Segundo informa em sua edição de 29/10/2010, o jornal FOLHA DE S. PAULO, o livro CAÇADAS DE PEDRINHO, de Monteiro Lobato, que é o maior nome da literatura infantil brasileira, esteve recentemente na mira do Conselho Federal de Educação, acusado de – pasmem - racismo. É isso mesmo que você leu.
Conforme noticia a FOLHA, um parecer do CNE, publicado no Diário Oficial da União, sugeriu que o livro CAÇADAS DE PEDRINHO não fosse distribuído a escolas públicas, ou que isso teria de ser feito com um alerta, sob a alegação de a obra é racista. O texto foi enviado ao ministro da Educação, Fernando Haddad, que o devolveu, sem homologação, ao CNE, que, por sua vez, divulgou uma nota afirmando seu “compromisso com a defesa da mais ampla liberdade de produção e circulação de ideias”.
O livro CAÇADAS DE PEDRINHO foi lançado em 1933 e relata uma aventura da turma do Sítio do Pica-pau Amarelo, que, na história contada por Lobato, está à procura de uma onça pintada. Segundo o parecer do Conselho Nacional de Educação, o livro traz alguns trechos marcados pelo racismo. Segundo Nilma Lino Gomes, conselheira do CNE e professora da Universidade Federal de Minas Gerais, que redigiu o parecer, o texto de Lobato apresenta alguns trechos, relativos à personagem Tia Nástácia e animais, como o urubu e o macaco, que fazem menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano. Entre os trechos que justificariam a conclusão, o parecer de Nilma cita alguns em que Tia Nastácia é chamada de “negra”. Em outro trecho, diz: “Tia Nastácia, esquecida de seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão”.
Em relação aos animais, o trecho mencionado no parecer de Nilma é: “Não é à toa que os macacos se parecem tanto com os homens. Só dizem bobagens”.
Nilma teria dito à reportagem da FOLHA DE S. PAULO que o livro CAÇADAS DE PEDRINHO “pode afetar a educação das crianças”. Seu parecer, aprovado por unanimidade pela Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, foi feito a partir de uma denúncia da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, ligada à Presidência da República, que, por sua vez, a recebeu de Antonio Gomes da Costa, um mestre da Universidade de Brasília.
A obra infantil de Monteiro Lobato enriqueceu a imaginação de várias gerações de crianças e adolescentes brasileiros. As histórias da turma do Sítio do Pica-pau são tão populares, tão integradas à cultura de nosso país, que já foram adaptadas para a TV várias vezes, com enorme sucesso. Não há dúvida de que Monteiro Lobato criou a maior saga infantil de toda a literatura brasileira.
Agora, depois de tantos anos de sucesso da obra de Monteiro Lobato para crianças, aparecem o Sr. Antonio Gomes da Costa, que, diz a FOLHA DE S. PAULO, é mestre da UnB, e a Sra. Nilma Lino Gomes, conselheira do CFE, e professora da Universidade Federal de Minas Gerais, e afirmam que o livro CAÇADAS DE PEDRINHO é racista.
Monteiro Lobato não era racista. Nada há em sua biografia que comprove isso. No entanto, ele era adepto da eugenia, uma pseudociência inventada por Francis Galton, um inglês, primo do naturalista Charles Darwin, que era uma espécie de gênio maluco. A eugenia não é propriamente uma teoria racista, mas, sim, uma proposta absurda de melhorar geneticamente a raça humana. Galton baseou sua “ciência” na teoria da seleção natural das espécies, proposta por seu famoso primo. A teoria de seleção desenvolvida por Darwin era natural. Já a teoria de Galton propunha uma seleção artificial da raça humana. Resumo da ópera: a eugenia defendia a criação de uma raça superior, perfeita, por meio de casamentos de seres humanos física e intelectualmente perfeitos, isto é, sem nenhuma deficiência física ou mental, a fim de se criar uma raça perfeita. Em suma, a eugenia, em si, apesar de ser uma tremenda farsa, uma pseudociência, como assinalado acima, não era necessariamente racista, mas foi infelizmente utilizada por muitos governos com propósitos de dominação racial, como foi o caso dos nazistas, na Alemanha de Hitler.
Monteiro Lobato escreveu seu único romance, uma ficção científica, destinada a adultos, sobre a eugenia, chamado O PRESIDENTE NEGROU ou O CHOQUE DAS RAÇAS, lançado em 1926, que causou muita polêmica na época e, diga-se de passagem, não foi um grande sucesso.
Apesar disso, não podemos rotular Lobato de racista. Seria uma injustiça. Sua obra literária infantil é primorosa, de valor didático inestimável. Monteiro Lobato foi um daqueles gênios raros, que nascem no Brasil somente a cada cinquenta anos. Acusá-lo de racista é uma ofensa à própria cultura brasileira.
