domingo, 24 de outubro de 2010

A eleição e a grande mídia

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Um fato curioso da atual campanha eleitoral é o intenso envolvimento de certos órgãos de imprensa na disputa. Desta vez, jornais, revistas e emissoras de TV estão assumindo, sem nenhum constrangimento, suas posições com relação ao segundo turno da eleição presidencial, que acontecerá no próximo dia 31 de outubro.

A revista semanal VEJA, publicada pela Editora Abril, há muito assumiu uma postura bastante crítica em relação ao atual governo. São raras as edições em que VEJA não apresenta uma denúncia contra a administração federal. Entre seus articulistas, estão dois dos mais severos antilulistas da mídia brasileira: Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi. Durante a atual campanha eleitoral, assumiu, desde o início, uma posição de explícito apoio ao candidato do PSDB e de combate à candidatura de Dilma Rousseff., não só em sua edição impressa semanal, mas também em sua versão on line, que é atualizada constantemente.

A concorrente mais direta de VEJA, a revista semana ISTO É, da Editora Três, assumiu postura totalmente oposta e tomou o partido da candidata do PT, Dilma Rousseff. Em sua última edição, por exemplo, imitou a capa de sua concorrente da semana retrasada, como se pode ver na figura que encabeça este post. A revista VEJA, publicou, em sua edição de 13/10/2010, a capa da revista dividida em duas partes: a superior, com fundo vermelho e uma foto de Dilma, apresenta um trecho do texto em que a candidata do PT defende a descriminalização do aborto; a parte inferior, com fundo brando, de cabeça para baixo traz a foto de Dilma, o logotipo da revista e um trecho do texto em que a candidata petista se manifesta contrária ao aborto. A capa tinha por fim demonstrar a incoerência de Dilma com relação ao assunto.

A revista ISTO É, por sua vez, para irritar a concorrente, fez o mesmo com José Serra, ao apresentar, como em VEJA, a página dividida em duas partes, uma superior, com fundo azul (provavelmente por ser essa a cor do PSDB), com a foto de Serra e um trecho em que ele afirma não conhecer Paulo Preto; na parte inferior, com fundo branco, também de ponta cabeça, aparecem a foto do candidato tucano, o logotipo da revista e uma frase de Serra em que ele diz conhecer, sim, Paulo Preto e que este é considerado muito competente.

O jornal O ESTADO DE S. PAULO, um dos mais antigos do País, muito criticado por seu conservadorismo, em editorial, assumiu sua preferência por José Serra. A FOLHA DE S. PAULO, por sua vez, procura manter uma certa neutralidade, no entanto, tem apresentado frequentes reportagens denunciando irregularidades no atual governo petista, o que faz os adeptos da candidatura de Dilma Rousseff acharem que a FOLHA é a favor do candidato tucano. No entanto, a simples divulgação de matérias denunciando possíveis abusos do governo, por si só, não caracteriza um apoio explícito da FOLHA à candidatura tucana, mas percebe-se, nas entrelinhas, uma certa tendência em favor da candidatura tucana.

Por causa da legislação eleitoral, o noticiário das emissoras de TV sobre a disputa eleitoral tem de ser bem restrito. Mesmo assim duas emissoras têm sido acusadas de tomarem partido na disputa.

A Rede Globo tem sido acusada de apresentar matérias muito mais generosas ao candidato do PSDB. Recentemente, por exemplo, a Globo exibiu uma reportagem em que José Serra visitava obras viárias nas imediações da cidade de São Paulo. Mas a emissora foi acusada de omitir, de modo intencional, uma manifestação de protesto contra o governo estadual que ocorriam nas proximidades onde Serra estava. Durante o primeiro turno, ao apresentar entrevistas com os principais candidatos durante o Jornal Nacional, Willian Bonner e Fátima Bernardes foram acusados de serem extremamente maleáveis com o candidato do PSDB, mas de serem implacáveis com a candidata petista. O curioso disso é que, já no segundo turno, houve uma inversão: foram bem mais maleáveis com a candidata petista, mas, ao entrevistarem José Serra, na noite seguinte, Bonner e Fátima foram mais incisivos com o tucano. Recentemente, no caso da agressão a José Serra, no Rio de Janeiro, o SBT mostrou que só havia sido atirada uma bolinha de papel na cabeça de Serra. A Globo, no entanto, tentou convencer os eleitores de que a agressão, com um objeto mais pesado, teria ocorrido, na verdade, quinze minutos depois que a tal bolinha de papel atingira Serra. Para assegurar que sua tese era autêntica, a Globo levou as imagens para o perito Ricardo Molina, da UNICAMP, que, ao ver as imagens, confirmou a tese defendida pela reportagem da Rede Globo.

