terça-feira, 14 de junho de 2011

Querem “censurar” a História

Siga no Twitter:
@GilmarGrespan – EM TEMPO REAL

Um dos patrimônios mais valiosos de um país é sua própria história. Para que ela seja contada e recontada com precisão e clareza, toda informação tem de ser disponibilizada, de forma transparente. Independente da circunstâncias em que os fatos históricos ocorreram, nada pode ser omitido, escondido. A história de um país tem de ser pautada na verdade e na isenção.

Tramita no Senado um projeto de lei complementar que regulamenta o acesso a informações de interesse coletivo produzidas ou custodiadas pelo Estado. Estranhamente, duas figuras conhecidas da política nacional, os senadores José Sarney (PMDB-AP) e Fernando Collor de Melo (PTB-AL) pediram à presidente Dilma Rousseff que alguns tipos de documentos sejam mantidos sob “sigilo eterno”. Questionado, José Sarney citou como exemplo os documentos relativos a fronteiras negociadas pelo Barão de Rio Branco, no final do século XI e início do século XX. Segundo ele, a revelação de tais documentos podem “abrir feridas” antigas. O curioso é que Sarney defende a abertura de arquivos da história recente.

Como podem documentos relativos a fatos ocorridos há mais de cem anos abrir feridas antigas? O argumento de Sarney é tão absurdo, que causa estranheza.

Quem acompanhou a campanha eleitoral de Fernando Collor à Presidência da República, em 1989, se lembra de como o atual senador por Alagoas fazia pesadas críticas ao então presidente da República José Sarney. Eu me recordo que, quando foi lançada a candidatura à Presidência do empresário e apresentador de TV Sílvio Santos, que depois foi anulada pela Justiça Eleitoral, Collor, em pronunciamento na TV, acusou Sarney de ser o principal artífice daquela candidatura, afirmando que o então presidente estava transformando a disputa numa brincadeira de programa de auditório. Além disso, acusou Sarney de ter “pegado uma carona na História”, referindo-se ao fato de ter o então presidente ter assumido o cargo em decorrência do falecimento de Tancredo Neves, em 1985.

O fato é que Sarney e Collor, agora belos parceiros e amiguinhos, estão se esforçando atrapalhar a aprovação do projeto. É possível que tenham êxito em seus propósitos. A nova coordenadora política do governo, a ex-senadora Ideli Salvatti, já deu sinais de que poderá facilitar as coisas para que a pretendida alteração seja feito no projeto, obtendo em troca a defesa de vários temas de interesse do governo que estão tramitando no Congresso.

Seria um absurdo manter documentos oficiais de interesse histórico permanentemente trancafiados, eternamente sob sigilo. Trata-se de uma atitude que tira do povo brasileiro o direito básico de conhecer a própria história. Esses documentos devem ser ter, no tempo certo, seus conteúdos revelados, independentemente das “feridas” que possam abrir, para que a história seja contada, recontada e, sempre que for o caso, revisada, a fim de se evitar injustiças; A verdade tem que ser revelada, mesmo que seja dolorosa, mesmo que venha a mudar a reputação de algum personagem histórico. Pior que “abrir feridas” é cultuar falsos heróis, é execrar falsos vilões, é preservar a mentira e desprezar a verdade.

Se isso realmente se efetivar, esse será mais um desserviço que esses dois cidadãos prestarão ao Brasil.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O triunfo do mal sobre o bem

A revista VEJA, em sua edição de 12 de janeiro de 2011, nas páginas 68 e 69, narra quatro histórias reais e muito tristes.

HISTÓRIA 1

Eram 8h30min da manhã de 06 de junho de 1978, em Udine, no norte da Itália, quando o agente carcerário Antonio Santoro, de 51 anos, deixou sua casa com destino ao presídio onde trabalhava, que ficava a apenas 200 metros de sua casa. Como estava apressado por estar atrasado, Antonio não reparou no casal de namorados na calçada. Mal ele havia dado dez passos, quando o rapaz largou a moça e lhe disparou dois tiros pelas costas. Um dos três filhos de Antonio, Alessandro, de dez anos na época, atraído pelo barulho, chegou a tempo de ver o casal entrar em um carro e partir em disparada, enquanto seu pai agonizava na calçada. Alessandro lembra-se até hoje do rosto do assassino e não tem dúvida de que era Cesare Battisti.

