O Brasil passa por um momento difícil. A economia brasileira encolheu 0,6% no segundo trimestre em comparação com os três primeiros meses de 2014, conforme dados divulgados ontem pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Foi o segundo trimestre consecutivo de retração na economia do País, um dos sintomas típico recessão, de crise. Enquanto isso, diante de falta de nomes confiáveis para governar o Brasil, o eleitorado prefere apostar em mais uma incógnita, em mais uma aventura, de tantas que já tivemos. Marina Silva, candidata a presidente pelo PSB não para de crescer nas pesquisas. Já está empatada com Dilma Rousseff, em 34 pontos, segundo a ultima pesquisa do DATAFOLHA. Que futuro nos aguarda? Dá até arrepios de pensar. Há quem chame Marina de uma espécie de Jânio Quadros de saia. Pode ser. Mas o eleitor, mais uma vez, quer mudanças. Já tivemos Jânio, e Collor, que encantaram o Brasil com seus discursos. Um renunciou por causa de “forças terríveis”, o outro foi apeado do poder. Será que Dilma não é mais uma aposta perigosa? Só o futuro nos dirá.
sábado, 30 de agosto de 2014
sexta-feira, 6 de junho de 2014
E o tal decreto “bolivariano” de Dilma?
E o tal Decreto n.º 8.243/2014 da Presidência da República, publicado no Diário Oficial da União de 26 de maio de 2014, que “institui a Política Nacional de Participação Social - PNPS e o Sistema Nacional de Participação Social – SNPS e dá outras providências”, como diz seu resumo introdutório.
Parece que esse decreto é mais uma tentativa do atual governo do PT e de boa parte da esquerda brasileira de criar mais um ornamento democrático. Parece que se esqueceram de que o Brasil é uma democracia representativa. A cada dois anos, nós, os membros da tal sociedade civil, os cidadãos, somos convocados a escolher nossos representantes, vereadores, deputados estaduais, deputados federais e senadores, assim como somos convocados também eventualmente para, em plebiscito ou referendo, decidirmos sobre assuntos espinhosos demais para nossos representantes. É assim que funciona a democracia representativa.
Não bastassem esses instrumentos institucionais, agora, a atual presidente da República, num acesso repentino de “democracismo”, assina um Decreto criando a tal Política Nacional de Participação Social e o tal de Sistema Nacional de Participação Social, para, por meio de conselhos, comissões, ouvidorias, fóruns, audiências e consultas públicas e toda essa parafernália aparentemente democrática, fazer de conta que toda a sociedade civil brasileira participa ativamente das diretrizes das políticas públicas.
Os partidos de oposição estão se unindo e querem revogar esse decreto, por considerarem que se trata de um golpe “bolivariano”, um atentado contra a democracia. E é mesmo um golpe. O amigo leitor pode até questionar: mas como um atentado contra a democracia, se a presidente está abrindo canais para que a sociedade civil participe e dê sua dose de colaboração na elaboração de políticas públicas.
Inicialmente, devemos lembrar que não podemos, de forma alguma, substituir ou tentar igualar a representatividade universal estabelecida constitucionalmente para a democracia representativa com a representatividade de conselhos, comissões ou fóruns ditos “populares”. Tentar fazer isso é, realmente, um golpe na democracia. Além disso, quem fará parte desses conselhos populares? Com toda certeza, somente militantes de partidos políticos ou dos chamados “movimentos sociais”.
E onde ficamos nós, cidadãos, trabalhadores, pessoas comuns, membros da sociedade civil, nessa história? Diferentemente desse pessoal dos “movimentos sociais”, dos “blogueiros progressistas”, dos “militantes de partidos”, nós, cidadãos, temos que trabalhar, estudar, pagar nossas contas, pagar os impostos, cuidar de nossas famílias, de nossas casas, de nossas vidas, enfim. Nós, cidadãos comuns, trabalhadores, contribuintes, que sustentamos com nossos impostos toda essa enorme e muitas vezes inútil burocracia estatal, não temos tempo, disposição, nem conhecimento técnico para participar de conselhos e audiências públicas. Nós já elegemos nossos representantes lá no Congresso Nacional, nas assembleias legislativas e nas câmaras municipais. Nós, cidadãos, contribuintes, trabalhadores, temos mais o que fazer do que ficar dando palpite sobre coisas das quais não entendemos.
