PARTE 2
Juscelino Kubitschek
“Cinquenta anos em cinco”
Juscelino Kubitschek de Oliveira foi o presidente da República do Brasil de 1956 a 1961. Ele iniciou sua trajetória política quando foi nomeado chefe da Casa Civil do governo de Minas Gerais, em 1934, no mandato do governador nomeado (interventor) Benedito Valadares. No mesmo ano, elegeu-se deputado federal. De 1940 a 1945, foi prefeito nomeado de Belo Horizonte, levaodo ao cargo por ato do interventor Benedito Valares. Foi eleito, novamente, deputado federal, pelo PSD (Partido Social Democrático), em 1945, e fez parte da Assembleia Nacional Constituinte que elaborou a Constituição de 1946. Em 1955, ele foi candidato à presidência da República por uma aliança do PSD com o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), tendo sido eleito com 36% dos votos (3.077.411 votos).
Juscelino Kubitschek tomou posse em 1956 com um discurso desenvolvimentista. Usando o lema Cinquenta anos(de progresso)em cinco (de governo). Lançou o Plano Nacional de Desenvolvimento, também conhecido como “Plano de Metas”, que priorizou os setores de produção de energia, transportes, indústria de base, produção de alimentos e educação. Para melhorar a infraestrutura do País, o governo de Juscelino atraiu investimentos externos, o que favoreceu muito a implantação de um polo de indústrias automobilísticas na região do ABC Paulita. Para incentivar o desenvolvimento da região Nordeste, criou a SUDENE (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste). Com essa política desenvolvimentista, Juscelino diversifica e promove um enorme desenvolvimento da economia brasileira.
Em 1957, Juscelino Kubitschek iniciou sua grande obra: a construção de Brasília, com projeto urbanístico do arquiteto Lúcio Costa e os desenhos dos prédios governamentais de Oscar Niemeyer. A obra atraiu trabalhadores de todo o Brasil, especialmente nordestinos, que se tornaram conhecidos como “candangos”.
Sobre a iniciativa de construir Brasília, há algumas lendas, entre elas a de que teria sido orientado por uma conhecida vidente mineira que ele deveria construir uma nova cidade que seria a nova capital do País no Planalto Central do Brasil. Pura balela. Na verdade, desde a primeira constituição republicana, de 1891, havia um dispositivo que previa a mudança da Capital Federal do Rio de Janeiro para o interior do país, determinando como "pertencente à União, no Planalto Central da República, uma zona de 14 400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada, para nela estabelecer-se a futura Capital Federal". O que Juscelino fez foi somente cumprir o que dizia a Constituição de 1946, que também previa a transferência da Capital Federal para o Planalto Central.
É óbvio que Juscelino Kubitschek promoveu um enorme desenvolvimento, mudando a cara do Brasil. O período de seu governo coincidiu com a fase que ficou conhecida como “Anos Dourados”, de grande efervescência cultural e artística, do nascimento da Bossa Nova, do Brasil campeão mundial de futebol em 1958, do lançamento de carros fabricados no Brasil, como o Fusca. Foi um período de otimismo, de esperança no futuro, de um Brasil que começava a ser mais conhecido no exterior. Em 1959, o salário minimo obteve seu maior valor real em todos os tempos.
Tudo isso dito acima faz parte, obviamente, da história de Juscelino Kubitschek, que demonstra que ele foi, sim, um grande presidente. No entanto, há algumas arestas do mito de Juscelino que têm de ser aparadas.
Hoje, não se fala muito no assunto, talvez para não macular sua imagem histórica e quase mítica, mas Juscelino Kubitschek sempre foi acusado de corrupção, desde o tempo em que era governador de Minas Gerais. No período em que foi presidente, então, as denúncias se intensificaram, principalmente por conta da construção de Brasília. Oposição e setores da imprensa diziam que havia sérios indícios de superfaturamento das obras e favorecimento a empreiteiros ligados ao grupo político de Juscelino. Outro casa basante polêmico o da empresa aérea Panair do Brasil, pertencente a amigos de Juscelino, que foi acusada de possuir um monopólio do transporte de pessoas e materiais enviados para a construção de Brasília, pois naquele tempo ainda não havia rodovias, como a BR-050. Por isso, grande parte dos materiais e equipamentos utilizados na obra eram transportados por aviões. Apesar de todas as acusações de corrupção contra Juscelino Kubitschek, após sua morte, em 1976, o inventário demonstro que seu patrimônio pessoal era bem modesto.
Mas o desenvolvimentismo e a ousadia de Juscelino Kubitschek custaram caro ao Brasil. Prudência e austeridade não faziam parte de seu vocabulário político-administrativo. Exemplo dessa quase inconsequência administrativa ocorreu no final de 1959, quando o dinheiro para construção de Brasília havia acabado. Juscelino achava que não poderia parar a obra de forma alguma. Ele rompeu com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que sugeria uma outra forma de controle da economia, que não estava de acordo com o jeito ousado de seu governo, e, para conseguir dinheiro para concluir Brasília, emitiu títulos da dívida pública e cartas precatórias, que foram negociados na bolsa de valores, para se conseguir capital de curto prazo, e vendeu esses papéis com deságio, ou seja, com um preço abaixo do valor de mercado, que poderia ser recuperado posteriormente em um prazo de 5 anos. Dessa forma, Juscelino conseguiu dinheiro para terminar a construção de Brasília. Mas, com isso, ele comprometeu o caixa dos próximos governos do país, por aumentar a dívida pública federal. Só esses fatos desmancham o mito de Juscelino Kubitschek como grande administrador.
No final do mandado de Juscelino Kubitschek, o Brasil já enfrentava o crescimento da inflação, um aumento considerável na concentração de renda e arrocho salarial. Houve várias manifestações populares, com greves no campo e nas cidades. A inflação e o arrocho salarial foram gerados pela expansão do crédito, pelo aumento na importações para a nascente indústria automobilística e, principalmente, pela constante emissão de moeda para sustentar investimentos do governo e pagar empréstimos externos. Em 1960, a inflação estava em 25% ao ano. As consequências piores vieram depois do governo de Juscelino: em 1961, a inflação subiu para 43%; em 1962, para 55% e chegou a 81% em 1963. Daí em diante, a situação econômica, política e principalmente social do Brasil só se agravou, culminando no golpe de estado de 1964.
Outro mito que existe sobre a figura de Juscelino Kubitschek era a de que ele era um político popular. Os fatos demonstram o contrário. Juscelino foi eleito, em 1955, com apenas 36% dos votos válidos. Ao final de seu agitado governo, mesmo depois de ter construído Brasília, de haver implantado a indústria automobilística no Brasil e de todo o progresso que sua ousada e quase irresponsável administração provocou, ele não conseguiu eleger seu sucessor, que era o marechal Teixeira Lotti.
Em 2006, a Rede Globo exibiu uma minissérie sobre a vida de Juscelino Kubitschek. Misturando realidade e um pouco de ficção, a obra televisiva reforça a imagem mítica de Juscelino.
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