HISTÓRIA 2

O policial Adrea Campagna tinha apenas vinte e cinco anos quando, ao sair da casa da namorada, em Milão, foi executado com cinco tiros. O assassino foi reconhecido por uma testemunha: Cesare Battisti. Campagna teria sido morto por vingança, conforme afirmou seu irmão, Maurizio. Campagna havia sido visto algumas semanas antes, na TV, prendendo terroristas.

HISTÓRIA 3

Lino Sabbadin era um açougueiro, de 45 anos, de Santa Maria di Sala, próximo a Veneza. Ao reagir a um assalto, matou um dos assaltantes, que percentia à mesma organização terrorista a qual pertencia Cesare Battisti. A vingança não tardou. Alguns meses depois, o próprio Cesare Battisti e um parceiro, Diego Giacomini, invadiram o açougue de Lino e atiraram duas vezes em seu peito. Quando o açougueiro caiu no chão, deram-lhe mais dois tiros. A mulher de Lino, que estava ao seu lado no hora, começou a gritar desesperada. Quando Adriano, filho do casal, chegou para acudir a mãe, a encontrou-a ajoelhada com seu pai nos braços, em meio a uma poça de sangue.

HISTÓRIA 4

O pai de Alberto Torregiani, o joalheiro Pierluigi Torregiani, foi morto em 1979, em Milão, por haver reagido a uma “desapropriação”, eufemismo que os terroristas que se diziam “comunistas” usavam naquela época para se referir a “assalto à mão armada”. Alberto, que na época tinha 15 anos, estava junto com seu pai quando os terroristas invadiram a joalheria. Como já vinha recebendo ameaças anônimas havia semanas, o joalheiro andava sempre armado. Na troca de tiros com os criminosos, uma bala disparada pelo próprio Pierluigi atingiu a coluna de seu filho adolescente, que ficou paralítico. O comerciante foi executado com um tiro na cabeça.

Cesare Battisti foi acusado de haver praticado pessoalmente os três primeiros crimes acima narrados. Ele nega. Do quarto assassinato, o joalheiro de Milão, ele é acusado de ser o mandante. Ele também nega.

Cesare Batisti nasceu no dia 18 de dezembro de 1954, no vilarejo de Sermoneta, que fica província de Latina. Pouco se sabe sobre sua vida. Ele seria filho e neto de comunistas. Sua mãe, no entanto, seria católica fervorosa. Conta-se que havia na sala da casa onde Battisti, ainda criança, morava com sua família um retrato do ditador comunista russo Stalin, que Cesare, então, pensava ser um santo católico.

Pelo que se sabe, Battisti não foi muito longe nos estudos, não chegando a concluir sequer o ensino médio, que abandonou aos dezesseis anos. Aos dezessete anos, foi preso pela primeira vez, por furto. Aos vinte, foi preso novamente, por assalto à mão armada. Preso pela terceira vez, aos 22 aos, conheceu na cadeia Arrigo Cavalina, que era membro de um grupelho chamado Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), ao qual Battisti se juntou.

Na década de 70, surgiram na Europa várias organizações terroristas, tanto de esquerda quanto de direita. Só na Itália mais de seiscentos grupos desse tipo, das mais variadas matizes político-ideológicas, entre as quais as Brigadas Vermelhas, grupo de orientação marxista, que tinha uma estrutura quase militar. Foi esse grupo, inclusive, que sequestrou e matou, em 1978, o então primeiro-ministro Aldo Moro.

A organização à qual pertencia Cesare Battisti, no entanto, os PAC, Proletários Armados pelo Comunismo, era um grupo pequeno, com cerca de sessenta componentes, sem uma hierarquia definida, que cometia assaltos à mão armada mais para garantir o sustento de seus militantes do que para promover a “expropriação” do capitalismo.