A TV Record, por seu turno, não poderia ter assumido outra posição. Como a emissora é ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, uma vez que seu líder maior, o empresário Edir Macedo, é o proprietário da emissora, a Record tem assumido uma posição mais favorável à candidata petista, Dilma Rousseff, embora procure não demonstrar isso muito claramente em seus telejornais. Ocorre que os candidatos ligados à Igreja Universal são filiados, em sua maioria, ao Partido da Repúbica (PR) e ao PRB (Partido Republicano Brasileiro), que fazem parte da base aliada do governo federal e, também, da coligação que apoia Dilma.

Também entraram na briga, setores poderosos da mídia religiosa. Por causa das posições petistas em favor do aborto, poderosas vozes do mundo midiático religioso têm se voltado contra o PT e sua candidata, Dilma Roussef.

O padre José Augusto, da Comunidade Canção Nova, uma organização religiosa, com base na cidade de Cachoeira Paulista (SP), ligada à Renovação Carismática, um movimento católico ultraconservador que surgiu nos Estados Unidos no final da década de 60, tem feito duras críticas à candidata petista e seu partido e pedido aos fiéis que não votem em candidatos e em partidos que sejam a favor do aborto. As manifestações do padre foram tão duras, que a direção da TV Canção Nova teve de intervir e divulgar uma nota dizendo que a opinião do padre José Augusto não refletia exatamente a opinião da emissora.

Outro conhecido líder religioso que tem se manifestado frequentemente em seus programas de TV é o pastor carioca Silas Malafaia, da Igreja Assembleia de Deus “Vitória em Cristo”, do Bairro da Penha, no Rio de Janeiro. Malafaia, que, além de ter programas em vários canais TV, como Band e Rede TV, todos em rede nacional, é dono, ainda, da Editoral Central Góspel, que publica bíblias, livros, CDs e DVDs sobre assuntos religiosos, que são vendidos, também, para evangélicos de outras denominações evangélicas. Por causa disso, o pastor Malafaia é muito respeitado por boa parte da dessa comunidade religiosa brasileira. Mas Malafaia não é uma unanimidade nesse meio. Seu maior desafeto é o pastor e escritor Caio Fábio d'Araújo Filho, ex-pastor da Igreja Presbiteriana, que hoje dirige a estação do Caminho da Graça, em Brasília, que frequentemente faz duras críticas a Malafaia na mídia.

Orador hábil, Malafaia é um feroz combatente dos que defendem a legalização do aborto. Em seus programas de TV, ele criticou severamente os petistas por defenderem a descriminalização do aborto. Além disso, também dirigiu suas baterias à Marina Silva, pelo fato de a candidata, evangélica que é, não ter assumido uma postura mais dura contra o aborto em sua campanha. Em razão disso, Malafaia, já no primeiro turno, apoiou o candidato tucano José Serra.

O grande problema disso tudo é que quem lê VEJA, ISTO É, FOLHA DE S. PAULO, O ESTADO DE SÃO PAULO, etc., na maioria das vezes, tem senso crítico mais apurado e não se deixa manipular pelos eventuais textos tendenciosos que lê. No entanto, temos de reconhecer que a maioria da população brasileira não lê jornais nem revistas, mais por falta de interesse e por preguiça mental do que por falta de dinheiro. Esse enorme contingente de brasileiros só vê o mundo pela tela da TV, cujos noticiários são ruins e tendenciosos. Esse público televisivo, em sua grande maioria, tem um horizonte intelectual limitado, pela pouca escolaridade, e se informa pelo ouvir dizer da TV, do rádio, de amigos do trabalho ou do bar da esquina. Isso não lhe dá suporte para ter um senso crítico mais apurado, por isso é uma parcela da população mais facilmente manipulável, infelizmente.

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