Mas, se houver boa vontade e, principalmente, um pouco de ousadia, a gente pode mudar isso
Na segunda-feira à noite, véspera do feriado do Dia da Independência, fui, com familiares meus a uma pizzaria na cidade de Ilha Solteira, a fim de comemorarmos o aniversário de minha sobrinha-neta. Havia muito movimento nas ruas ilhenses, os bares estavam cheios, a pizzaria aonde fomos estava, também, muito movimentada, E era véspera de feriado, e, por isso, não havia quase universitários na cidade. A agitação era por conta da população local mesmo.
Ao voltamos de Ilha Solteira, quando cheguei a Pereira Barreto, deparamos com o monumento recentemente inaugurado na entrada da cidade totalmente às escuras, pois as lâmpadas que ali havia tinham sido roubadas. Afinal, Pereira Barreto não tem uma guarda municipal para cuidar de seu patrimônio. Senti mais tristeza, ainda, quando deparei com as ruas da cidade praticamente desertas, os poucos bares abertos praticamente às moscas, diferentemente da agitada Ilha Solteira.
O cenário melancólico de Pereira Barreto me fez lembrar de um conto que li num livro de Monteiro Lobato, chamado “Cidades Mortas”, No conto, o protagonista João Teodoro via com tristeza a decadência de sua Itaoca. Leia o conto. É curto e faz a gente pensar...
Um homem de consciência
Chamava-se João Teodoro, só. O mais pacato e modesto dos homens. Honestíssimo e lealíssimo, com um defeito apenas: não dar o mínimo valor a si próprio. Para joão Teodoro, a coisa de menos importância no mundo era João Teodoro.
Nunca fora nada na vida, nem admitia a hipótese de vir a ser alguma coisa. E por muito tempo não quis nem sequer o que todos ali queriam: mudar-se para terra melhor.
Mas João Teodoro acompanhava com aperto de coração o deperecimento visível de sua Itaoca.
- Isto foi muito melhor, dizia consigo. Já teve três médicos bem bons - agora só um e bem ruinzote. Já teve seis advogados e hoje mal dá serviço para um rábula ordinário como o Tenório. Nem circo de cavalinhos bate mais por aqui. A gente que presta se muda. Fica o restolho. Decididamente, a minha Itaoca está se acabando...
João Teodoro entrou a incubar a idéia de também mudar-se, mas para isso necessitava dum fato qualquer que o convencesse de maneira absoluta de que Itaoca não tinha mesmo conserto ou arranjo possível.
- É isso, deliberou lá por dentro. Quando eu verificar que tudo está perdido, que Itaoca não vale mais nada de nada de nada, então arrumo a trouxa e boto-me fora daqui.
Um dia aconteceu a grande novidade: a nomeação de João Teodoro para delegado. Nosso homem recebeu a notícia como se fosse uma porretada no crânio. Delegado, ele! Ele que não era nada, nunca fora nada, não queria ser nada, não se julgava capaz de nada...
Ser delegado numa cidadinha daquelas é coisa seríssima. Não há cargo mais importante. É o homem que prende os outros, que solta, que manda dar sovas, que vai à capital falar com o governo. Uma coisa colossal ser delegado - e estava ele, João Teodoro, de-le-ga-do de Itaoca! ...
João Teodoro caiu em meditação profunda. Passou a noite em claro, pensando e arrumando as malas. Pela madrugada botou-as num burro, montou num cavalo magro e partiu.
- Que é isso, João? Para onde se atira tão cedo, assim de armas e bagagens?
- Vou-me embora, respondeu o retirante. Verifiquei que Itaoca chegou mesmo ao fim.
- Mas , como? Agora que você está delegado?
- Justamente por isso. Terra em que João Teodoro chega a delegado, eu não moro. Adeus.
E sumiu. (Monteiro Lobato – Cidades Mortas)
Pereira Barreto também já teve tempos melhores, e não soube aproveitar-se disso.
Temos de encarar o fato: Pereira Barreto é, hoje, uma cidade economicamente estagnada e em franca decadência. Mas nós podemos mudar isso. Basta a gente querer. Falta só boa vontade e uma certa dose de ousadia.

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