Além de negar os crimes pelos quais foi condenado à prisão perpétua na Itália, Cesare Battisti afirma que abandonou a “luta armada” quando o primeiro-ministro Aldo Mouro foi sequestrado e assassinado pelo grupo Brigadas Vermelhas. Battisti alega que as organizações de esquerda se sentiram acuadas por causa da violenta repressão do governo italiano após a morte de Moro. Independentemente disso, Cesare Battisti acabou sendo preso em 1979. Mas, em 1981, fugiu da prisão, ajudado por Pietro Mutti, que, mais tarde, se declarou “arrependido” e imputou a Battisti participação central nos crimes cometidos pelos PAC. A dúvida aí é se Mutti teria dito a verdade ao acusar seu ex-companheiro ou disse isso apenas para se beneficiar da “delação premiada”, que é um benefício legal concedido a criminosos que aceitem colaborar na investigação ou a denunciar seus companheiros. Esse tipo de dispositivo legal foi criado na Itália, justamente durante o combate ao terrorismo e a grupos mafiosos. Depois, ele foi adotado em muitos países, inclusive no Brasil.

Foragido, Battisti foi para a França, tendo vivido por um ano clandestinamente em Paris, onde conheceu sua futura esposa. Da França, foi para o México, instalando-se na cidade de Puerto Escondido (o nome, no caso da situação de Battisti, é sugestivo), onde nasceu sua primeira filha. No México, Battisti virou intelectual. Escreveu seu primeiro livro e teve uma intensa vida cultural. Chegou a fundar até uma revista.

Acreditando numa proposta do governo do então presidente francês François Mitterrand de que pessoas envolvidas em atividades terroristas na Itália até 1981 e que tivessem abandonado a violência poderiam optar pela não extradição para a Itália, caso não praticassem mais crimes, Battisti retornou para a França em 1990, mas acaba sendo preso, um ano depois, em razão de um pedido de extradição da justiça italiana. Permaneceu na prisão de Fresnes por quatro meses, antes de ter sua extradição negada, em abril de 1991, pela Câmara de Acusação de Paris, que o declara, por duas vezes, não extraditável. Em razão disso, foi liberado e viveu em Paris com a esposa e duas filhas, trabalhando como escritor e tradutor.

Em 2004, a situação política muda e a França concorda em extraditar Cesare Battisti paa a Itália. Como Battiste já era uma pessoa conhecida na França, em razão de sua investida no mundo literário, houve reações a essa atitude do governo francês. Na iminência de ser extraditado, Cesare Battisti foge para o Brasil. Há quem afirme que, para essa fuga, Battisti contou até com a ajuda de membros do serviço secreto francês, que lhe teriam sugerido o Brasil como destino, além de lhe fornecerem um passaporte italiano, com sua foto e dados pessoais

Para encurtar a história, Cesare Battisti veio para o Brasil, acabou sendo preso, por portar um passaporte falso, e se transformou nessa enorme dor de cabeça para o governo brasileiro.

Pela biografia de Cesare Battisti, não se pode negar que ele não pode ser considerado nenhum anjo. Apesar de posar de intelectual, de escritor, sua vida escolar foi curta. Aos dezesseis anos, abandonou os estudos. Aos dezessete, foi preso por furto. Dois anos depois, voltou a ser preso, dessa vez por assalto à mão armada, Tudo isso aconteceu antes de ele ingressar na tal organização “Proletários Armados pelo Comunismo”, que, na verdade, não passava de um grupelho de desocupados, que pendia mais para o puro banditismo do que para a luta armada político-ideológica. Em suma, Cesare Battisti, independentemente de haver cometido os crimes pelos quais foi condenado à prisão perpétua pela justiça italiana, nunca foi nenhum exemplo de conduta irrepreensível.

Não se pode querer comparar as organizações guerrilheiras, de esquerda ou direita, que atuaram, no Brasil, no auge da ditadura militar, com os grupelhos armados que surgiram na Europa, especialmente na Itália e na Alemanha Ocidental, em meados dos anos 70. O Brasil estava sob o controle de uma ditadura militar impiedosa e truculenta. Não havia democracia e, por conseguinte, nem liberdade de expressão. Esse clima todo favoreceu o surgimento de inúmeras organizações armandas dispostas e lutar contra a ditadura militar.

