Melita Maschmann
Melita
escreveu em suas memórias: “Minha
família tinha planos conservadores para mim. Na boca de meus pais,
as palavras ‘social’ e ‘socialismo’ tinham sempre um tom de
desprezo. Mas eu acreditava nos nazistas quando eles propunham acabar
com o desemprego e tirar 6 milhões de pessoas da pobreza. Eu
acreditava neles quando diziam que iriam unificar a nação alemã,
então dividida em mais de 40 partidos e superar as consequências
ditadas no Tratado de Versalhes”.
Mesmo
contra a vontade de seus pais “conservadores”, a jovem Melita
Maschmann passou a se dedicar integralmente aos ideais nazistas. Em
1942, viajou para a Polônia, então ocupada pelo exército alemão,
para fazer um trabalho voluntário. Com apenas vinte e três anos de
vida, era a mais velha de um grupo de doze colegas. A vida na Polônia
não era nada fácil, sem regalias e sem confortos, mas isso parecia
só aumentar o espírito de aventura da empreitada. O trabalho de
Melita não era dos mais “limpos”. Os nazistas expulsavam os
judeus e eslavos de suas casas nos povoados poloneses, para
encaminhá-los aos campos de extermínios. Em seus lugares, isto é,
nas casas antes ocupadas pelos judeus e eslavos, colocavam
descendentes de alemães. A função de Melita e de suas colegas era
entrar nas casas desocupadas dos judeus e eslavos, limpá-las,
rearranjar os móveis, queimar fotografias e objetos pessoais sem
valor. Quando os novos moradores chegavam, Melita e suas colegas
organizavam aulas de alemão e de teoria racial para os novos
assentados. Até o fim da guerra, Melita Maschmann trabalhou
incansavelmente em seu projeto de “mundo melhor”. Mesmo depois do
suicídio de Hitler, da rendição alemã, do Tribunal de Nuremberg,
Melita
Maschmann
demorou
cerca de doze anos para se “desintoxicar” das ideias nazistas.
Apesar
de todo avanço tecnológico, a arma mais poderosa usada pelo homem
para dominar e manipular seus semelhantes continua sendo a palavra,
ou seja, a doutrinação, ou, usando uma expressão mais popular, a
“lavagem cerebral”. Muitas vezes, mesmo pessoas aparentemente
inteligentes, bem formadas e informadas, estão sujeitas a serem
doutrinadas e manipuladas por alguma corrente ideológica ou
religiosa, sem que elas mesmo se apercebam disso.
As
pessoas, muitas vezes encantadas e até inebriadas com o discurso de
algum líder político, religioso ou filosófico, acabam sendo
envolvidas por sua eloquência, por sua pregação, por seu
palavreado bonito, envolvente, pela promessa de um mundo melhor ou
coisas desse tipo. Geralmente, qualquer nova corrente religiosa,
filosófica ou política tem por estratégia prometer um “mundo
melhor” aos seus neófitos. A caminhada, a luta, a empreitada pode
até envolver sacrifícios, mas o objetivo final sempre compensa: um
mundo melhor, aqui ou no paraíso. Por mais altruísta que seja, todo
ser humano pensa em si, na recompensa que virá, na Terra ou em
“outro mundo”.
A
doutrinação político-ideológica e/ou religiosa é um vírus que
infesta o mundo há muitos séculos e tem ajudado a formar
verdadeiros exércitos de “idiotas úteis”, de milhões de
pessoas manipuladas, para as mais variadas finalidades, que, na
maioria das vezes, não são nenhum pouco nobres. Como ocorreu no
caso de
Melita
Maschmann,
o Nazismo se apresentou a ela como algo bom, positivo, que resolveria
os problemas da Alemanha, acabando com as injustiças sociais, com o
desemprego, oferecendo a todos um “mundo melhor”. Atualmente, por
exemplo, a mesma estratégia é muito utilizada por grupos de
radicais islâmicos, que têm cooptado milhares de jovens europeus de
famílias muçulmanas. O mais conhecido desses grupos é o terrível
e sanguinário Estado Islâmico.