Então, quem vai participar desses conselhos? Provavelmente, gente que tem tempo para ficar o dia todo fazendo manifestação, invadindo propriedades alheias, depredando prédios públicos e privados, que fica o dia todo escrevendo em blogs e fazendo panfletagem nas redes sociais, enfim, desocupados...
Nas próximas eleições, nós, cidadãos, os verdadeiros representantes da sociedade civil, termos de dar um basta nesta baderna em que se transformou este país. Esse é o único caminho verdadeiramente democrático de mudança: o voto, livre e consciente. É por meio dele que nós, o povo, a sociedade civil, vamos eleger nossos representantes, que terão o encargo de definir as diretrizes das políticas públicas. O resto é conversa mole, é teatro, é golpe. Acorda, Brasil!
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Os sectários e suas “verdades”.
Você conhece um sectário?
Mas o que é um sectário? Em rigor, sectário é um seguidor de uma seita. No entanto, a palavra, hoje, adquiriu um sentido mais amplo, mais abrangente. Sectário pode ser definido, nos tempos de hoje, como aquele indivíduo que tem um apego exacerbado por um determinado ponto de vista, com uma visão, muitas vezes, estreita da realidade, quase sempre apresentando uma postura intransigente, intolerante, repelindo de forma abrupta tudo aquilo que contrarie seus conceitos, seus dogmas, seu entendimento de mundo. Acham-se “iluminados”, intelectualmente superiores à grande maioria das pessoas, mas, na verdade, não passam, muitas vezes, de idiotas úteis, que, por causa de seu fanatismo, já perderam o senso crítico.
Há sectários de todos os tipos. Mas, os dois mais conhecidos são os sectários político-ideológicos e os sectários religiosos.
Vamos analisar inicialmente os sectários político-ideológicos, que podem ser divididos em sectários de direita e de esquerda.
Os sectários de direita são mais raros, mas, quando aparecem, não são menos fanáticos e apaixonados que seus congêneres de esquerda. Geralmente são moralistas ao extremo, apegados à tradição, à família. São autoritários, intolerantes, intransigentes e preconceituosos. Felizmente, com as mudanças dos costumes, os sectários de direita são uma espécie quase em extinção, mas há muitos exemplares deles ainda espalhados por aí lutando em favor da moral e dos bons costumes.
Já os sectários de esquerda são aqueles que se dizem socialistas e sonham com um ittópico mundo igualitário. Mesmo depois de passados mais de 24 anos do fim da União Soviética, da quea do Muro de Berlim, do encerramento da “Guerra Fria” e da derrocada de todos os regimes socialistas da Europa Oriental, eles continuam falando como se ainda estivessem na década de 60, imputando aos Estados Unidos e ao capitalismo “selvagem” a culpa por todas as mazelas do mundo. O sectário de esquerda geralmente vê o mundo de forma maniqueísta. Para ele, baseado no que escreveram Karl Marx e Friedrich Engels, há 166 anos, num contexto socioeconômico totalmente diferente do atual, o mundo se divide em proletários, isto é, a classe trabalhadora, e a burguesia. Muitos deles não bebem Coca-Cola, por sem um produto-símbolo do que eles chamam de “imperialismo yankee”, mas, incoerentemente, usam telefone fixo e celular (todos invenções dos imperialistas), luz elétrica (invenção dos imperialistas), computadores (invenção dos imperialistas) e Internet (invenção dos imperialistas justamente para ser uma arma de guerra durante a “Guerra Fria”). A grande maioria deles é doutrinada, isto é, condicionada a pensar dessa forma, principalmente em universidades, sindicatos ou em grupos ou organizações chamadas de “movimentos sociais”. Eles se dizem “de esquerda”, “progressistas”, e consideram todo aquele que pensa diferente deles “de direita”, “conservador”, “reacionário” “fascista”, muito embora a grande maioria deles nem saiba o que realmente significam essas palavras.
Tão fanático quanto o sectário político-ideológico de direita e de esquerda é o sectário religioso. Esse é aquele que, quando adere a uma religião ou seita, acha que descobriu finalmente a “verdade” e, por isso, acha-se no direito de “salvar a humanidade”, de conquistar neófitos para que também sejam “salvos”.
Todo sectário, seja político-ideológico ou religioso, acha-se um privilegiado intelectualmente e enxerga todo aquele que não comunga de suas ideias como ignorantes, alienados, pecadores, ímpios, infiéis, etc. Na verdade, ele mesmo não passa de um idiota útil, um manipulado, alguém que intelectualmente come pela mão dos seus “mestres”, seus doutrinadores, sem se aperceber disso.
