sábado, 14 de fevereiro de 2009

Deus e Darwin, cento e cinquenta anos depois

No último dia 12 de fevereiro comemorou-se o bicentenário do nascimento de Charles Darwin, o naturalista inglês que, aos vinte e dois anos de idade, embarcou em um pequeno navio de exploração científica chamado Beagle, no qual, durante cinco anos, viajou por quatro continentes. Na viagem, ele recolheu milhares de amostras de espécies de animais e escreveu um diário de 770 páginas. Essa viagem de Darwini deu origem, depois, à mais famosa e barulhenta revolução no mundo científico: a publicação, em 1859, de seu polêmico livro A Origem das Espécies, em que ele apresenta sua teoria da evolução pela seleção natural, segundo a qual animais e plantas evoluem e se modificam aos longo das eras, ou seja, estão em constante processo de mutação, adaptando-se ao meio em que vivem, de acordo com suas necessidades naturais. Prega ainda a teoria de Darwin que cada grupo de seres vivos descende de um ancestral comum, assim como todos esses grupos juntos, incluindo animais e plantas, descendem, por sua vez, de uma única forma de vida na Terra, que seria um micro-organismo, uma ameba, uma bactéria unicelular que teria dado origem à toda vida na Terra, a célula mater de toda a vida em nosso planeta, isto é, o primeiro organismo vivo que surgiu na face da Terra.

Conforme descrito em matéria publicada na revista VEJA, de 11/02/2009, de autoria de Gabriela Carreli, matéria, aliás, que me despertou a escrever este texto, o grande laboratório do evolucionismo foram as Ilhas Galápagos, no Oceano Pacífico. Foi lá que Darwin percebeu que muitas das espécies que habitavam aquelas ilhas eram semelhantes às que existiam no continente, mas elas apresentavam pequenas diferenças de uma ilha para outra. Os que chamaram mais a atenção de Darwin foram os tentilhões. Esses pássaros apresentavam um formado de bico diferente em cada ilha, dependendo do tipo de alimentação disponível. A única explicação possível para isso é que, depois que as primeiras espécies chegaram às ilhas, vindas do continente, passaram a desenvolver características diferentes, de acordo com as condições do ambiente de cada ilha. Seria a prova da evolução. Mais recentemente, um grupo de biólogos, ao estudarem os mesmos tentilhões das Ilhas Galápagos, puderam observar o evolução ocorrendo em tempo real, pois os pássaros evoluíam de um ano para o outro, de acordo com as mudanças nas condições climáticas das ilhas.

A grande verdade é que, sem as teorias de Charles Darwin, complementadas pelos valiosíssimos estudos do monge Gregor Mendel, a biologia contemporânea não seria nem sombra do que é atualmente. Por isso, o resultado das pesquisas de Darwin é, hoje, amplamente aceito pela ciência, pois foi um importante ponto de partida para alcançarmos um elevado grau de avanço na medicina e na genética modernas. Portanto, a teoria da evolução das espécies é um dos principais pilares da ciência contemporânea, não restando qualquer dúvida sobre sua validade. Sua confirmação definitiva ocorreu quando os cientistas James Watson e Francis Crick descobriram, em 1953, a estrutura do DNA.

Se assim é, se as teorias de Darwin estão plenamente consagradas no mundo científico, por que ainda há gente que as rejeita? Por que há quem não aceite suas teorias?

Talvez a principal razão dessa rejeição seja por pura ignorância sobre o assunto. Existe uma lenda, provavelmente difundida por “criacionistas” desinformados ou, talvez, até mal intencionados, de que Darwin teria afirmado que nós, seres humanos, somos descendentes dos macacos, o que é totalmente inverídico. Darwin nunca disse tamanha asneira. Existe nessa lenda a mesma desinformação ou, talvez, até má fé, que há nas afirmações de certos segmentos religiosos ultraconservadores norte-americanos, que dizem que o darwanismo é apenas uma teoria, repleta de lacunas e carente de provas conclusivas. Só que, no meio científico, o termo
teoria não tem o significado de simples hipótese ou especulação. A palavra teoria, nesse caso, significa um conjunto de princípios fundamentais de uma determinada área científica, testados e comprovados por experimentação, leis e fatos científicos. Em suma, o evolucionismo não é uma simples especulação. É conhecimento científico comprovado.

Na matéria jornalística da qual falei acima, publicada na revista VEJA, deparei com algumas observações interessantes que talvez nos deem uma luz sobre essa questão. Em 1920, por exemplo, ao escrever sobre o impacto das teorias de Darwin, Sigmund Freud, o pai da psicanálise, disse que, ao longo do tempo, a humanidade teve de suportar dois grandes golpes em sua autoestima. O primeiro foi constatar que a Terra não é o centro do universo. O segundo ocorreu quando a biologia desmentiu a natureza especial do homem e o relegou à mera posição de descendente do mundo animal. Outra observação interessante, embora bastante materialista, é de Stephen Jay Gould, falecido em 2002, que dizia que as teorias de Darwin são tão mal compreendidas não porque sejam complexas, mas porque muita gente evita compreendê-las. Segundo ele, concordar com Darwin significa aceitas que a existência de todos os seres vivos é regida pelo acaso e que não há nenhum propósito elevado no caminho do homem na Terra. Já David Sloan Wilson, biólogo da Universidade de Binghamtom, afirma que as grandes ideias e teorias são aceitas ou rejeitadas popularmente por suas consequências, não pelo seu valor intrínseco. Infelizmente, segundo ele, a evolução é percebida por muitos como uma arma projetada para destruir a religião, a moral e o potencial dos seres humanos.

