domingo, 26 de setembro de 2010

Fernando Gabeira admite: os grupos de esquerda de resistência à ditadura não queriam a democracia

Em depoimento à revista VEJA, disponível no portal da revista e no You Tube, o deputado e atual candidato ao governo do Rio de Janeiro, pelo Partido Verde, Fernando Gabeira, ao falar sobre a resistência ao golpe militar de 1964, admitiu que os grupos de resistência não queriam a restauração da democracia no País, e sim a implantação do socialismo e da ditadura do proletariado. “Ninguém no fundo queria a democracia, estrategicamente. Todo o mundo queria, na verdade, um socialismo. Buscava-se uma outra ditadura, que era a ditadura do proletariado. Tanto que, hoje, quando dizem assim 'Vocês foram os combatentes pela democracia', eu tenho minhas dúvidas e falo: 'Olha, não foi bem assim. Nós pudemos ter contribuído pra democracia, mas contra a nossa vontade, porque, naquele momento, realmente, o que estava em jogo era uma ditadura do proletariado'”. Veja o depoimento de Gabeira logo abaixo.

No dia 23 de novembro de 2008, publiquei um testo neste blog, com o título Ditadura militar - quem realmente lutou pela volta da democracia no Brasil?. O motivo do texto por mim aqui publicado era que o então ministro da Justiça, Tarso Genro, trouxera, então, à baila a proposta de revisão da Lei de Anistia, de 1979, que perdoou os perseguidos pelo regime militar e permitia que os exilados políticos voltassem ao Brasil. Em contrapartida, os crimes cometidos pela repressão também seriam érdpadps. Tarso Genro queria revisar a lei, 30 anos depois, para que os torturadores do regime militar também punidos.

Na verdade, a proposta de Tarso Genro se baseava numa grande falácia histórica: a de que todos os que lutaram contra a ditadura militar o fizeram em defesa da democracia. É mentira. É preciso desmascarar os falsos heróis desse período negro de nossa história. Houve, sim, quem batalhou bravamente pela restauração da democracia, do estado de direito. No entanto, a grande luta protagonizada pelos jovens, idealistas e ingênuos garotos aliciados pelas organizações guerrilheiras de esquerda, contra os cães de guarda da ditadura militar era pela implantação de um regime autoritário de esquerda no Brasil, e não pela democracia.

A era da ditadura militar no Brasil (1964-1985) foi um período negro, terrível, doloroso. Os golpistas, que não foram só os militares, rasgaram a Constituição de 1946 e impuseram um regime de força, sob a tutela das baionetas e dos fuzis. No entanto, ao analisar o ambiente daquela época, vamos notar que o mundo vivia o auge da chamada “Guerra Fria”. De um lado, o imperialismo dos Estados Unidos e de seus aliados europeus; do outro, o imperialismo da União Soviética e de seus “satélites”, ambos nocivos, ambos aniquiladores de consciência, ambos violentos, ambos perversos. No Brasil, o ambiente político era de grande turbulência. Sob a influência da “Guerra Fria”, havia, de um lado a chamada “direita”, que defendia a “família, a Pátria, a liberdade e a propriedade”, contra os “comunistas” de plantão, comedores de criancinhas. Do outro, uma horda de políticos, intelectuais e pseudointelectuais da chamada “esquerda”, que, deslumbrados com a figura mítica de “Che” Guevara e do ditador cubano Fidel Castro, defendiam uma reforma socialista. Na verdade, não só o Brasil, mas praticamente o mundo todo, naquela época, se dividia entre esses dois pensamentos políticos, decorrentes dos dois grandes impérios da época. Para os defensores de cada um dos lados, quem não era amigo era inimigo. Não havia como fugir deles. Ou se era um capitalista selvagem, um defensor do império Ianque, explorador da miséria e do trabalho dos países pobres, ou se era um comunista, uma ameaça à liberdade e ao direito de expressão e de propriedade e do liberalismo econômico. São dois sistemas que se baseiam em ideias totalmente falsas. Os capitalistas defendem a liberdade e o direito à propriedade. Como pode haver liberdade com miséria, com fome, com exploração do trabalho de milhões de despossuídos, com injustiças sociais profundas? Já os socialistas têm como base de suas ideias a igualdade entre os cidadãos e a justiça social, um discurso tão falso e nocivo quando o do capitalismo. Todas as experiências socialistas até hoje só promoveram socialização da pobreza e da fome, enquanto as elites das cúpulas dos Partidos Comunistas se refestelavam às escondidas, e, assim, fingiam para os ingênuos “intelectuais” de “esquerda” que estavam promovendo justiça social.

