O mundo está em constante transformação, assim como as ideias. É normal que o ser humano vá se transformando com o correr do tempo, com as experiências de vida, com as lições aprendidas. É perfeitamente natural que pessoas mudem seu juízo de valor sobre certas coisas da vida. Um exemplo disso foi o que aconteceu com os Partidos Comunistas europeus logo após a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o fim da União Soviética e dos regimes comunistas da Europa Oriental. Não havia dúvida: um regime socialista, inspirado nas ideias de Karl Marx e Friedrich Engel, era inviável. O socialismo fracassara. Em vez de justiça social, criaram-se regimes totalitários, com o cerceamento das liberdades individuais e a socialização da pobreza. Chegou-se à conclusão de que uma sociedade sem mercado, sem livre iniciativo, é uma sociedade inerte, morta econômica e socialmente. Os comunistas europeus mudaram, se renovaram e muitos tiraram até a expressão “comunista” dos nomes de suas agremiações. Aqui no Brasil, não foi diferente: o PCB, Partido Comunista Brasileiro, o conhecido “Partidão”, virou PPS, Partido Popular Social. Toda essa mudança de postura é absolutamente normal na nossa sociedade.
No entanto, o que aconteceu com o Partido dos Trabalhadores, o PT, e, especialmente, com o Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, um de seus fundadores e seu maior líder, foge a todas as regras do bom senso, do aceitável, do normal, do compreensível no mundo político. Infelizmente, o Lula elogiado no exterior, exótico, tido como grande líder, que participa do G-20. que defende os países pobre, que puxa a orelha dos países ricos, que faz discurso nas Nações Unidas, que é chamado de “o cara” pelo presidente dos Estados Unidos, que é recebido pela rainha da Inglaterra, nada tem a ver com Lula, o Verdadeiro. Lula talvez faça tanto sucesso no exterior pelo simples motivo de quem ninguém, lá, entende as bobagens que ele às vezes diz. Veja o vídeo abaixo.
Nunca fui petista, pois minhas concepções liberais não se alinham com a ideologia esquerdista e estatizante do petismo. No entanto, sempre nutri uma grande admiração por essa agremiação partidária, pela coerência de seu discurso, pela defesa intransigente da ética e da moralidade com as coisas públicas. Admirei ainda mais o PT durante a campanha eleitoral de 2002, ocasião em que o partido parecia ter abandonado seu discurso radical de esquerda e haver se adaptado aos novos tempos, como o fizera boa parte do pessoal do “Partidão”. Tenho grandes amigos petistas, pessoas sérias, honestas e idealistas. Contudo, o que temos visto, depois da posse de Luiz Inácio Lula da Silva ao cargo de presidente da República, nada tem a ver com o que o Partido dos Trabalhadores pregou desde sua fundação, no início dos anos 80. O partido político que, numa demonstração de sintonia de seu discurso em favor da democracia, por ser contra a eleição indireta, chegou a expulsar de suas fileiras uma deputada, Beth Mendes, em 1985, porque ela participou do Colégio Eleitoral que elegeu Tancredo Neves para a presidência da República, após vinte e um anos de ditadura militar. Depois que chegou ao poder, em 2002, o PT parece que se despiu de seus escrúpulos, jogou toda sua história no lixo e, em nome de conveniências políticas e eleitorais, aliou-se ao que há de mais perversamente retrógrado na política nacional. A justificativa disso, o presidente Lula deu, pouco tempo atrás, em uma entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, dizendo que até Jesus Cristo, se vivesse hoje no Brasil, faria acordo com Judas Iscariotes. Lula, como é iletrado, ou, para ser mais preciso, semi-analfabeto, não se deu conta de que chamara, sem querer, seus aliados de “Judas”, desqualificando-os. No entanto, seus fiéis asseclas oriundos da “direita”, por sua vez, como não querem se indispor com o “chefe”, nem perder as benesses que desfrutam por estarem do lado do governo, fingiram que não entenderam.
