisão brasileira em seus primeiros anos foi a teledramaturgia. Ainda em novembro de 1950, a PRF3 TV exibiu o teleteatro "A Vida por um Fio", adaptação de um filme norte-americano chamado "Sorry, Wrong Number". Era um drama policial, com direção de Demerval Costa Lima e Cassiano Gabus Mendes, estrelando Lima Duarte, Lia de Aguiar, Walter Forster, Dionísio Azevedo e Yara Lins, que contava a história de uma mulher (Lia de Aguiar) que morre estrangulada pelo marido com o fio de telefone. Mesmo com poucos recursos, muitos textos consagrados nos palcos foram adaptados para o novo veículo. Como a TV ainda era um meio de comunicação restrito aos segmentos mais abastados da população e, consequentemente, pelo menos em tese, um público mais intelectualizados, ou seja, culturalmente mais exigente, essas adaptações de peças teatrais tinham uma boa aceitação por parte dos telespectadores daquela época. Um dos programas do gênero mais importantes foi, sem dúvida, “TV de Vanguarda”, que ia ao ar, ao vivo, nas noites de domingo, na TV Tupi, de São Paulo. Em cada programa, era apresentada uma um texto diferente, adaptado para a TV, tudo feito absolutamente ao vivo.
Claro que que os atores, oriundos do teatro e das radionovelas, tiveram que passar por algumas adaptações. Os teatros, por exemplo, naquela época, pelo que se sabe, não usavam equipamentos de som. Por isso, os atores, ao interpretarem, tinham de falar alto para serem ouvidos pelo público. Além disso, podiam, dependendo da cena, se movimentar no palco. Ao começarem a atuar na TV, tiveram de se adaptar ao novo veículo. Eram obrigados a controlar mais a entonação e a potência da voz. além de terem de se acostumar a uma postura mais estática, devido aos enquadramentos das câmeras. Os radioatores estavam mais acostumados a usar apenas a sua voz e a emoção para interpretarem seus personagens de radionovelas. Nem precisavam decorar os textos. Eles podiam ser lidos no ar mesmo, em frente ao microfone. Não precisavam se caracterizar para incorporar seus personagens (roupas, maquiagem, adereços, expressões faciais, etc.). Na TV, tiveram de acrescentar tudo isso às suas interpretações.
OS PATROCINADORES É QUE MANDAVAM
Um fato curioso é que, nos primeiros anos de televisão no Brasil, eram os patrocinadores que determinavam os programas que deviam ser produzidos e veiculados, além de contratarem diretamente os artistas e produtores. Prova disso é que muitos programas daquela época possuíam o nome dos patrocinadores, como: "Telenotícias Panair", "Repórter Esso", "Telejornal Bendix", "Reportagem Ducal", "Telejornal Pirelli", "Gincana Kibon", "Sabatina Maizena", "Teatrinho Trol", etc.
GAROTAS-PROPAGANDAS
Por falar em patrocinadores, não podemos nos esquecer das famosas garotas-propagandas dos primeiros anos da televisão brasileira.
Nos primeiros dias da TV Tupi no ar, como havia ainda poucos anunciantes, os intervalos entre um programa e outro eram preenchidos por um slide que ficava vários minutos na tela, o que irritava os telespectaroes da época. Depois começaram a surgia os anúncios publicitários feitos por belas e simpáticas garotas, que falavam sobre a qualidade dos produtos que anunciavam e, quando necessário, faziam demonstrações de seu funcionamento. Como tudo era feita ao vivo, os erros e vexames eram comuns.
A PRIMEIRA NOVELA DA TV BRASILEIRA
No princípio, eram os folhetins, romances que eram publicados diariamente em capítulos nos jornais. Depois, no início da década de 30 do século passado, surgiram, em Cuba, as primeiras radionovelas, que eram patrocinadas por produtos de limpeza. Logo, a ideia da novelas de rádio cubanas chegou aos Estados Unidos e, lá, recebeu o nome de soap operas, uma referência aos primeiros patrocinadores das das primeiras radionovelas cubanas (soap = sabão, em inglês). Do rádio, já na segunda metade da década de 40, as soap operas começaram, também, a ser exibidas na TV norte-americana.