No entanto, a Itália, nos anos 70, vivia uma outra realidade. Era uma democracia plena, como é até hoje, com um parlamento composto por representares dos principais segmentos da população italiana. O surgimento, ali, de inúmeros grupelhos que se diziam “revolucionários”, tentando seduzir as classes trabalhadoras, era mais uma espécie de “modismo” da época do que o resultado de um descontentamento político-ideológica do povo. O grupo mais organizado, atuante e violento eram as “Brigadas Vermelhas”, que, em 1978, chegaram a sequestrar e, depois, a matar o primeiro-ministro italiano Algo Moro. Isso fez com que o governo daquele país iniciasse uma verdadeira guerra aos grupos de terroristas. A repressão foi tão forte, tão intensa, que em pouco tempo a grande maioria das organizações terroristas italianas desapareceram. Muita gente foi presa, julgada e condenada.

No dia 31 de dezembro de 2010, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em seu último dia de mandato, negou o pedido de extradição de Cesare Battisti, baseado em um parecer da Procuradoria Geral da União, a mesma instituição que se negou a investigar o rápido crescimento patrimonial do ex-ministro-chefe da Casa Civil Antonio Palocci. Essa atitude, ratificada, recentemente, pelo Supremo Tribunal Federal, que determinou sua libertação, foi um desrespeito à Itália, um país amigo, uma democracia. Se extraditado, Cesare Battisti não seria perseguido, e sim devidamente punido pelos crimes pelos quais foi condenado pela Justiça italiana.

Será que, se Cesare Battisti fosse um dissidente da ditadura cubana, da Venezuela, a atitude de Lula seria a mesma? Duvido.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A ideologização da língua portuguesa

Um livro didático, distribuído pelo Ministério da Educação para 4.236 escolas e destinado a alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), está sendo o pivô de uma enorme polêmica. Trata-se da obra didática Por Uma Vida Melhor, que faz parte da coleção Viver, Aprender, pertencente a uma ONG chamada Ação Educativa. Os autores são os professores de língua portuguesa Heloísa Ramos, Cláudio Bazzoni e Mirella Cleto. O trecho polêmico do livro começa na página 14, no título A concordância entre as palavras, em que os autores tratam de concordância nominal e verbal.

Inicialmente, eles explicam como funciona a concordância na norma culta da língua, usando como exemplo a frase Alguns insetos provocam doenças, às vezes, à população ribeirinha. Em seguida, a obra apresenta a seguinte frase:

Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado.

Nesse ponto, os autores perguntam ao leitor se o autor da frase acima está se referindo a um livro apenas ou a mais de um livro, explicando, em seguida, que o fato de haver a palavra os (plural) indica que o autor da frase está se referindo a mais de um livro, pois, no padrão popular, basta que esse primeiro termo (os) esteja no plural para indicar mais de um referente.

Logo abaixo, os autores apresentam a mesma frase já no padrão da norma culta da língua.

Os livros ilustrados mais interessantes estão emprestados.

Aí é que vem o cerne da polêmica. Veja o que diz o texto do livro:

“Você deve estar se perguntando: 'Mas eu posso falar os livro?' Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião.”

Como exemplo, ainda, de variante popular da língua, os autores apresentam as frases:

Nós pega a peixe
Os menino pega o peixe

Mais uma vez, os autores esclarecem que, apesar de os verbos das frases acima estarem no singular, o ouvinte das frases sabe que há mais de uma pessoa envolvida na ação de pegar o peixe, recomendando que é importante que o falante de português domine as duas variedades da língua e escolha a que achar adequada à sua situação de fala.

É isso, em síntese, que está no tão comentando livro didático.

A mídia deu enorme destaque ao assunto. Clóvis Rossi, do jornal FOLHA DE S. PAULO, teria acusado o livro de criminoso. Na edição da revista ISTO É que está indo às bancas e aos assinantes neste final de semana, fala-se em “assassinato” da língua portuguesa. A revista VEJA também traz matéria sobre o assunto em sua última edição, intitulada “OS ADVERSÁRIOS DO BOM PORTUGUÊS”. Analisemos, então, o caso.

O professor Evanildo Bechara, em sua MODERNA GRAMÁTICA PORTUGUESA (33.ª edição, Editora Nacional, São Paulo, 1989), afirma, na página 23, que a língua é um fenômeno cultural, que ela não existe em si mesma. Segundo Bechara, fora do homem, a língua é uma abstração, e no homem é o resultado de um patrimônio cultural que a sociedade a que pertente lhe transmite.

