Nas eleições municipais de 1959, em São Paulo, um “candidato” a vereador de última hora, que teria sido lançado pelo jornalista Itaboraí Martins, em protesto contra o baixo nível dos candidatos àquele pleito, recebeu mais de 100 mil votos. O “candidato” campeão de votos não pôde assumir seu cargo de vereador porque os votos dados a ele foram todos anulados. Esse candidato era “Cacareco”, um inocente rinoceronte do Jardim Zoológico de São Paulo. Foi um dos casos de voto de protesto em massa mais famosos da história da política brasileira.
Outro caso de voto de protesto em massa bem conhecido ocorreu em 1988, quando os componentes do grupo de humoristas do Casseta & Planeta lançaram a candidatura do chimpanzé “Macaco Tião” para a Prefeitura do Rio de Janeiro. Ele recebeu mais de 400 mil votos, todos anulados, evidentemente.
Esse tipo de voto de protesto era possível antigamente porque a votação era realizada com cédulas de papel, e os eleitores podiam escrever o nome de seu candidato nela. Com a implantação da urna eletrônica, em 1996, esse tipo de voto não foi mais possível. Mas, mesmo assim, os eleitores insatisfeitos adotaram outra forma de expressar seu protesto contra os políticos tradicionais: votar em candidatos conhecidos atualmente como outsiders, que são aqueles estranhos ao meio político tradicional, os candidatos “exóticos”.
Na verdade, exemplos de candidaturas desse tipo não faltam na recente história política brasileira. Na primeira campanha para eleição presidencial depois do fim da ditadura militar, em 1989, surgiu uma figura bastante atípica: o já falecido cardiologista Enéas Carneiro. Apesar de ter conseguido uma votação inexpressiva naquela disputa para o Palácio do Planalto, seu modo rápido e empolgado de falar, sua longa barba negra, suas propostas mirabolantes e seu famoso bordão “Meu nome é Enéas!” marcaram época na política brasileira. Depois de mais uma tentativa fracassada para a Presidência em 1994, Enéas Carneiro se candidatou a deputado federal em 2002, ocasião em que obteve mais de 1,5 milhão de votos, a maior votação em termos absolutos já obtida para o cargo, em toda a história política brasileira, até hoje não superada.
Em 2010, o grande astro dos candidatos outsiders às próximas eleições é, sem dúvida, o cidadão Francisco Everaldo Oliveira Silva, de 45 anos, nascido em Itapipoca, no Ceará. Palhaço de circo e humorista de televisão, Francisco é mais conhecido por seu nome artístico, Tiririca, que, depois de fazer sucesso com a música “Florentina” e com suas atuações em programas humorísticos no SBT e na TV Record, faz sucesso, agora, com sua candidatura a deputado federal do PR (Partido da República) por São Paulo, nas próximas eleições, em 03 de outubro.
Tudo, na candidatura de Tiririca, parece uma grande brincadeira. Isso pode ser visto em suas aparições no horário gratuito na TV. Sua campanha vem chamando a atenção. É um dos assuntos preferidos do Twitter, e os vídeos de seus anúncios para a propaganda eleitoral são campeões de acesso no You Tube. No entanto, pode haver um aspecto perverso nessa candidatura, aparentemente tão ingênua.
Segundo informações divulgadas pelo portal FOLHA.COM, no último domingo, dia 19 de setembro, pesquisa do Datafolha mostra que Tiririca obteria, hoje, 3% da votação para deputado federal em São Paulo, o que equivaleria a 900 mil votos, considerando-se a proporção de 30 milhões de eleitores no Estado de São Paulo. Seria a segunda maior votação para deputado federal, em termos absolutos, em toda a história das eleições brasileiras, superada apenas por Enéas Carneiro, falecido em 2007, que, como já assinalado acima, nas eleições de 2002, recebeu mais de 1,5 milhão de votos.
Todo cidadão em gozo de seus direitos políticos, caso deseje, pode ingressar em uma agremiação política e se candidatar a um cargo eletivo. Afinal de contas, estamos em um país livre e democrático. No entanto, posso até estar enganado, mas a impressão que tenho é de que, por trás de candidaturas como a de Tiririca, pode haver uma jogada fisiológica.
Tiririca, na verdade, se os prognósticos do Datafolha estiverem certos, será o grande “puxador de votos” de seu partido, o PR, e da coligação “Juntos por São Paulo”, composta pelo PT, PRB, PC do B e PT do B. Isso se deve ao critério da proporcionalidade previsto pela legislação eleitoral brasileira. O número de vagas de cada partido é definido pelo quociente eleitoral - a soma de votos dos candidatos e da legenda dividida pelo número de vagas a que cada Estado tem direito na Câmara dos Deputados. O sistema proporcional cria a possibilidade de parte das vagas serem preenchida por candidatos que receberam volume de votos nominais insignificantes. O exemplo mais recente ocorreu nas eleições de 2002, quando Enéas Carneiro, do antigo PRONA, conseguiu arrastar consigo cinco candidatos do seu partido, que receberam pouquíssimos votos, entre eles, por exemplo, estava Vanderlei Assis, que obteve somente 275 votos.
Há que se esclarecer que o voto para o Legislativo no Brasil é proporcional porque as vagas disputadas nas Câmaras Municipais, nas Assembleias Legislativas e no Congresso Nacional não são destinadas diretamente aos candidatos eleitos, mas sim aos seus partidos ou às suas coligações partidárias.
Caso se confirme a votação expressiva de Tiririca, um dos beneficiados poderá ser a figura magna do PR em São Paulo, Waldemar Costa Neto. Envolvido no escândalo do “Mensalão”, em 2005, ele renunciou ao mandato de deputado federal para não ser cassado. Também foi acusado, em 2006, pelo Ministério Público Eleitoral, de compra de votos. No entanto, acabou sendo absolvido, depois, pelo TSE. Pode ser beneficiado, ainda, o polêmico cantor Agnaldo Timóteo, que já foi deputado federal pelo Rio de Janeiro e, atualmente, é vereador em São Paulo. Outro candidato conhecido é o compositor, cantor e humorista Juca Chaves, que já tentou se eleger senador pela Bahia em 2006, pelo PSDC, sem sucesso.
Além desses, também podem ir para a Câmara Federal, no rastro dos votos de Tiririca, outros candidatos menos conhecidos, como Luciana Costa, que já é deputada federal (suplente de seu “mestre”, Enéas Carneiro, falecido em 2007); Milton Monti, que, como deputado federal, apresentou um projeto de lei para recolocar o Latim e OSPB (Organização Social e Polícia do Brasil) no currículo das escolas brasileiras, sem sucesso; Pastor Paulo Freire, presidente da Igreja Assembleia de Deus de Campinas e do Conselho de Doutrina da Igreja Assembleia de Deus. Podem, ainda, ser beneficiados outros candidatos dos partidos que fazem parte da coligação “Juntos Por São Paulo”, que são o PR, o PT, o PRB e o PC do B.
Claro que, mesmo que tenha havido por parte do PR a intenção de lançar Tiririca como candidato “puxador de votos” para os demais candidatos do partido, o que não tem nada de ilegal ou politicamente imoral – trata-se de uma estratégia que se vale dos critérios de proporcionalidade da eleição, tudo não passa ainda de uma aposta política. Tiririca pode, sim, não ter tantos votos assim. Mas o eleitor tem que estar atento a esse importante detalhe da disputa eleitoral e saber que seu voto pode beneficiar não só o candidato em que ele votar.
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