A primeira novela da TV brasileria chamava-se ”SUA VIDA ME PERTENCE” e foi levada ao ar de 21 de dezembro de 1951 a 08 de fevereiro de 1952, no horário das 20h, pela PRF 3 TV Tupi de São Paulo. Diferentemente das novelas de hoje, ela não era diária. Ela era apresentada totalmente ao vivo, duas vezes por semana, às terças e às quintaas-feiras, às 20h, e cada capítulo durava cerca de 20 minutos. Essa novela era escrita, produzida, dirigida e estrelada pelo galã Walter Foster, que fazia par romântico com Vida Alves. Também participavam da trama os atores Lia de Aguiar, José Parisi, Néa Simões, Dionísio Azevedo e Lima Duarte.
Foi justamente durante a novela SUA VIDA ME PERTENCE, em 1951, que aconteceu o primeiro beijo da televisão brasileira, um “selinho” protagonizado por Walter Foster e Vida Alves.
Graças ao legado deixado pelas duas grandes escolas de dramaturgia da televisão brasileira, TV Tupi e TV Excelsior, hoje, a Rede Globo, maior herdeira desse legado, pode produzir e exportar telenovelas de alta qualidade técnica e artística.
É bom esclarecer que a dramaturgia na TV brasileira, na década de 50, era voltada quase que exclusivamente para adaptações de peças teatrais e seriados. Depois de SUA VIDA MER PERTENCE, em 1951/52, as novelas praticamente desapareceram da TV brasileira no decorrer da década de 50. Só foram reaparecer no início dos anos 60, quando a TV já era um veículo de comunicação mais popular. Em 1963, foi apresentada pela TV Excelsior a primeira novela diária da TV brasileira: 2-5499 OCUPADO, estrelada pelo casal Glória Menezes e Tarcício Meira.
Assim era a televisão brasileira em seus primeiros dias de existência, sessenta anos atrás. Ao deparamos com os modernos receptores de TV de hoje, com imagens coloridas, com qualidade digitais, inúmeros recursos, com programação transmitidas 24 horas por dia, via satélite, etc., é que notamos como esse veículo de comunicação, o “mais subversivo do século XX”, evoluiu e, com isso, transformou a sociedade.
Será que evoluiu tanto assim. Tecnicamente, sim, mas…
Certa vez, em uma entrevista, ao responder o que achava do rádio, o saudoso locutor Hélio Ribeiro, um dos maiores radialistas brasileiros de todos os tempos, disse que o rádio e, consequentemente, a televisão, sua irmã mais nova, eram a maior oportunidade perdida de melhorar o mundo. Ele tinha razão.
DEPOIMENTOS HISTÓRICOS
Trecho do programa 40 ANOS DE TELEVISÃO (parte 1), exibido pela TV Cultura de São Paulo, em 1990. No trecho, vemos o depoimento de FERNANDO MORAIS sobre o início da televisão no Brasil. Ele fala sobre as iniciativas de Assis Chateaubriand. para implantar em São Paulo a primeira emissora de TV da América do Sul. Ele conta que, ao ver uma experiência de TV em cores nos EUA, Chateaubriand. rasgou todas as notas de compra dos equipamejtos da Tupi e queria comprar já equipamentos para TV em cores.
Trecho do programa 40 ANO DE TELEVISÃO (parte 3), exibido pela TV Cultura d eSão Paulo, em 1999. Neste trecho vemos o depoimento de Walter Foster sobre a inauguração da TV Tupi de São Paulo, a primeira emissora de TV da América do Sul. Nesse trecho,Walter conta como foi a implantação da TV Tupi, como era a rotina da "Cidade do Rádio", onde foi instalada a PRF 3 TV Tupi, em 1950, cujos estúdios foram construídos justamente no local onde ele e seus colegas de rádio, durante as horas de folga, jogavam peteca.
Trecho do programa 40 ANO DE TELEVISÃO (parte 2), exibido pela TV Cultura de São Paulo, em 1990. Neste trecho vemos o depoimento de Walter Foster sobre a inauguração da TV Tupi de São Paulo, a primeira emissora de TV da América do Sul. Nesse trecho, fala sobre a rotina dos primeiros dias da TV Tupi, da responsablidade daquele momento em que ele e seus colegas estavam criando um novo veículo de comunicação, sobre a experiência de montar a primeira novela da TV brasileira, sobre a responsabilidade que ele e seus companheiros receberam de criar uma programação de TV sem ter nunca visto televisão na vida.