No
Brasil, especificamente, o que mais preocupa são a doutrinação
religiosa cristã e a doutrinação ideológica de “esquerda”, de
orientação marxista-leninista. No entanto, tem crescido, também,
nos últimos tempos, movimentos mais conservadores, rotulados de
“direita”. Mas são movimentos muito fragmentados, de
diversas nuances ideológicas, muitos deles ligados a correntes
religiosas mais conservadoras.
A
doutrinação religiosa cristã no Brasil tem como principal alvo as
pessoas mais humildes, com formação escolar precária, por serem,
obviamente, muito mais fáceis de serem doutrinadas e manipuladas. O
instrumento utilizado pelos doutrinadores religiosos é a Bíblia,
o livro sagrado do Cristianismo, que, com seus textos complexos, que
dão margem a múltiplas interpretações, fornece todos os elementos
necessários para a doutrinação de milhões de pessoas, que,
obviamente, por terem pouca ou nenhuma formação escolar e
intelectual, dificilmente questionarão os argumentos e os
“ensinamentos” de seus doutrinadores.
Apesar
de sua banalização entre as pessoas religiosas, o conteúdo das
escrituras sagradas do Cristianismo não é para qualquer um, por ser
de difícil entendimento e interpretação. É preciso saber que a
Bíblia é uma coletânea de vários textos antigos, escritos por
vários autores hebreus, anônimos, de diferentes gerações, ao
longo de cerca mil e quinhentos anos, em hebraico, aramaico e grego
koinê.
Como foram escritos há muitos séculos, em idiomas antigos, por
vários autores, de um povo que tinha uma cultura e uma visão de
mundo totalmente diferente da nossa, isto é, de hoje em dia, os
textos bíblicos têm que ser contextualizados com muito cuidado e,
principalmente, à luz de conhecimento histórico e geográfico da
época e dos lugares em que se passaram os fatos narrados. Além
disso, segundo alguns especialistas, as traduções dos textos
bíblicos para as línguas contemporâneas os empobrece um pouco, em
comparação com suas versões nos idiomas originais, já que as
línguas antigas tinham uma estrutura sintática e semântica
diferente da grande maioria dos idiomas falados e escritos
atualmente, com muitas variantes, que dificultam bastante a conversão
de textos para os idiomas contemporâneos. Portanto, para tentar
estudar e conhecer bem os textos bíblicos, é recomendável – mas
não essencial - que o interessado conheça os idiomas em que eles
foram escritos originalmente. Além disso, é preciso entender que os
autores bíblicos estavam mais preocupados em transmitir ensinamentos
de crença e fé do que em fidelidade histórica. Muitos dos casos
narrados nos textos bíblicos não foram testemunhados pelos autores
bíblicos, mas chegaram até eles por meio de seus ascendentes,
através da literatura oral da época. Como os hebreus eram um povo
que preservava as tradições de seus antepassados, as histórias
eram transmitidas oralmente, de pai para filho, isto é, de uma
geração para outra. Naquele tempo, ler e escrever era uma arte
acessível a pouquíssimos, isto é, restrita quase que
exclusivamente aos escribas (escrivães). Na maioria das vezes, nem
os reis e a aristocracia sabiam ler e escrever. Era uma arte, na
época, como acontecia, por exemplo, com os computadores nos
anos 60 e 70, que só podiam ser utilizados por pessoas iniciadas.
Portanto, a maioria absoluta das pessoas daquele tempo não sabia ler
nem escrever. Como essas histórias eram contadas e recontadas
oralmente por gerações, é possível que elas tenham chegado aos
autores bíblicos já distorcidas, com acréscimos, decréscimos,
omissões e adições. No entanto, os cristãos acreditam que a
Bíblia teria sido escrita “sob a inspiração divina” e, por
isso, seria a “Palavra de Deus” aos homens. Mas essa é uma
questão de fé, que tem que ser respeitada, mas que, dentro do
contexto histórico e científico deste texto, não vamos aqui
analisar.
Em
suma, diante de tanta complexidade, podemos concluir que os textos
bíblicos oferecem os ingredientes perfeitos para serem usados como
instrumentos de doutrinação e manipulação.