Quando deparo com um desses sectários, “donos da verdade”, me lembro dos versos de Fernando Pessoa, quando ele diz em um trecho de seu poema Lisbon Revisited, “Não me venham com conclusões!/A única conclusão é morrer”. Mais adiante, ele é mais direto: “Se têm a verdade, guardem-na!
O sectarismo, em graus mais suaves, só incomoda. Mas em graus mais elevados, como a História demonstra, pode perseguir, torturar e matar milhões de pessoas.
No evangelho de João, 18: 38, num improvável diálogo entre Jesus (que falava aramaico) e Pilatos (que falava latim), o então prefeito da Judeia pergunta ao jovem réu galileu: Quid est veritas? (O que é a verdade?). Jesus não respondeu. Ou ele não sabia a resposta ou sabia que seria impossível tentar explicar a Pilatus o que é a verdade.
Poer isso, se você tem a “verdade”, por favor, guarde-a.
sábado, 17 de maio de 2014
Nem tudo está perdido…
Em uma espécie de imitação um tanto desajeitada dos velhos concursos de músicas da televisão dos anos 60, chamados de “festivais”, a Prefeitura de Pereira Barreto está realizando mais um festival de MPB, sigla muita usada nos anos 60 e 70 para “música popular brasileira”, de uma época em que essas músicas eram mesmo populares, não só no nome. Era um tempo em que Chico Buarque, Caetano e Gil tocavam em populares programas musicais do rádio.
O tempo passou, o mundo mudou e os velhos festivais da Record e da Excelsior viraram somente doces lembranças. No entanto, em cidades perdidas no interior do Brasil, como Pereira Barreto e Ilha Solteira, citanto só duas como exemplo, os anos 60, de repente, estão de volta. Num determinado momento, centenas de cidadãos do século XXI viajam no tempo para reviverem uma época de muita agitação, rebeldia, protesto e música de letra complicada, que fala de política, de problemas existenciais e sociais, de política e de costumes, num misto de pretenso intelectualismo e ingenuidade.
Em tempos de funk e sertanejo universitário, o sucesso, em uma pequena cidade do interior do Brasil, de um concurso de músicas mais sofisticadas, com letras mais elaboradas, falando de assuntos que vão do intimismo a questões sociais, é algo que realmente surpreende. É um sinal de que a boa música, a música de verdade, ainda pode ser resgatada. Nem tudo está perdido....
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Cuidado com a guerra de informações que vem por aí
Na medida do possível, tenho tentado acompanhar o que acontece na v ida política do Brasil e do mundo. Não é fácil, hoje em dia, absorver tanta informação que a gente recebe diariamente, p0ela TV, pelos jornais, revistas e, principalmente, pela Internet. Na, dentro do possível, a gente vai se informando e acompanhando os fatos e tentando fazer um juízo de valor sobre eles.
Estamos em ano de eleições para deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente da República. O ambiente político está em ebulição. Quem se limita a acompanhar os acontecimentos somente pela TV, como faz a maioria das pessoas, não percebe muito o clima tenso em que o País está entrando. Mas quem acompanha os fatos pela Internet, principalmente, pelas chamadas redes sociais, percebe que está havendo uma grande radicalização político-ideológica nos debares políticos, que há muito não se via no Brasil.
Aos poucos, radicais de esquerda e de direita começam a expor suas ideias na rede. A medida que as eleições se aproximam, os debates nas redes sociais e, principalmente, a radicalização desses debates, têm se tornando mais intensos. A impressão que se tem é que teremos ao longo deste ano uma intensa guerra de informações, desinformações, contrainformações, muitos boatos, a grande maioria, obviamente, falsos. O sectarismo e o radicalismo, num clima desse, é perigoso. Não se iluda o amigo leitor: os dois lados são “golpistas”. A briga não é só pelo poder, mas também pela hegemonia cultural. Todo o mundo quer impor suas “verdades absolutas”.
Portanto, há que se tomar muito cuidado com o que se lê o que se houve na mídia e, principalmente, nas redes sociais durante esse período pré-eleitoral e eleitoral. O importante é estar atento, saber filtrar as informações. Embora a maioria dos segmentos radicais de esquerda e de direita tentem desqualificar as informações da mídia tradicional, ela, apesar de todos os pesares, de todas as suas conhecidas mazelas, de seus interesses, etc., ainda é a fonte de informação mais segura e confiável, porque, como instituição legalmente constituída, ela tem um certo compromisso com a informação e, obviamente, precisam tentar manter sua credibilidade. Mesmo assim, nunca confie somente em uma fonte mesma fonte. Ao tomar conhecimento de uma informação por meio de um determinado canal de mídia (TV, jornais, portais, etc.), procure ver se a mesma informação está disponível em outro canal. Se não estiver, desconfie.
domingo, 27 de abril de 2014
Voltando a postar aqui
Depois de um longo e rigoroso inverno, com dirieto a muita neve e noite polar, eis-me aqui novamente, postando em meu espaço preferido.