José de Nicola e Ulisses Infante, em sua GRAMÁTICA CONTEMPORÂNEA DA LÍNGUA PORTUGUESA (14.ª edição, Editora Scipione, São Paulo, 1995), ao abordarem os níveis de linguagem, afirmam que a língua popular é aquela usada diariamente pelo povo, desprovida de qualquer preocupação com a “correção” gramatical. Para os autores, a finalidade da língua popular é eminentemente prática: comunicar informações e exprimir opiniões e sentimentos de forma eficaz.

Roberto Melo Mesquita, em sua GRAMÁTICA DA LÍNGUA PORTUGUESA (15.ª edição, Editora Saraiva, São Paulo, 1996), vai mais além e divide a linguagem em níveis médio, familiar, relaxado, elevado e técnico. Além disso, nas variações linguísticas, ele destaca a modalidade do falar popular, que é aquela encontrada em algumas camadas da população sem instrução formal, destacando que há, nessa modalidade, grandes desvios das normais gramaticais, como a ausência de pluralização e supressão de fonemas.

O professor Luiz Antonio Sacconi, um dos mais renomados gramáticos brasileiros, autor de dezenas de livros sobre língua portuguesa, esclarece bem a questão em sua NOSSA GRAMÁTICA COMPLETA SACCONI – TEORIA E PRÁTICA (29.ª edição, Editora Nova Geração, São Paulo, 2008).

“Em rigor, ninguém comete erro em língua, exceto nos casos de ortografia. O que normalmente se comete em língua são transgressões da normal culta. De fato, aquele que, num momento íntimo do discurso, diz: Ninguém deixou ele falar, não comete propriamente erro; na verdade, transgride a norma culta.”

E Sacconi exemplifica melhor:

“Um repórter, ao cometer uma transgressão em sua fala, transgride tanto quanto um indivíduo que comparece a um banquete trajando shorts ou quanto um banhista, numa praia, vestido de fraque e cartola.”

Em suas considerações sobre o assunto, Sacconi divide o momento do discurso em íntimo, neutro e solene.

O momento íntimo é o das liberdades da fala, da informalidade, da prevalência da língua popular sobre a língua culta, ou seja, no recesso do lar, entre amigos, parentes, namorados, etc.

O momento neutro é definido por Sacconi como o do uso da língua culta, da língua padrão, que ele defini como “língua da Nação”. Como forma de respeito ao ouvinte, tomam-se por base, nesse caso, as normas estabelecidas na gramática, ou seja, a norma culta da língua. É a linguagem usada pelos meios de comunicação de massa (televisão, rádios, jornais, revistas, portais de Internet, etc.).

O momento solene, acessível a poucos, seria o da arte poética, caracterizado por construções de rara beleza.

Sacconi ainda lembra que a língua é um costume. Como tal, qualquer transgressão, ou chamado erro, deixa de sê-lo no exato instante em que a maioria absoluta das pessoas o comete, passando, assim, a constituir um fato linguístico, ou seja o registro de linguagem definitivamente consagrada pelo uso, ainda que não tenha amparo gramatical. Nesse caso, ele aponta como exemplo de transgressões que se tornaram fatos linguístico as formas verbais impeço e despeço, de impedir e despedir, respectivamente. Sacconi afirma que o povo viu tais verbos derivados de pedir, que tem início, na sua conjugação, com peço. Isso bastou para que se tornassem arcaicas as formas, legítimas gramaticalmente, impido e despido, que hoje nenhuma pessoa pessoa escolaricada teria coragem de usar, conforme observação do próprio professor Sacconi.

Dito tudo isso, voltemos, então, ao caso do livro Por Uma Vida Melhor, dos professores Heloísa Ramos, Cláudio Bazzoni e Mirella Cleto, que tem causado tanta polêmica. Afinal de contas qual o grande pecado desse livro?

