domingo, 11 de março de 2012

“VAMOS QUEIMAR OS DICIONÁRIOS”

Transcrevo abaixo artigo da escritora Lia Luft, publicado na edição da revista VEJA que está indo às bancas e a seus assinantes neste final de semana. No seu texto, Lia Luift comenta a esdrúxula ação civil pública que o Ministério Público Federal de Minas Gerais ajuizou contra a Editora Objetiva e o Instituto Antônio Houaiss para a imediata retirada de circulação, suspensão de tiragem, venda e distribuição das edições do Dicionário Houaiss, sob a alegação de que os significados atribuídos pelo Dicionário à palavra “cigano” são preconceituosos, o que, inclusive, pode vir a caracterizar crime de acordo com a Constituição Federal. De acordo com o procurador Cléber Eustáquio Neves, que ajuizou a ação, o dicionário usa de termos pejorativos para definir a palavra. Antes de ler a o artigo de Lia Luft, veja como o Dicionário Houaiss define a palava CIGANO.

adjetivo
1    relativo ao ou próprio do povo cigano; zíngaro
Ex.: <música c.> <vida c.> <esperteza c.>adjetivo e substantivo masculino
2    relativo a ou indivíduo dos ciganos, povo itinerante que emigrou do Norte da Índia para o oeste (antiga Pérsia, Egito), de onde se espalhou pelos países do Ocidente; calom, zíngaro
3    Derivação: por extensão de sentido.
que ou aquele que tem vida incerta e errante; boêmio
Ex.: <meus parentes c. não pensam no dia de amanhã> <viver como c.>
4    Derivação: por analogia.
vendedor ambulante de quinquilharias; mascate
5    (1899) Uso: pejorativo.
que ou aquele que trapaceia; velhaco, burlador
6    Uso: pejorativo.
que ou aquele que faz barganha, que é apegado ao dinheiro; agiota, sovina
7    que ou o que serve de guia ao rebanho (diz-se de carneiro)
8    Rubrica: lingüística.
m.q. romani
Coletivos: bando, cabilda, ciganada, ciganagem, ciganaria, gitanaria, maloca, pandilha
Homônimos: cigano(fl.ciganar)
Etmologia: fr. cigain (sXV, atual tsigane ou tzigane, estas por infl. do al. Zigeuner), do gr.biz. athígganos 'intocável', nome dado a certo grupo de heréticos da Ásia Menor, que evitava o contato com estranhos, a que os ciganos foram comparados quando de sua irrupção na Europa central; cp. tur. cigian, romn. zigan, húng. cigány, it. zingano (a1470, atual zingaro); f.hist. 1521 cigano, 1540 çigano, 1708 sigano

Agora, vamos ao primosoro texto de Lia Luft.

Quando a gente pensa que já viu de tudo, não viu. Faz algum tempo, dentro do horroroso politicamente correto que me parece tão incorreto, resolveram castrar, limpar, arrumar livros de Monteiro Lobato, acusando-o de preconceito racial, pois criou entre outras a deliciosa personagem da cozinheira Tia Nastácia, que, junto com Emília e outros do Sítio do Picapau (sic – a grafia correta é pica-pau) Amarelo, encheu de alegria minha infância. Se formos atrás disso, boa parte da literatura mundial deve ser deletada ou “arrumada”. Primeiro, vamos deletar a palavra “negro” quando se refere a raça e pessoas, embora tenhamos uma banda Raça Negra, grupos de Teatro Negro e incontáveis oficinas, açougues, borracharias “do Negrão”, como “do Alemão”, “do Portuga” ou “do Turco”. Vamos deletar as palavras. Quem sabe, vamos ficar mudos, porque ao mal-humorado essencial, e de alma pequena, qualquer uma pode ser motivo de escândalo. Depende da disposição com que acordou, ou do lado de onde sopram os ventos do seu próprio preconceito.

Embora meus antepassados tivessem vindo ao Brasil em 1825, portanto sendo eu de muitas gerações de brasileiros tão brasileiros quanto os de todas as demais origens, na escola havia também a turminha que nos achacava com refrão como “Alemão batata come queijo com barata”. Nem por isso nos odiamos, nos desprezamos. Eram coisas infantis, sem consistência. O que vemos hoje quer mudar a cara do país, ou da cultura do país, e não tem nada de inocente.

Um dos negros que mais estimei (no passado, porque morreu), ligado a mim por laços de família, era culto, bom interessante, nossos encontros eram uma alegria. Com ele muito aprendi, sua cultura era vasta. A cor de sua pela nunca me incomodou, como, imagino, não o aborreciam meus olhos azuis. Havia coisas bem mais positivas e importantes entre nós e nossas famílias. Não vou desfilar casos com amigos negros, japoneses, árabes, judeus, seja o que for. Mas vou insistir no meu escândalo e repúdio a qualquer movimento que seja discriminatório, que incite o ódio de classes ou o ódio racial, não importa em que terreno for.

Agora, de novo para meu incorrigível assombro, em um lugar deste vasto, belo, contraditório país que a gente tanto ama, desejam sustar a circulação do Dicionário Houais, porque no verbete “cigano”consta também o uso pejorativo – que, diga-se de passagem, não foi inventado por Houaiss, mas era ou é uso de alguns falantes brasileiros, que o autor meramente, como de sua obrigação, registrou. Ora, para tentar um empreendimento desse vulto, como suspender um dicionário de tal peso e envergadura, seria preciso um profundo e preciso conhecimento de linguística, de lexicografia, uma formação sólida sobre oque é dicionário são dicionários e como são feitos.

O dicionário não inventa, não acusa nem elogia, deve ser imparcial – porque é apenas alguém que registra os fatos da língua, normalmente da língua-padrão, embora haja dicionários de dialetos, de gírias, de termos técnicos etc. Então, se no verbete “cigano”Houaiss colocou também os modos pejorativos como a palavra é ou foi empregada, criticá-lo por isso é uma tolice sem tamanho, que, se não cuidarmos, atingirá outros termos em outros dicionários, com esse olhar rancoroso. Vamos nos informar, antes de falar. Vamos estudar, antes de criticar. Vamos ver em que terreno estamos pisando, antes de atacar obras literárias e científicas com o azedume de nossos preconceitos e da nossa pequenez ou implicâncias infundadas. Há coisas muito mais importantes a fazer neste país, como estimular o cuidado com a educação, melhorar o atendimento à saúde, promover e preservar a dignidade de todos nós.

Ou, numa mistura maligna de arrogância e ignorância – talvez simplesmente porque não temos nada melhor a fazer , vamos deletar as palavras que nos incomodam, os costumes que nos irritam, as pessoas que nos atrapalham e, quem sabe, iniciar uma campanha de queima de livros. De autores, seria um segundo passo. E assim caminhará para trás, velozmente, o que temos de hum,anidade.

Lia Luft, escritora,

Revista VEJA, edição de 15/03/2012, pagina 22.

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