Concordo plenamente com o que disseram Sigmund Freud e David Sloan Wilson. Mas rejeito a segunda parte do parecer de Stephen Jay Gould, ou seja, de que concordar com Darwin significaria aceitar a ideia de que a existência de todos os seres vivos é regida pelo acaso e que não há nenhum propósito elevado no caminho do homem na Terra. Mas, quando ele diz que as teorias darwinistas são mal compreendidas porque muita gente evita compreendê-las, está absolutamente certo.

A meu ver, as teorias de Darwin não ameaçam a religião, a crença em Deus, a fé e nem tentam desmoralizar o primeiro livro da Bíblia. Os textos do Gênesis, cujo provável autor teria sido Moisés, foram dirigidos inicialmente aos antigos hebreus, um povo primitivo, que, como o resto da humanidade naquela época, ainda não conhecia os princípios básicos da física, da química, da biologia, da geologia, princípios esses que só começaram a ser descobertos pelo homem muitos séculos depois. Sendo assim, o autor do Gênesis, mesmo sob inspiração divina, como rezam as tradições religiosas judaico-islâmico-cristãs, teria de usar uma foram de comunicação que fosse entendida por aquele povo, sem a obrigação do rigor científico e histórico. Para isso, usou toda uma linguagem figurada, na qual céu e terra significariam o próprio universo, dias podem significar anos, séculos, milhões de anos ou até eras, a história de Adão e Eva representaria o despertar do homem de seu estado de selvagem ingênuo ao de ser racional, ciente de sua inteligência, pronto para atos de virtude ou para o pecado. Dirão alguns “criacionistas” que eles acreditam literalmente na versão literal do Gênesis “pela fé”, como costumam dizer. Ora, não podemos confundir fé com ingenuidade. Interpretar o livro dos Gênesis ao pé da letra é, a meu ver, subestimar o próprio autor, ou autores, dos textos e, sobretudo, para os que têm fé, subestimar o próprio Deus.

Para interpretarmos não só o livro do Gênesis, mas toda a Bíblia, não precisamos somente de fé, mas de conhecimentos. Ao interpretamos um texto qualquer, temos de saber contextualizá-lo, ou seja, temos de procurar saber quando, onde, por quem e em que circunstâncias esse texto foi escrito e com que propósitos. Os textos bíblicos, em especial, os do Velho Testamento, foram escritos por um povo muito antigo, de cultura, línguas e costumes totalmente diferentes dos nossos. Além disso, foram escritos e reescritos originariamente em línguas também antigas, a maioria delas hoje em desuso, e muito difíceis de serem vertidas para as língua contemporâneas, pois geralmente essas idiomas antigos trazem palavras e expressões muitas vezes intraduzíveis para as línguas de hoje, o que faz com que os tradutores tenham de reescrever ao seu modo frases inteiras de forma a torná-las o mais semelhantes possível do contexto da frase no idioma original. Tudo isso tem de ser levado em conta ao interpretarmos os textos bíblicos. E, além de tudo isso, por se tratar de livros religiosos, há, ainda, a interpretação pela fé, que é a mais complicada e, ao mesmo tempo, a mais perigosa. Os textos bíblicos, devido a seu hermetismo, possibilitam muitas interpretações diferentes e até conflitantes entre si. O resultado disso é o constante processo de fragmentação do judaísmo e, principalmente, do cristianismo, dividindo-se em muitos segmentos. Essas divisões são comuns também em outras religiões, como, por exemplo, no Islamismo. No cristianismo, principalmente na América Latina, essa fragmentação tem assumido proporções particularmente preocupantes, pois isso também abre espaço para que espertalhões, religiosos com más intenções ou até falsos religiosos façam uso dos textos bíblicos, interpretados à sua maneira, para manipular pessoas e até comunidades inteira e, assim, obter benefícios para si. Por essa razão, além de saber interpretar os textos bíblicos, os fiéis têm, também, que saber discernis os verdadeiros religiosos de possíveis picaretas de plantão.

Para concluir, sobre a teoria da evolução das espécies, acho que temos de saber separar a fé da razão, pois é bem provável que Deus e Darwin sejam "parceiros" nessa história toda. Darwin pode ter descoberto a evolução das espécies, mas, com certeza, foi Deus quem a criou.

Um comentário:

  1. Meu caro amigo "my friend". Adorei o texto, não só pela clareza das palavras (que lhe é peculiar) mas pelo conteúdo sério e aprofundado que nele contém. Pude aprender também as novas mudanças já inseridas por todo o texto. Parabéns, meu amigo. A internet precisa mais de coisas sérias como as que você trata aqui neste blog.
    Abraço com braços longos.
    Wyll

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