Parte 1
Getúlio Vargas
“O pai dos pobres”
Antigamente, o povo era um mero expectador do poder. Ele não decidia. Afinal de contas, quem sabia o que era melhor para ele e para o país era o rei, o imperador, o monarca, enfim, o “Grande Pai”, que muitas vezes, como nos mostra a História, era visto até como uma espécie de divindade. Um dia, o povo começou a perceber que quem pagava por aquilo tudo era ele, com seu trabalho, com seus impostos. Se era ele quem pagava a conta, obviamente era ele quem tinha que mandar também. Foi quando começaram a acontecer pelo mundo grandes revoltas que mudaram a história humana, como a Revolução Gloriosa e a Revolução Francesa.
No Brasil, o povo só começou a ser mais ouvido mesmo a partir de 1930. Com a golpe que acabou com a chamada “República Velha', dominada por oligarquias regionais e pelo chamado “coronelismo”, Getúlio Vargas tornou-se o primeiro grande líder popular. Em vez de usar os mesmos métodos dos antigos detentores do poder, que pouca importância davam às massas populares, pois, devido a eleições feitas a bico de pena, praticamente não dependiam muito da população para se elegerem, Getúlio Vargas viu no povo o grande sustentáculo de sua carreira política. Para isso, logo de início, promoveu uma reforma eleitoral e instituiu o voto secreto e o feminino. Além disso, para se aproximar mais do homem comum, criou o DOP, Departamento Oficial de Propaganda). Naquele tempo, um novo e revolucionário veículo de comunicação surgia, o rádio. Quando Getúlio assumiu o governo, em 1930, as emissoras existentes ainda eram meio experimentais e mantidas por colaboradores. Já no começo de seu governo, elas foram autorizadas a inserir publicidade em suas programações e, dessa forma, se tornarem comerciais e, por conseguinte, financeiramente independentes. Isso marcou o início, no Brasil, da “era de ouro do rádio”, um veículo que Getúlio Vargas soube usar como ninguém para conquistar popularidade e vender uma imagem de homem bom, nacionalista, protetor dos pobres. Para o bem e, também, para o mal, Getúlio usou e abusou da nova mídia para construir a imagem de mito em que se tornou para grande parte dos brasileiros daquela época. Veja o vídeo abaixo.
Getúlio Vargas, ao longo de todo o período em que governou o Brasil, como ditador, de 1930 a 1945, e, como presidente eleito democraticamente, de 1950 a 1954, sempre foi venerado pela grande maioria da população brasileira, graças a seu carisma, sua habilidade em usar a mídia, sua opção por agradar aos segmentos mais carentes da população. Era, para milhões de brasileiro, o “pai dos pobres”. Para criar e manter essa imagem de “bom homem”, Getúlio tinha uma ampla equipe de assessores. Depois que deu o golpe do “Estado Novo”, em 1937, inventando a desculpa de um falso plano de um golpe comunista no Brasil, chamado de “Plano Cohen”, Getúlio endureceu seu governo para “proteger” o País dos “traidores da Pátria”. Em 1939, ele transformou o antigo DOP no DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda. Além de promover a censura aos meios de comunicação da época, o DIP era responsável por criar e divulgar uma imagem quase divina de Vargas, com o “grande líder”, numa espécie de culto à personalidade do ditador. Veja o vídeo abaixo, produzido pela TV Cultura de São Paulo, que mostra bem claramente essa estratégia midiática de Getúlio.
Além do culto à personalidade de Getúlio Vargas, o DIP divulgava, por meio do cinema, das artes e, principalmente, da música popular, a imagem de um “Brasil Grande”, um país onde havia ordem, uma natureza exuberante e um povo feliz.
A Rádio Nacional do Rio de janeiro foi fundada em 1936. Ela pertencia ao grupo que administrava o jornal carioca “A Noite”. No entanto, em 1940, em decorrência de dívidas com a União, a emissora foi incorporada ao patrimônio do governo federal, ou, numa linguagem mais contemporânea, foi estatizada. Ronaldo Conde Aguiar, autor de um almanaque sobre a história da emisora, recentemente, em entrevista à Rádio Câmara, afirmou que nunca houve uma interferência direta de Getúlio Vargas na programação da Rádio Nacional. Além disso, segundo Ronaldo, apesar de pertencer ao patrimônio da União, a emissora nunca recebeu um tostão dos cofres públicos. A Rádio Nacional vivia com recursos próprios, ou seja, dos publicitários que vendia. No entanto, a maioria dos cantores populares do Brasil, na época, caso, por exemplo, de Francisco Alves, um ídolo daquele tempo, que gravou algumas músicas de louvores a Getúlio e ao Estado Novo, era contratada da Rádio Nacional, bem como o chamado projeto de integração nacional de Vargas tinha como grande aliada a produção cultural e artística que a emissora carioca transmitia a todo o Brasil, na época, por meio de suas ondas curtas. Enfim, Getúlio Vargas e Rádio Nacional do Rio de Janeiro, na década de 40, tinham tudo a ver um com o outro.
Usando a mídia da época, em especial a emissora de rádio mais potente e popular do Brasil naquele tempo, Getúlio Vargas conseguiu se transformar em um mito tão forte, que sua imagem resistiu ao tempo e às inúmeras denúncias dos abusos cometidos durante seu governo ditatorial. É óbvio que Getúlio teve seus méritos, e não foram poucos, pois, diferentemente do que faziam os arrogantes e elitistas políticos paulistas e mineiros que se revezavam no comando do País na famosa época da política do “café com leite”, Vargas deu voz ao povo, ao criar a Justiça Eleitoral, ao permitir que as mulheres também votassem e fossem votadas. De uma forma ou de outra, ele colocou o Brasil no século XX, praticamente acabou com o “coronelismo” e riscou do mapa a arrogante elite paulista e seus “Barões do Café”, modernizando a sociedade brasileira, criando uma legislação trabalhista que acabou com o quase escravismo que ainda havia no Brasil, criou o salário mínimo, instituiu a licença-maternidade para trabalhadoras gestantes, implantou uma indústria de base num país que era, até então, agrícola e praticamente só plantava e exportava café. Mas, independentemente disso, ele foi um ditador, que era chefe de um governo que mentiu ao povo para se manter no poder, censurou, perseguiu, prendeu, torturou, matou. Esse seu lado tirânico, obviamente, não aparecia nas músicas, nos filmes e nas cartilhas produzidas pelo DIP.
Para não ser deposto pelos militares, em 1945, Getúlio Vargas renunciou. Acabou então a ditadura do Estado Novo. São realizadas as primeiras eleições gerais verdadeiramente democráticas da história do Brasil, com voto direto, secreto e feminino. O País respira liberdade, mas o “pai dos pobres” não saiu da cabeça da maioria dos brasileiros. Depois de cinco anos afastado da vida pública, Getúlio tenta novamente assumir o governo do Brasil, dessa vez disputando votos em uma eleição realmente democrática, com ampla participação popular, diferente daquela eleição de bico de pena da qual ele participara em 1930 contra Júlio Prestes. Enfim, Getúlio chegou novamente à Presidência da República, em 1950, sem, também, precisar pegar em armas. Em síntese, depois de ter sido ditador por 15 longos anos, ele voltava ao poder nos braços do povo. Ele foi, sem dúvida, o primeiro grande mito popular brasileiro construído pela mídia. Quando ele se suicidou, em 1954. milhões de brasileiros saíram às ruas para chorar sua morte. Como disse na carta que deixou escrita antes de se matar, que ficou conhecida como “carta-testamento” pelos seus admiradores, Getúlio Vargas saiu da vida para entrar na História.
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