Fazia tempo que não postava nada neste meu blog. Pretendo, doravante, postar artigos, matérias e minhas opiniões sobre os mais diversos assuntos.
Acho que aqui me sinto muito mais à vontade para expor minhas ideias do que, por exemplo, no Facebook ou no Twitter. Aqui é meu espaço, minha casa virtual na Internet.
Claro que, para divulgar meus textos aqui, vou postar os links de meus artigos no Facebook e no Twitter.
E agora, me deem um pouco de tempo para eu decidir sobre o que escrever. Até mais!
sábado, 9 de novembro de 2013
A ERA DO REBELDE CHAPA-BRANCDA
Gostei do texto que o cantor, compositor, músico e escritor Lobão publicou em seu artigo de estreia na revista VEJA, que está indo às bancas neste final de semana. Ele vem transcrito logo abaixo. Vale a pena ler.
A ERA DO REBELDE CHAPA-BRANCA
Vivemos um momento histórico de uma vulgaridade, obscurantismo e insipidez sem precedentes que, por várias razões entrelaçadas, propicia a eclosão de um personagem patético, insólito, abundante e que ficará marcado como a expressão máxima deste triste período: o rebelde chapa-branca.
Sim! É ele o protagonista em todas as rodinhas, redes sociais, botequins, universidades e passeatas. Revela-se por duas características inseparáveis: é revoltado contra o sistema e, ao mesmo tempo, chancelado por ele.
Vamos a alguns exemplos. O MST é subvencionado pelo governo, tem o respaldo do governo e, no entanto, não para de reclamar, invadir e destruir terras produtivas. No rap, há um sem-número de rebeldes chapa-branca, mas seu ícone são os Racionais. Fazem campanha para o governo, sobem nos palanques, têm o beneplácito da mídia oficial bancada pelo governo e, mesmo assim, são revoltadíssimos contra o sistema! No seu último videoclipe, Mariguella, eles aparecem prontos para assaltar a Rádio Nacional, numa reconstituição de época, exibindo inúmeros trabucos de grosso calibre e conclamando à luta armada, incorporando aquela mímica marrenta, um tanto canastrona que lhes é peculiar.
O detalhe é que eles estão no poder. Eles são o poder. Eles são a situação.
No aniversário da morte de nosso Che Guevara tupiniquim, a Comissão da Verdade comemorou a data com solenidade e deferência. Mariguella pode ter arrancado a perna de uns, matado outros e lutado para implementar uma ditadura sanguinolenta no Brasil, mas os rebeldes chapa-branca chancelam a festa, impõem a farsa com mão de ferro e ai de quem piar.
Na semana passada, o tal Procure Saber implodiu com a defecção do rei, deixando desnorteados Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque – rebeldes chapa-branca de longa data. O Gil acabou no comando do Ministério da Cultura, onde foi aninhado sua cria, o Fora do Eixo, que tem como ponta de lança Pablo Capilé, um rapaz que afirma ser contra o direito autoral, contra o autor, contra o livro e é pupilo de Zé Dirceu. Tira dos artistas para entregar de mão beijada aos magnatas das redes sociais como o Google, o YouTube e o Facebook. Isso porque não estamos ainda perguntando para onde foi toda a grana que ele recebeu através das leis de incentivo à cultura. É um típicvo rebelde chapa-branca. Mas o Caetano acha “moderno” esse retrocesso estúpido e desonesto. O Chico, lá da França, assina carta de apoio ao Genoíno. São os nossos coronéis chapa-branca solando de cavaquinho.
Temos de ressaltar também a performance fulminante da presidente do Procure Saber, esta sim uma rottweiler de incontestável pedigree, Paula Lavigne. Descontrolada, vem cometendo lambança atrás de lambança, incluindo um ataque covarde à colunista da Folha de S. Paulo Mônica Bergamo. E o que dizer de sua performance no Saia Justa com a Bárbara Gancia? Há um mês, ela invadiu o meu Twitter, acompanhada por uma centena de integranbtes da seita black bloc, me chamando de nazista, ex-músico, ex-Lobão, amante da ditadura, decadente (tem gente me chamando de decadente há uns trinta anos). Depois de algumas trocas de gentilezas, fui obrigado a bloqueá-la.