Claro
que a doutrinação religiosa, por si só, não constitui nenhum
perigo para o indivíduo nem para a sociedade. Quando o objetivo é
somente a divulgação da fé, ela pode até ser saudável. O grande
perigo está nas intenções que estão por trás de um processo de
doutrinação religiosa. Muitas vezes, o objetivo é garantir um
poder de manipulação de um grande número de pessoas, que,
doutrinadas, tornam-se perfeitos “idiotas úteis” para um líder
religioso ou para uma instituição com objetivos não muito nobres.
A
doutrinação ideológica, hoje em dia, em plena era da informação,
talvez não tenha tanta chance de ser abrangente e bem-sucedida como
ocorreu com o nazifascismo, na Europa, nos anos 20 e 30 do século
passado, mas ela, obviamente, não deixou de existir. No Brasil, por
exemplo, ela está presente, principalmente em escolas,
universidades, movimentos sociais, sindicatos e entidades congêneres.
Seu grau de periculosidade é relativo, dependendo, obviamente, do
conteúdo e dos objetivos do processo de doutrinação. No Brasil e
em toda a América Latina, a predominância é da doutrinação
ideológica de esquerda (marxista-leninista). Curioso é que, com a
queda do Muro de Berlim, em 1989, o fim da União Soviética e a
derrocada do comunismo, no início dos anos 90, a chamada “esquerda”
sofreu um baque, o que fez muita gente pensar que seria o fim da
chamada utopia socialista/comunista. Não foi. Muitos partidos de
esquerda se renovaram diante da nova ordem mundial que surgia, como,
por exemplo, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), o velho
“partidão”, que abandonou velhos conceitos de esquerda, adotou
uma nova concepção de socialismo, mais voltado para a
social-democracia, mudando até de nome da agremiação, passando a
se chamar Partido Popular Socialista, PPS. Contudo, outros segmentos
da esquerda, apesar da nova realidade geopolítica mundial,
mantiveram-se fiéis ao sonho de construir uma sociedade moldada
rigorosamente no receituário marxista-leninista, alegando que o
“verdadeiro socialismo” ainda não aconteceu e que as
experiências vividas até o início dos anos 90, na União
Soviética, na Europa Oriental, na China, Coreia do Norte, no
Vietnan, Camboja, Albânia e Cuba, que se transformaram em regimes
autoritários, estavam longe de ser o verdadeiro
socialismo/comunismo.
A
ditadura militar (1964-1985), com truculência, perseguições,
torturas, mortes e censura, e a forte influência da “esquerda”
na mídia e nos movimentos culturais nas últimas décadas
enfraqueceram bastante os discursos da chamada “direita” no
Brasil. O vínculo que se criou, um tanto errôneo e arbitrário,
entre “ditadura militar” e a palavra “direita” fez com que se
estabelecesse aqui uma impropriedade semântica: ser “de direita”
no Brasil passou a ser um pecado, um crime. No entanto, com o tempo,
isso foi mudando, e os movimentos mais conservadores, rotulados de
“direita”, estão crescendo novamente no Brasil, principalmente,
e surpreendentemente, entre os jovens. Aliás, a sociedade
brasileira, em sua grande maioria, sempre foi e continua sendo
bastante conservadora. Em razão disso, mesmo esses segmentos “de
direita” não possuindo muito espaço na chamada “grande mídia”,
eles exercem grande influência no modo de pensar da grande maioria
do povo brasileiro. Uma das razões disso é que boa parte desses
segmentos recebe forte influência religiosa, principalmente dos
setores mais conservadores da Igreja Católica e de igrejas
evangélicas. Não podemos nos esquecer de
que
nunca antes na história deste país tanta gente frequentou igrejas
como agora. Os templos, principalmente os de denominações
evangélicas, vivem lotados de fiéis. Esse aumento espantoso de
religiosidade na população brasileira nos últimos anos fez com que
houvesse, obviamente, um processo de reconservadorização da maior
parte da sociedade brasileira. Curiosamente, há aí um processo de
doutrinação religiosa que pode resvalar para a doutrinação
também ideológica.
Para
concluirmos nossas conjecturas, vamos tentar saber, então, quais
seriam, afinal, os efeitos danosos da douinação ideológica e/ou
religiosa. Isso depende de uma série de fatores relacionados à
pessoa doutrinada, entre os quais sua formação cultural e
religiosa, sua personalidade, suas condições emocionais, seus
conceitos de vida, etc. Mas os efeitos podem variar da limitação do
horizonte intelectual e cultural do doutrinado, passando pelo
comprometimento de sua vida social, podendo chegar ao risco de
transformá-lo em um completo fanático.