Como podemos ver nas citações acima, a diferença entre língua culta e sua variante popular não é nenhuma novidade. O assunto é apresentado com clareza nas principais gramáticas normativas, conforme demonstrado acima. Ocorre, no entanto, que gramáticas normativas são obras de referência dirigidas a um amplo universo de usuários e estudiosos de nosso idioma, em especial, estudantes do ensino médio e acadêmicos de Letras, Jornalismo, Direito, etc. Trata-se de segmentos que já têm um conhecimento básico e até, muitas vezes, avançado de língua portuguesa. São pessoas que já têm um domínio razoável da língua padrão.

Diferentemente das gramáticas normativas, o livro didático Por Uma Vida Melhor, no entanto, tem uma clientela específica. Ele é dirigido a jovens e adultos, que, pelo menos em tese, têm um conhecimento rudimentar da modalidade padrão da língua portuguesa. São pessoas que começaram a receber instrução formal tardiamente ou tiveram sua vida escolar interrompida durante algum período e voltaram a estudar depois. Estão incluídas nesse universo pessoas que querem ascender profissional e socialmente, encontrar uma colocação melhor no mercado de trabalho, prestar concursos públicos, vestibulares, etc. Entendo, por isso, que inserir esse tipo consideração sobre a linguagem culta e popular num livro didático destinado a um público ainda tão carente de informação me parece uma atitude infeliz e desastrosa, já que o livro não é nenhum tratado teórico sobre língua portuguesa ou coisa do tipo, mas sim um simples compêndio para auxiliar o estudante a dominar melhor a língua portuguesa padrão, a fim de que possa progredir pessoal e profissionalmente. Só isso.

O livro, que – repita-se - é destinado a jovens e adultos, e não a crianças, como a maior parte da mídia erroneamente tem divulgado, não defende o não ensino da língua padrão nas escolas, como também tem sido divulgado de forma equivocada. No entanto, ao dizer que o aluno pode, sim, falar “os livro”, tomando o cuidado para não se tornar vítima de “preconceito linguístico”, pois “muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formar linguísticas”, a obra expõe claramente seu viés ideológico, algo que não deveria ocorrer num livro didático distribuído pelo governo de um país democrático, pago pelo contribuinte.

Por mais absurdo que pareça, nos últimos anos tem se disseminado pelo País alguns segmentos do mundo acadêmico que defendem a tese de que a língua culta é um instrumento de domínio das elites, uma ideia tão descabida quanto as famosas, lunáticas e surradas teorias de conspiração, que de vez em quando se espalham pela Internet. Aliás, um movimento delirante como esse só poderia surgir mesmo no decadente mundo acadêmico brasileiro, que pode ser definido como um enorme oceano, no qual há algumas poucas ilhas de excelência rodeadas por um mar de mediocridade. Não é à-toa que nenhuma universidade brasileira conseguiu se classificar entre as duzentas melhores do mundo em dois rankings internacionais divulgados no ano passado. Mesmo assim, recentemente foi divulgado, também, que o Brasil está em décimo terceiro lugar na produção de textos acadêmicos. Isso me faz pensar em quanta bobagem tem sido escrita por alguns de nossos mestres e doutores.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

E vai rolar a “festa” nos Correios

A partir de hoje, dia 29 de abril de 2011, os Correios estão autorizados a montar uma empresa de telefonia celular, a ter uma frota de aviões própria para o transporte de carga e até a investir na construção do trem-bala. Além disso, poderá, ainda, criar seu próprio banco e se associar a outras empresas financeiras, de serviço de logística e postal eletrônico. A permissão consta em MP (Medida Provisória) assinada ontem pela presidente Dilma Rousseff, que reforma o estatuto dos Correios, que é de 1979.

Pois é! Os Correios, que já faziam a festa dos políticos, como ficou bem demonstrado durante o escândalo do Mensalão, agora vai ficar mais atraente ainda. Vai ser uma mercadoria de troca excelente para o governo. Os políticos trambiqueiros e os “companheiros” vão fazer a festa nos novos Correios.