É preciso entender a obra de Lobato, que é um caso à parte na literatura brasileira. Ele era, na realidade, um autor diferente, até na ortografia: Monteiro Lobato não acentuava a maioria das palavras. Ele tinha regras de acentuação próprias e seus livros tinham que ser impressos de acordo com essas “regras”.
A denúncia do Sr. Antonio Gomes da Costa e o parecer da Sra. conselheira Nilma Lino Gomes, ambos professores universitários, sendo o primeiro, inclusive, mestre, demonstra, lamentavelmente, como andam nossas universidades e a burocracia da educação pública em nosso país. Não é à toa que, mesmo o Brasil estando, hoje, entre as dez maiores economias do mundo, nenhuma de nossas instituições superiores conseguiu se classificar recentemente entre as 200 melhores universidades do planeta. Mesmo assim, o Brasil é o 13.º em publicação de textos acadêmicos. Sabe-se lá, então, o que essa gente tem escrito.
Se a gente for ler, por exemplo, a Bíblia pela ótica dos professores Antonio e Nilma, o milenar livro sagrado do Cristianismo teria de ser proibido ou até queimado em praça pública. Analisado ao pé da letra, não há livro mais racista e preconceituoso do que a Bíblia. No entanto, ao lermos os textos bíblicos, temos de contextualizá-los. São textos que foram escritos em tempos longínquos, por povos de outra região do planeta, com culturas totalmente diferentes da nossa, em idiomas antigos, de difícil versão para o português contemporâneo, É isso que temos de fazer com qualquer texto que lemos. É óbvio que o citados professores sabem disso muito bem, senão não estariam onde estão.
O livro CAÇADAS DE PEDRINHO foi publicado em 1933. Autor infantil, Lobato escrevia pelo ponto de vista das crianças. Como sabemos, criança é uma criatura amoral, desprovida dos freios de prudência e ética que nós, adultos, costumamos ter. Esses tipos de comparações que encontramos nos textos da obra são comuns no universo infantil. As crianças não estão nem aí para ética, escrúpulos e todas essas coisas. Criança não é hipócrita. Além disso, no começo dos anos 30, não havia preocupação com o politicamente correto. Eram outros tempos. Enfim, a obra foi escrita num contexto totalmente diferente do que foi provavelmente compreendido pelos ilustres mestres acima citados.
O grande problema aqui não está relacionado especificamente à interpretação de textos literários. Isso é apenas um detalhe. A coisa é bem mais séria. Nas décadas de 60 e 70, além da ditadura militar, também tivemos de enfrentar uma terrível ditadura de patrulhamento ideológico de esquerda. Ser fã de Fidel Castro e de “Che” Guevara era chique, era moda. Quem fosse contra, estaria ecluído do grupo. Era um reacionário, retrógrado, um direitista, defensor do imperialismo Yankee. Hoje, vivemos uma dura e sufocante ditadura de patrulhamento sociocultural do politicamente correto. É preciso ter cuidado com o que se fala e com o que se escreve. Os “censores” do politicamente correto estão à solta. Uma piada ou um comentário mal interpretado feito na mídia pode ser entendido pelos “censores” como preconceito, discriminação, racismo, homofobia, ofensa, apologia a isso ou àquilo etc. O pior disso tudo é que esse patrulhamento vem influenciando até o nosso Judiciário, o que fez com que se criasse no Brasil a “loteria” do dano moral e a frequente descabida censura prévio nos meios de comunicação. Algum tempo atrás, houve gente querendo até mudar as letras das antiquíssimas e tradicionais cantigas de roda, por considerarem que algumas das letras dessas cantigas incentivam a violência. Lançaram até uma nova versão de “ATIREI O PAU NO GATO”, com uma letra politicamente correta. Felizmente, a nova versão não caiu no agrado popular, e a versão antiga, tradicional, cantada há décadas por várias gerações de crianças, continua prevalecendo.
É óbvio que a gente tem que coibir, sim, o preconceito religioso, social e racial. Já há leis bem rigorosas nesse sentido. É preciso fazer cumpri-las. Racismo é uma coisa odiosa e repugnante. Mas todo esse patrulhamento sociocultural que está aí não contribui em nada no combate ao verdadeiro preconceito, em todas as suas formas. Pelo contrário, pode até criar no Brasil um clima de animosidade racial pereigoso.
Esse perigoso patrulhamento está se transformando em uma enorme paranoia coletiva, uma verdadeira ditadura, na qual todos se vigiam, todos se acusam, todos são algozes um do outro. Se jã não bastassem as ideias perigosas de criação de cotas raciais em escolas. Isso é extremamente danoso à sociedade, pois pode gerar uma forma de disputa racial que até agora ainda não existia em nosso país. Além disso, esse patrulhamento todo pode, também, tornar as pessoas mais fechadas em si mesmas, fazer com que a gente se sinta ameaçado em cada palavra que diz ou escreve. Precisamos começar a mudar isso urgentemente.

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