Uma das características dos rebeldes chapa-branca é o uso da técnica do espantalho: criam uma figura caricatural, colocam frases fora do contexto (quando não inventadas) em sua boca e tentam fazer acreditar que essa figura patética é você! Um vodu de psicopata.
Uma jornalista chapa-branca de uma revista bancada pelo governo declarou, nu momento de búdica inspiração, que é a favor de fuzilamento para determinados casos (quais seriam?). É o tipo de comportamento visto com simpatia e condescendênci8a pelo rebelde chapa-branca, pois a visão assimétrica do mundo, com um peso para duas medidas, é outra marca registrada dele.
Estou inaugurando com muito orgulho e entusiasmo minha coluna em VEJA. Não é fortuito o nosso encontro, assim como não é por acaso que se percebe a sociedade civil começando a se organizar para repensar a nossa condição atual. Tentarei tratar dessa miséria que nos assola como se tivesse praticando um novo esporte: épater la gauche. Essa turma está imprimindo o ridículo em sua própria história. E desse vexame não escapará.
LOBÃO, músico, cantor, compositor e escritor
Revista VEJA, edição n.º 2347 – 13/11/2013.
domingo, 20 de outubro de 2013
A intenção foi nobre, mas o ato, insano
Após invadirem um laboratório de pesquisas em macacos, um grupo de ativistas encontra chimpanzés presos em gaiolas diante de telas que exibem continuamente cenas de extrema violência. Ignorando os avisos de um cientista que trabalha no local de que os macacos estariam infectados, os ativistas decidem libertá-los. Assim que são soltos, os macacos atacam a todos que estão à sua volta. Esse é o início de uma enorme epidemia que, me menos de um mês, se espalha por toda Inglaterra. Essas são as cenas inicias de EXTERMÍNIO, de 2003, filme britânico, dirigido por Danny Boily e estrelado por Cillian Murphy, Naomie Harris e Christopher Eccleston.
A sandice que os ativistas do filme cometeram, ignorando os avisos do cientista de plantão, foi exatamente a mesma que um bando de gente ignorante em assuntos científicos e ingênuas fez ao invadir, na madrugada da última sexta-feira, dia 18 de outubro, a sede do laboratório do Instituto Royal, em São Roque (SP), que realiza pesquisas nos setores farmacêutico e veterinário. Os manifestantes, entre eles integrantes do Black Bloc, acusam a empresa de maus-tratos em cães da raça beagle, que são utilizados em pesquisas desse tipo. Após convocarem mais pessoas para irem até a empresa, localizada a 60 quilômetros da capital paulista, os ativistas derrubaram um portão e entraram no complexo do laboratório para, segundo eles, "resgatar" os cães. Cerca de 300 deles teriam sido levados pelos ativistas.
Os protestos contra o Instituto Royal começaram ainda no ano passado. Ativistas que dizem defender os direitos dos animais alegam que o Instituto Royal pratica irregularidades e atos criminosos contra os animais usados em experiências. Eem sua luta, os manifestantes já pediram até apoio ao prefeito de São Roque, Daniel de Oliveira Costa (PMDB), e exigiram, também, uma atuação do Ministério Público no caso.
O Instituto Royal, por sua vez, defende suas pesquisas em seu site e diz que respeita todas as normas nacionais e internacionais no trato com os cães em laboratório. A empresa é uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) e tem entre suas fontes de financiamento dinheiro público, graças ao apoio de agências de fomento à pesquisa científica. Os defensores dos animais afirmam que a empresa não possui licenças e alvarás para as atividades que realiza.
A intenção dos ativistas é nobre. Esse tipo de movimento contra uso de animais em experimentos científicos existe no mundo todo. Há que se ter controle sobre isso. Há questões éticas em jogo que têm que ser levadas em conta. Por isso, a exemplo do que ocorre na maioria dos países, o Brasil tem uma legislação específica sobre o assunto que exige que os institutos e laboratórios de pesquisa tenham que submeter os projetos desse tipo de pesquisa a um conselho de ética, que avaliará a necessidade do uso de animais, bem como alternativas à sua utilização e formas de minimizar o sofrimento dos bichos.