Voltando ao ambiente brasileiro em 1964, o presidente da República, quando ocorreu o golpe, era João Goulart (1919-1976), um dos herdeiros políticos de Getúlio Vargas, com forte ligação com os movimentos sindicais, ele se mostrou impotente diante da forte pressão dos diversos segmentos da esquerda para que implementasse as tais “reformas de base” e da reação de setores mais conservadores da sociedade, que viam nas tais reformas um caminho para o comunismo no Brasil. Apesar de as “reformas de base” terem sido rejeitadas no Congresso Nacional, por pressão da esquerda, Goulart começou a participar de uma série de comícios e atos púbicos para tentar defender suas propostas de mudança. Em 13 de março de 1964, foi realizado o histórico comício da Central do Brasil, no Rio de janeiro, com a participação de cerca de 150 mil pessoas. Acuado, Jango defendeu as reformas de base e apregoou o fim de sua política conciliadora com os setores mais conservadores da sociedade. A reação da sociedade foi imediata. No dia 19 de março, aconteceu, em são Paulo, a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, cujo objetivo era mobilizar a opinião pública contra o governo de João Goulart e a sua política, que poderia culminar, segundo seus organizadores, com a implantação de um regime totalitário comunista no Brasil. Para piorar a situação de Jango, houve, também, um discurso seu no Automóvel Clube do Brasil, com a presença dos líderes da revolta dos marinheiros, um movimento de rebelião militar que ocorria na época, o que significou uma quebra de hierarquia, o golpe não demorou. Em 31 de março de 1964, o general Olímpio Mourão Filho iniciou a movimentação das tropas de Juiz de Fora (MG) em direção ao Rio de Janeiro. Foi o início da “Revolução Redentora”, como ficou conhecido entre os militares o golpe de estado que derrubou o governo de João Goulart.

Pela narrativa do senador Pedro Simon no vídeo acima, João Goulart estava totalmente incomodado com a pressão exercida pela esquerda em seu governo. Quando ocorreu o golpe militar, Jango não reagiu, mesmo tendo apoio entre militares. Preferiu sair do País. A impressão que se tem, ao rever essa história, é que a Presidência da República tinha se tornando um fardo muito pesado para ele.

O golpe militar recebeu, de início, amplo apoio da sociedade brasileira da época. Mas a situação começou a mudar algum tempo depois. A ditadura começou a se tornar implacável e cruel com seus inimigos, tanto com as organizações de esquerda que lutavam para tomar o poder e instaurar aqui uma outra ditadura, quanto com os desarmados, que só queriam o retorno da democracia, nada mais. Por conta disso, prenderam, torturaram e mataram.

Mas não se deixe levar pelos discursos dos antigos guerrilheiros: as organizações de esquerda também não foram nada delicadas: mataram, sequestraram, assaltaram bancos, explodiram bombas. Era uma guerra suja, incentivada e até patrocinada pelos imperialistas do Ocidente (os EUA e seus parceiros), de um lado, e pelos imperialistas do Oriente (a URSS e seus estados "asseclas") de outro. Nessa guerra não havia mocinhos, só bandidos. Todos, ou pelo menos a maioria absoluta, lutavam pelo poder. Eram, na verdade, duas ditaduras, uma querendo derrubar a outra. Durante esse negro período de nossa história, foram poucos, muito poucos mesmo, os que realmente lutaram pela verdadeira democracia, pela restauração dos direitos individuais, pela liberdade de expressão, pelas liberdades políticas.

Entre os grandes e verdadeiros heróis da democracia estão figuras como Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro, Mário Covas, Hélio Bicudo e não políticos, como jornalistas, juristas e membros da sociedade civil, que lutaram realmente pela restauração da democracia. E com um detalhe: não precisaram pegar em armas para encarar a ditadura. Foi com muitos debates, muitos discursos, muitas articulações políticas, usando até a seu favor a própria legislação espúria que a ditadura criou que esses verdadeiros heróis conseguiram nos legar esta democracia plena que temos hoje no Brasil.

Por isso, foi muito oportuna essa declaração de Fernando Gabeira em seu depoimento à revista VEJA. Não podemos esquecer que Fernando Gabeira participou ativamente da luta armada contra a ditadura militar. Ele pertencia ao Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), que juntamente com a Ação Libertadora Nacional (ALN) sequestraram, no dia 04 de setembro de 1969, o embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick. A exigência do grupo era que o governo militar libertasse quinze (15) presos políticos, entre os quais o ex-ministro-chefe da Casa Cível do governo Lula José Dirceu. O governo atendeu à exigência, e o embaixador foi libertado. Mas os grupos, depois, foram descobertos e desarticulados.

A TÍTULO DE CURIOSIDADE

Neste mundo de disputa ideológica, as expressões “de esquerda” e “de direita” se tornaram muito comuns. Muita gente utiliza essas expressões, mas provavelmente não tem a menor ideia de onde elas surgiram.

Tudo começou na França, no final do séxulo XVIII. A situação econômica francesa da época era caótica. Ao longo da década de 1780, vários ministros da monarquia francesa tentaram amplicar a cobrança de impostos para tentar mudar o quadro econômico. No entanto, o conservadorismo da realeza e do clero impedia qualquer tipo de mudança.

Somente em 1789, durante o mandato do ministro Necker, foi que as autoridades reais abriram portas para um movimento reformista na França. Em maio daquele ano, houve a convocação de uma assembleia para mudar o conjunto de leis da França. Nessa grande assembleia, dividia-se a população francesa em três grandes classes sociais, os chamados Estados Gerais, que era composto pelo clero, pela nobreza e pelo terceiro estado, que representava o “resto” da população (banqueiros, comerciantes, médicos, artesãos, etc.). O Terceiro Estado era o único que tinha a obrigação de pagar os impostos, além de terem inúmeras limitações, como o fato de não poderem ocupar cargos públicos, por exemplo. Mas o que tem a ver a “direita” e “esquerda” com isso?

Durante a tal assembleia dos Estados Gerais, os membros do terceiro estado, isto é, o “resto”, o “povão”, sentavam-se à esquerda do Rei. Os membros do clero e da nobreza sentavam-se à direita. Foi daí que surgiu esse conceito. Direito passou, então, a servir de denominação para um grupo conservador, enquanto Esquerda passou a denominar um grupo de oposição.

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