Assim que Lula e o PT assumiram o governo, começaram a pipocar os pequenos escândalos. O primeiro envolvia a então ministra Benedita da Silva, que foi acusada de haver ido à Argentina, participar de um evento religioso, à custa de dinheiro público. Depois veio o famoso escândalo protagonizado por Waldomiro Diniz, assessor do então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. Waldomiro foi flagrado, em vídeo, achacando um bicheiro, conforme denúncia da revista ÉPOCA. Depois, veio aquilo que a revista VEJA definiu como “a mãe de todas as decepções éticas do PT”: o famigerado “mensalão”. O PT foi acusado de comprar, com dinheiro desviado dos cofres públicos, o apoio de deputados da chamada base aliada do governo. O que aconteceu na época, tudo o mundo se recorda. Lula, de início, alegou que “não sabia de nada”. Depois disse que havia sido traído, mas não disse por quem. Em seguida, disse, cinicamente, que o “PT havia feito o que sempre se fez sistematicamente no Brasil”. Houve CPI e, em decorrência desse escândalo, praticamente todo a cúpula do PT da época foi denunciada à Justiça e chamada de “quadrilha” pelo então procurador da República, que havia sido nomeado pelo próprio Lula. A grande maioria dos “mensaleiros” foi absolvida na Câmara dos Deputados. Mas os envolvidos, cerca de 40 pessoas, foram denunciados por corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, crimes contra o sistema financeiro e evasão de divisas. O processo se encontra, hoje, no Supremo Tribunal Federal. É provável que não dê em nada, graças à benevolência da legislação brasileira, principalmente para com quem tem bons advogados e, especialmente nesse caso, para aquelas que têm o tal do “foro privilegiado”. Outro detalhe importante é a falta de estrutura do STF para analisar um caso tão complexo como esse, que deveria estar na Justiça comum, que é mais aparelhada para tramitação desse tipo de processo. Recentemente, Lula, em uma entrevista na Rede TV, disse que o “mensalão” foi uma grande armação da oposição. Perguntado sobre os detalhes de sua teoria conspiratória, disse que só vai se inteirar de tudo depois que deixar o governo, em 2011.
Vieram as eleições de 2006 e, com boa parte dos eleitores agraciada com o “Bolsa Esmola”, Lula e muitos “mensaleiros” foram reeleitos. Foi-se a ética; ficou o cinismo.
Lula e o PT, antes tão combativos, tão radicais, tão defensores da ética, hoje convivem amigavelmente com tudo aquilo que sempre combateram. Vinte anos atrás, durante a campanha para a primeira eleição direta para a presidência da República após a ditadura militar (1964-1985), em 1989, Collor chegou a exibir, em seu programa eleitoral na TV, Miriam Cordeiro, ex-namorada de Lula, dizendo que o petista lhe havia oferecido dinheiro para abortar. Hoje, Collor é um fiel integrante da base aliada do governo Lula.
José Sarney, a quem Lula e o PT sempre atacaram impiedosamente durante anos a fio, hoje é, também, um fiel aliado do atual governo. Ameaçado, recentemente, de perder o cargo de presidente do Senado, por acusações de inúmeras irregularidades na Casa, Sarney pôde contar com a valiosa solidariedade de Lula e de seus parceiros petistas para manter-se no cargo. Se Sarney fosse destituído da presidência do Senado ou renunciasse, assumiria Marconi Perillo, do PSDB de Goiás, inimigo figadal de Lula. O cinismo venceu mais uma vez.
No próximo ano, teremos eleição para presidente. Dilma Rousseff, atual ministra-chefe da Casa Civil, deve ser a candidata do PT. Burocrata e excessivamente técnica, Dilma tem, em excesso, atributos que um candidato a qualquer cargo eletivo não deve ter: é arrogante e fala burocratês demais. Mas Lula achou por bem lançá-la como candidata à sua sucessão, em 2010. Para isso, iniciou um processo intenso de tentativa de transformar Dilma Rousseff numa pessoa carismática. Muito se tem comentado a respeito. Há uma marchinha carnavalesca, composta por Joka Pavarotti, componente do bloco “Pacotão”, de Brasília, circulando na Internet. Veja o vídeo abaixo.