Uma
pessoa com o horizonte intelectual limitado, decorrente de um
processo de doutrinação intensa, a famosa “lavagem cerebral”, é
aquela popularmente conhecida como “bitolada”, que tem uma
compreensão ou uma visão do mundo, das coisas e da vida muito
limitada. Parece que seu cérebro foi “reformatado”. Seu universo
parece estar restrito àquilo que foi colocado em sua mente pelos
seus doutrinadores. O que sair fora desses limites, a pessoa refuta,
repele, desconsidera. No entanto, independentemente disso, ela pode
até ter uma vida normal, possuir amigos e até uma vida social
intensa. Há, no entanto, casos em que a pessoa passa a ter
dificuldades de se relacionar com parentes e amigos. Ela se torna a
“chata” ou o “chato” da turma, que todos começam a evitar,
por não suportar mais suas ideias fixas de religião, ou de
ideologia, ou de política. Como a pessoa julga-se descobridora da
“Verdade”, achando que encontrou a “luz”, convence-se de que
tem a obrigação de “salvar a humanidade”, de disseminar suas
ideias “revolucionárias” ou “salvadoras”. Esse ou essa já
está a um passo do fanatismo.
Somente
uma formação intelectual e cultural sólida não é o bastante para
proteger alguém de um processo de doutrinação. É preciso que a
pessoa tenha, acima de tudo, um senso crítico apurado. Foi dito
sempre aos fiéis das religiões do mundo: não questione. Creia. Eu,
porém, lhes digo que não devem somente crer, mas questionar também.
Pergunte, pesquise, duvide. Só a dúvida leva ao conhecimento. Não
aceite uma ideia de pronto somente porque ela lhe parece bonita,
bem-intencionada. Eu não diria que ninguém é dono da verdade. Mas,
com certeza, ninguém, até hoje, conseguiu provar ser o dono da
verdade. Então, não se deixe levar por oradores eloquentes, por
discursos bonitos. Cuidado quando sentir aquela impressão de que
“ele ou ela está dizendo justamente aquilo que eu precisava
ouvir”. É justamente aí que pode estar a armadilha. Não se deixe
enganar pelos falsos heróis, pelos falsos defensores dos pobres e
oprimidos. Como diz a sabedoria popular, o inferno está repleto de
bem-intencionados.
________________
*
NARLOCH, Leandro, Guia
Politicamente Incorreto da História do Mundo,
São Paulo, Leya, 2013, pgs. 199 e 202.


Um advogado só pode enganar seu cliente, quando o mesmo não conhece a lei...
ResponderExcluirOs cristãos protestantes ou católicos são enganados em igrejas, quando não são conhecedores da bíblia, porque da biblia é pra se extrair a doutrina e não a cultura de épocas, a bíblia não esconde erros de ninguém, não facilitou para errantes arrependidos nem para os não.
A verdade não é para ser uma questão de preferência, e sim, uma questão de justiça, ou seja, eu pondero os conhecimentos, e o que sobrepujar mesmo que venha contra meus costumes construídos, devo ser justo e concordar que é verdade, mas se não quero mudar, logo discordo, e me faço de cego, mesmo tendo uma mente com capacidade de discernir.
Não há nenhum segmento religioso mais científico e justo que o cristianismo.
(Consigo defende-lo com ciência e racionalidade)
Ele tem princípio, meio e fim.
O Senhor é um bom pensador, mas é um cristão frustrado com as pessoas e ou a sociedade.
Mas sua mágoa idealizada e implícita em seu artigo, não apaga fatos, esqueça os pecadores, e pondere só Jesus, nele tem vaga pra você também.
Boa noite.
Face: André Luiz SB
Gmail: santosbarretoandreluiz@gmail.com
Obrigado por seu comentário e participação, André. Apesar de não concordar muito com suas palavras, respeito sua opinião. Grande abraço!
ExcluirPara refletir.
ResponderExcluirPara refletir.
ResponderExcluir