No entanto, o que essas pessoas fizeram, ao invadir o Instituto Royal foi mais que um crime: foi uma insanidade. Os cães da raça beagle que lá estavam e que foram “resgatados” pelo ativistas não são bichinhos de companha, como o cãozinho que a gente tem em casa, mas sim animais de laboratório, Nasceram ali para para serem utilizados em experimentos científicos. Fora dos laboratórios onde viviam, esses bichos correm o risco de serem infectados pelo ambiente externo, que é inóspito para eles, pois provavelmente não possuem as mesmas defesas imunológicas dos animais domésticos. Além disso, corre-se o risco de algum desses animais ter sido, a título de experiência científica, inoculado por algum tipo de vírus ou bactéria que poderia ser transmitido a outros animais ou até pessoas, causando até uma epidemia, como no caso dos macacos do filme EXTERMÍNIO.
Todo o mundo que fica doente ou que tem um filho ou um parente doente em casa quer, obviamente, que haja medicamentos disponíveis para o tratamento de seu ente querido, não é mesmo? Pois é! Não há outra forma de fazer com que medicamentos cheguem com segurança ao mercado sem o uso de testes usando animais. Os primeiros testes são feitos, geralmente, com roedores, animais pequenos. Posteriormente, são feitos testes em animais como cachorros ou macacos. Finalmente, são realizados testes com seres humanos. Não há outra forma de se colocar remédios à disposição dos consumidores nas farmácias e drogarias. Não há programas de simulação de testes para isso. Somente o experimento em seres vivos pode garantir se o medicamento em teste é seguro ou não para uso em seres humanos ou animais. Tanto é assim que nenhum país do mundo proíbe testes com animais. O que tem que haver é o controle, a adoção de critérios éticos.
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
ESSA MEDICINA MATA
Matéria publicada na revista VEJA de 11/09/20123
Do remédio feito com o veneno do escorpião-azul, que serve para todo tipo de câncer mas não cura nenhum, aos abortos em série, a saúde pública em Cuba é uma tragédia.
O escorpião-azul (em espanhol, alacrón) é um animal peçonhento só encontrado em Cuba. Desde 1995, cientistas da ilha estudam o seu veneno e garantem que é eficaz em vários tipos de câncer. A partir dele, fabricam e comercializam os remédios Escozul e Vidatox. Outra espécie endêmica na ilha é a medicina avessa às evidências. Submeter os estudos a uma publicação científica é considerado traição à pátria comunista, submissão ao imperialismo americano. Não há nenhuma comprovação de que o veneno funciona. No Pubmed, a maior base de dados científicos sobre saúde no mundo, não há um registro sequer sobre o tal remédio. Sua suporta eficácia é um dos muitos mitos sobre a medicina cubana criados e perpetuados pelos irmãos ditadores Fidel e Raul Castro para enganar governos incautos como o do Brasil, que pretende contratar 4000 médicos cubanos até o fim do ano (os primeiros 400 já chegaram há duas semanas).
A mentira – e não apenas na medicina – é a principal política de estado na ilha dos irmãos Castro. A atual epidemia de cólera, por exemplo, que as autoridades não conseguem mais esconder, é controlada com um remédio homeopático. “Dar cinco gotas via oral de uma droga homeopática sem eficácia comprovada em um país onde não há tratamento adequado de água e onde a falta de higiene é regra parece uma piada de mau gosto”, diz o médico cubano Eloy González, exilado nos Estados Unidos. Para se ter uma ideia de como Cuba está atrasada, a cólera foi erradicada no século XIX em vários países com o saneamento básico. Propagandear a obsoleta medicina cubana como avançada e pioneira é indispensável para a ditadura, que depende da exportação de mão de obra do setor de saúde para se sustentar. Os missionários de jaleco são atualmente a principal fonte de divisas do regime. Em dezesseis escolas de medicina, Cuba formou neste ano mais de 10000 doutores e outros 20000 profissionais de outras carreiras de saúde, como enfermagem e nutrição. Seria uma notícia boa em 1959, quando a Faculdade de Medicina de Havana era uma das dez melhores do mundo. Hoje o curso é uma vergonha e está em 68.º lugar no ranking de qualidade da América Latina. Com as missões no exterior, pouquíssimos médicos ficam na ilha, o que levou ao fechamento de 54 hospitais nos últimos três anos. “Antes era preciso levar lençóis, comida e seringas para o hospital para ser atendido. Daqui a pouco será preciso levar também o médico e a enfermeira”, diz por telefone um morador de Havana que preferiu não ser identificado. Não é incomum ser atendido por um jamaicano ou um estudante chinês, que falam o espanhol com dificuldade.