A grande arma eleitoral do governo Lula foi, ironicamente, criada por seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso: é o Bolsa Escola, que teve seu nome mudado para Bolsa Família e, sem dúvida, deverá continuar sendo uma das moedas de troca da candidata Dilma, em 2010, Mas, conforme notícias divulgadas recentemente, um novo ingrediente deve ser adicionado à campanha eleitoral da candidata do PT: o bolsa-celular. Isso mesmo que você leu: BOLSA CELULAR, telefone celular. O governo pretende oferecer um telefone celular para cada uma das mais de 11 milhões de famílias que recebem o Bolsa Família. A “ideia brilhante” partiu do ministro das Comunicações, Hélio Costa, provável candidato ao governo de Minas Gerais em 2010. Mas o tal Bolsa Celular deve ser apenas um truque eleitoral, pois a maioria das família beneficiadas com o Bolsa Família já tem telefone celular, graças, evidentemente, à privatização dos serviços de comunicação, em 1998, promovida pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, que barateou os serviços de telefonia móvel e fixa no Brasil e acirrou a concorrência no setor. Com isso, as despesas do governo como tal Bolsa Celular vai ser mínima. Um belo teatro eleitoral. Mas as “grandes ideias” não param por aí. O governo quer lançar, também, o Bolsa Cinema. O projeto já tramita em regime de urgência no Senado. Se tudo der certo, o governo pretende lançá-lo no ano que vem. O trabalhador receberá mensalmente um tíquete de cinquenta reais para ir ao cinema. O governo quer as salas de exibição lotadas em 2010. Só que o governo se esquece de que, hoje, a maioria das salas de cinemas estão instalados quase que exclusivamente em centros de compras, em cidades médias e grandes, bem distantes e quase inacessíveis à maioria dos brasileiros mais humildes. Mas todo esse interesse do governo pelo cinema tem uma razão de ser: por uma curiosa coincidência, no ano que vem será lançado o filme “Lula, o Filho do Brasil”, uma espécie de bajulação cinematográfica patrocinada por empreiteiras amigas e dirigida pelo cineasta Fábio Barreto, cujo roteiro se baseia em uma biografia de Lula escrita pela jornalista Denise Paraná.
O governo Lula, hoje, mantém vínculos bem amistosos com o que há de pior na política internacional. Sem falar em sua amizade com o falastrão venezuelano Hugo Chaves e com o ditador cubano Fidel Castro, não podemos nos esquecer da recente visita do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, chefe de um governo intolerante, autoritário e acusado de financiar o terrorismo internacional. O ministro da Defesa iraniano, por exemplo, general Ahmad Vahidi, se sair de seu país pode ser preso pela Interpol, pois ele é acusado de ser um dos autores intelectuais do atentado cometido em 1994 contra a associação judaica Amia, em Buenos Aires, que deixou 86 pessoas mortas. Lula chegou a defender o direito do Irã a obter tecnologia nuclear para fins pacíficos. O curioso é que, quatro dias depois da visita de Ahmadinejad ao Brasil, a Agência de Energia Atômica da ONU (AIEA) propôs uma moção de censura contra o Irã, em decorrência de protelações, mentiras e omissões do governo do Irã em relação a seu projeto nuclear. Vinte e cinco dos 35 países com voto na organização aprovaram a proposta da AIEA, inclusive a China e a Rússia, que sempre resistem a pressionar o país persa. O Brasil, sob orientação do governo petista, simplesmente se absteve de votar.
Esse é o PT de hoje. Esse é o Lula de hoje. Os tempos de luta pela democracia, pela ética, pela moralidade, que me faziam admirar e respeitar os líderes petistas, mesmo discordando de suas ideologias, ficaram somente na História, são águas passadas. Lula e seus companheiros trocaram a luta pela democracia, pela ética e pela moralidade pela luta pelo poder, a qualquer custo. Figuras como José Sarney, Paulo Maluf, Fernando Collor, Roseane Sarney, Renan Calheiros e tantos outros, antes tidos como retrógrados, inimigos do povo, representantes do atraso, coronéis, corruptos, viúvos da ditadura, etc., hoje são aliados fiéis do PT e do governo Lula, o que acarretou uma espécie de simbiose perversa: em vez de os ex-inimigos políticos dos petistas se regenerarem, se redimirem de seus erros passados e assimilarem as posturas políticas antes defendidas pelo PT, foi o PT que assimilou as velhas práticas de seus ex-inimigos que tanto combateu no passado.
À propósito, com relação ao escândalo que veio a público na última sexta-feira, envolvendo o atual governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM) em um esquema de propinas para deputados da base aliada do governo distrital, li, no último sábado, dia 28 de novembro, na FOLHA ON LINE que a bancada do Partido dos Trabaradores (PT) na Câmara Legislativa brasiliense declarou, em nota, que vai apresentar pedido de abertura de processo por crime de responsabilidade contra o governador do Distrito Federal e prometem, ainda, abrir processo de investigação dos deputados distritais citados no caso por indícios de quebra de decoro parlamentar, assim como apresentar na Câmara Legislativa requerimento de instalação da "CPI da Corrupção" --para apurar os fatos contra o governador.
É. Quando estão na oposição (no caso do Distrito Federal), os petistas se fazem de moralistas, de defensores da ética. No entanto, quando estão na situação, como ocorrem no Congresso Nacional, a conversa muda. Eles correm das CPIs. Esse é o PT que eu não conhecia antes.

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