Afinal de contas, estatal serve mesmo para isso. Vão ser mais cargos para serem loteados para os políticos que apoiam o governo e mais empregos para os “companheiros” se encostarem.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Impstos justos: preços justos

Eu sempre disse, e repito, que não há no Brasil instituição mais desonesta que o próprio Estado. Não estou falando em governo, em presidente, em Congresso, etc. Estou falando na instituição – o Estado brasileiro. E isso é coisa que vem de décadas e décadas. Não é de hoje. Ele é desonesto porque cobra impostos de países de primeiro mundo e devolve ao cidadão serviços de quinto mundo. Basta ver o caos em que se encontram a saúde pública, os transportes, a educação, etc. Basta acompanhar, também, pela imprensa, as frequentes denúncias de corrupção. O Estado brasileiro age como um comerciante desonesto, que cobra por um serviço ou bem que ele não fornece ao consumidor. É por isso que eu digo que, no Brasil, o cidadão e as empresas não são tributados, e sim roubados.

O vídeo abaixo, feito pelo vlogueiro carioca Felipe Neto, diz tudo. Embora ele exagere bastante nos palavrões, nos xingamentos, o que ele diz está totalmente de acordo com a realidade atual.

O governo faz uma campanha hipócrita contra a pirataria. Aí, ele põe a Polícia Federal e fiscais na rua para combater esse tipo de prática criminosa. No entanto, a pirataria continua forte, dando prejuízos às empresas fabricantes dos produtos originais e ao mercado fonográfico, que é um dos mais prejudicados.

A única forma de vencer a pirataria é acabar com os impostos desonestos que são cobrados neste país. O Estado brasileiro tem todo o direito e, na verdade, a obrigação, de cobrar impostos, de sobretaxar mercadorias, importadas e nacionais, comercializados aqui. Afinal de contas, o precisa sobreviver, precisa arcar com seus compromissos. Mas que cobre impsotos justos, de acordo com a realidade do País. Aí, obviamente, todo o mundo vai comprar mercadorias originais. É simples assim.

No entanto, o ele, o Estado, é ganancioso. Quer mais e mais impsotos. Não é à toa que o Brasil é um dos países mais tributados do mundo.

Nós, brasileiros, não nos negamos a pagar impostos. Afinal, o País precisar caminhar, as instituições, os serviços públicos e a máquina do governo precisam funcionar. Mas que se cobrem impostos justos. Só assim, vamos ter preços justos.

Veja, agora, o vídeo de Felipe Neto. Como eu disse, ele exagera nos palavrões, nos xingamentos. É o estilo dele. Mas, infelizmente, não deixa de ser um desabafo.

Mais nada a comentar.

domingo, 24 de abril de 2011

Voltando a escrever neste blog

Alguns dias atrás, fui cobrado por um amigo por não atualizar mais frequentemente este blog. Mas ultimamente ando meio sem inspiração para escrever, embora assunto não tenha faltado. Felizmente, a Internet nos permite expor nossa opinião publicamente, embora poucos, muito poucos mesmo, leem o que a maioria dos blogueiros escrevem. Mas, independentemente disso, deixamos aqui nossa opinião, nosso pensamento e também informações que julgamos importantes. Se alguém quiser ler, estão aqui no blog, à disposição do mundo.

Pediu-me ainda meu amigo que eu escrevesse mais sobre assuntos locais. Ora, se eu estou mais a par do que acontece pelo Brasil e até pelo mundo do que aqui em Pereira Barreto. Graças aos modernos meios de comunicação e informação, sei mais a rotina da presidente Dilma Rousseff, que trabalha em Brasília, a centenas de quilômetros daqui, do que faz o prefeito Arnaldo Enomoto, que trabalha a pouco menos de duzentos metros de onde eu trabalho. Afinal de contas, em Pereira Barreto, uma cidade pequena, a fonte de informação mais confiável é o boca a boca. Quando busco notícias no site do principal jornal da cidade, só encontro informações totalmente desinteressantes para mim. Além disso, falar sobre assuntos locais é uma coisa meio delicada. Numa cidade pequena como a nossa, devido à proximidade entre as pessoas, as suscetibilidades estão sempre à flor da pele. É preciso ter cuidado com que se escreve e estar muito bem embasado nas informações divulgadas. Por isso mesmo, procuro sempre escrever sobre fatos e situações que são de meu inteiro conhecimento.