O regime cubano esconde a decadência de seu sistema de saúde por trás de um únido indicador: a baixa taxa de natalidade infantil. Trata-se, sem dúvida, do produto do esforço governamental – alcançado por meios antéticos, para não dizer criminosos. Cuba pune os médicos que dão atestado de óbito a bebês com menos de um ano de vida. “Testemunhei certa vez um patologista recusando-se a alterar a idade de dois bebês mortos, o que faria com que eles não entrassem na taxa de mortalidade infantil. Ele foi recriminado pelo diretor do hospital, que sofria forte pressão do Partido Comunista para manter a estatística em níveis baixos”, diz González. Ao menor sinal de anormalidade do feto, as mulheres são submetidas a um aborto. O grande número desse tipo de operação reflete-se na elevada taxa de mortalidade materna, que também é uma consequência da falta de condições nos partos. Até oito semanas de gestação, o aborto é feito numa simples consulta médica, sem anestesia, com aspirador. “O procedimento é traumático e feitos sem os devidos cuidados”, diz o clínico geral Pedro Riera.
Para evitarem as filas nos hospitais, é comum os pacientes darem uma caixinha ao médico. Vinte dólares é um bom agrado, mas um filme em DVD também é bem-vindo. Os doutores não ganham mais que 40 dólares por mês e muitos estão abandonando a profissão. Na falta de remédios, receitam placebos feitos por eles próprios, na esperança de que os pacientes melhores apenas pelo fator psicológico de acreditar que foram medicados. “Não há diagnósticos precisos nem medicamentos adequados, só dipirona, diz a advogada Lariza Diversent, de Havana. Ela levou seu filho de 14 anos ao hospital da cidade depois que ele cortou o pé depois de uma partida de futebol. Voltou para casa sem a sutura necessária. “Não havia material para dar pontos, e ele ficou meses com o corte aberto e sangrando”, diz Lariza.
Como tudo se reutiliza e as condições de esterilização estão longe das ideais, muitos pacientes pegam doenças de outros, como hepatite C, aids e sífilis. Em Cuba, câncer e aids ainda são tratados como tabu. A palavra câncer, aliás, não é utilizada. Na cartilha da medicina comunista, os tumores são chamados de “inflamação” ou “aumento” de certo órgão, para não assutar os pacientes. No passado, os soropositivos eram mentidos em prisões, isolados do resto da sociedade, O enclausuramento só foi abolido, por falta de recursos financeiros, nos anos 90, quando o país ficou sem ajuda da União Soviética Ainda hoje, algumas doenças psiquiátricas são atribuídas à falta de ideologia comunista. A medicina de Cuba é cheia de exemplos a não ser seguidos – muito menos importados.
Matéria de NATHALIA WATKINS, com reportagem de TAMARA FISCH.
Revista VEJA – edição n.º 2338 – 11/09/2013, páginas 72 e 73.
sábado, 31 de agosto de 2013
Da caneta de bico de pena aos processos digitais
Quem militou no serviço público, no nosso caso, mais especificamente, no Poder Judiciário, no período compreendido entre as décadas de 1950 a 1980, utilizou, durante praticamente toda a sua vida funcional, as mesmas ferramentas básicas de trabalho: papel, lápis, caneta, carbono, máquina de escrever e carimbos, muitos carimbos. No decorrer desse período, ocorreram inúmeras mudanças no Brasil e no mundo, principalmente na política, na economia, na cultura, na tecnologia, na sociedade e nos costumes. No entanto, nesse mesmo intervalo de tempo, poucas coisas mudaram nos ambientes áridos dos cartórios e das repartições públicas. Quem começou sua vida funcional, em 1950, usando máquina de escrever, carbono e carimbos, com certeza, aposentou-se, na década de 80, usando, ainda, basicamente, máquina de escrever, carbono e carimbos.
Ainda nos anos de 1950 e 1960, não era somente a distância espacial que separava as pequenas cidades do interior dos grandes centros urbanos, mas também a distância temporal. Naquela época, os únicos meios de comunicação instantâneos eram as lacônicas mensagens telegráficas e a precariedade das conversações telefônicas interurbanas, cujas chamadas podiam levar horas para serem completadas. Dependia-se quase que exclusivamente dos serviços dos correios, que nem sempre eram rápidos e eficientes. Para que se tenha uma noção de como eram as coisas naquela idos tempos, um exemplar do Diário Oficial demorava de um a dois dias para chegar, isso quando não atrasavam ou simplesmente não chegavam. O quase isolamento das pequenas cidades em relação aos grandes centros fazia com que o Judiciário local se tornasse tão vagaroso quanto o próprio ritmo de vida dessas pequenas localidades.
A partir do início da década de 1990, o avanço tecnológico começou a andar bem mais rapidamente. Em empresas, no comércio, em escolas e até em outros segmentos do serviço público, canetas, papéis, carbonos, máquinas de escrever e calcular começaram a ser substituídos por computadores e impressoras. O Judiciário, no entanto, conservador e formal, resistiu enquanto pôde a mudanças tão radicais. Mas, ao começarem a utilizar computadores como uma espécie de máquina de escrever avançada, juízes, servidores e operadores do Direito de modo geral começaram a perceber que aquela moderna engenhoca tinha inúmeros recursos que facilitariam bastante a criação e edição de textos de sentenças, despachos, ofícios, requerimentos, etc. Esse foi o sinal verde para que as novas tecnologias da informação começassem a chegar aos fóruns e aos tribunais brasileiros.
O Judiciário brasileiro sempre foi uma instituição conhecida pelo excesso de formalidades burocráticas, fruto de códigos processuais detalhistas e anacrônicos. Na Justiça brasileira tudo sempre teve de ser certificado, atestado, carimbado, visado, autenticado, homologado, registrado, constado em ata, devidamente assinada e com firma reconhecida. O excesso de formalismos no Judiciário está tão entranhado, tão arraigado, que já me cansei de ver, por exemplo, a quase cômica situação de um juiz enviar ofícios para ele mesmo, porque a vara pela qual respondia acumulava, em uma mesma seção do respectivo cartório, a área criminal e da infância e da juventude. Num ambiente assim, não foi é nada fácil vencer a resistência à implantação de novas tecnologias e novos métodos de trabalho. Muita gente, ainda, se recusa a trocar os velhos fichários pelos bancos de dados virtuais, a máquina de escrever pelos processadores eletrônicos de textos, o velho aparelho de fac-símile pelo e-mail e scanner. O tal “medo do novo” e a “burocratomania” talvez sejam as causas de tanta resistência a mudanças.
Pouco a pouco, no entanto, o Poder Judiciário, tão formal e circunspecto, começa a se render aos novos tempos, às novas tecnologias. A implantação do SAJ, Sistema de Automação do Judiciário, é um passo importante dessa caminhada rumo à total digitalização dos processos judiciais, que pode representar o fim dos enormes volumes de papel que entopem os escaninhos dos cartórios. O lamentável, no entanto, é que, apesar de toda tecnologia que vem sendo agregada aos serviços forenses, os trâmites processuais continuam complexos, trabalhosos e repletos de formalidades desnecessárias, que já poderiam ter sido eliminadas. Por causa disso, o SAJ se tornou um sistema também complexo, de difícil assimilação pelos seus operadores, além de ser extremamente pesado e ainda gerar uma quantidade muito grande de papéis.
O excesso de formalismos e o siso afastam as pessoas do Poder Judiciário. Mas somente a informatização não vai fazer com que a Justiça no Brasil se torne mais rápida, mais ágil, mais eficiente, mais transparente e, dessa forma, bem mais confiável, como é o desejo de toda sociedade brasileira. Uma profunda reforma nos códigos processuais se faz necessária. Mas esse, obviamente, é um trabalho que tem que ser executado por nossos legisladores, a quem cabe fazer as reformas necessárias. Mas não podemos nos esquecer de que nosso Legislativo também é moroso e extremamente burocratizado e nossos legisladores são extremamente detalhistas quando fazem leis. Uma demonstração disso é o projeto de novo Código de Processo Civil, que, embora tenha como objetivo principal acelerar a tramitação de processos e promova alguns avanços significativos, está longe do ideal, por ser ainda bastante longo, detalhista e não eliminar suficientemente o excesso de formalismos.
Em suma, o que a sociedade quer de nós, servidores e magistrados, é um Judiciário mais ágil, eficiente, menos complicado, acessível a todos e, sobretudo, mais rápido. A tecnologia pode contribuir muito para que esses objetivos sejam alcançados. No entanto, está mais que claro que somente tecnologia não é suficiente. A solução começa por códigos processuais e estatutos normativos mais “enxutos”, passa pelo combate ostensivo à “burocratomania” e se conclui na adaptação dos funcionários às novas ferramentas de trabalho, fazendo com que elas agilizem suas atividades diárias.