Mas vou procurar estar aqui neste blog com mais frequência, expondo minha moderta opinião ou divulgando informações que julgue importantes.

domingo, 20 de março de 2011

Imprensa dos EUA dá pouquíssimo destaque à visita de Obama ao Brasil

NYT

Hoje de manhã, tive a ideia de visitar alguns sites de jornais norte-americanos. O primeiro visitado, obviamento, foi o do New York Times. Constatei, então, uma coisa da qual já desconfiava: o pouquíssimo destaque da imprensa dos Estados Unidos à visita de seu presidente, Barak Obama, ao Brasil. Fora algumas pequenas notas, não havia nos principais sites de notícia dos Estados Unidos nenhum destaque sobre a visita de Obama ao Brasil. Na tarde de sábado, dia 19/03, Obama chegou a dar uma entrevista, em Brasí9lia, a jornalistas norte-americanos, mas o assunto era a ofensiva dos Estados Unidos e de países aliados contra a ditadura líbia. Nada sobre o Brasil.

Eu, sinceramente, pensava que os norte-americanos, ao longo dos últimos anos, tivessem deixado de lado sua conhecida arrogância e total desprezo com relação a outros países que não fosse o deles mesmo. No entanto, a imprensa estadunidense continua bastante indiferente a países fora do eixo primeiro-mundista, mesmo sendo, hoje, o Brasil um país emergente, que, diferentemente dos Estados Unidos, que está com sua economia praticamente estagnada, vem apresentando índices de desenvolvimento consideráveis, como também tem ocorrido com seus pares do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China).

A mídia brasileira, no entanto, procura demonstrar uma realidade diferente da que aponto aqui. A revista VEJA, por exemplo, em sua edição que está indo às bancas e aos assinantes neste final de semana, traz uma reportagem chamada “O NOVO BRAZIL”, na qual relembra como o Brasil era tratado pela intelectualidade norte-americana nos anos 70, que tinha via nosso país com bastante pessimismo, e os brasilianistas norte-americanos de hoje, que têm um avisão bastante otimista do Brasil. No entanto, VEJA omite a fato de a mídia norte-americana ainda continuar a desprezar países “menores”, demonstrando uma espécie de preconceito que já deveria ter siodo extindo em pleno mundo globalizado de hoje.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Chico Xavier - “O astro incrível”

Navegando pelo arquivo digital da revista VEJA, deparei com uma interessante matéria publicada na edição de 29 de dezembro de 1971, nas páginas 64 e 66. Trata-se de uma reportagem sobre a participação do médium mineiro Chico Xavier no programa “Pinga-Fogo”, da extinta TV Tupi de São Paulo, que foi ao ar em dezembro de 1971. No recente filme sobre a vida de Chico Xavier, sua trajetória é contada paralelamente à sua participação no programa jornalístico da extinta emissora. Na verdade, foram realizados dois programas “Pinga-Fogo” com Chico Xavier: um em julho de 1971 e outro em dezembro do mesmo ano. O programa reconstituído no filme é o primeiro, de julho de 1971, do qual não há nenhum registro nos arquivos de VEJA. No entanto, há uma matéria sobre o segundo programa, na qual consta um comentário por alto sobre o primeiro programa.

É interessante a gente rever um pouco sobre fatos relevantes do passado pelo ponto de vista da mídia da época em que o tal fato se passou, sem o filtro da História. É isso que estamos fazendo ao ler um texto como este transcrito logo abaixo.

Na transcrição, tomei o cuidado de adaptar o texto às regras ortográficas atuais.

O astro incrível

A maior atração da televisão brasileira em 1971 contraria algumas das regras mais elementares do fascínio sobre grandes púbicos. Tem voz monótona, efeminada. Demora-se mais que o necessário mesmo nas explicações mais simples. Usa uma linguagem empolada, povoada de metáforas óbvias e gastas. Praticamente não se movimenta em cena: sentado, balança-se o tempo todo na poltrona, de modo irritante. Seu único gesto, repetido desajeitadamente, é o de, às vezes, ajustar os óculos.

Tantas limitações, no entanto, não perturbaram nem diminuíram o sucesso do médium de Uberaba, Chico Xavier, no “Pinga-Fogo” especial de segunda-feira da semana passada. Durante quase cinco horas pesadas de perguntas e respostas sobre divórcio, hippies, pena de morte, censura, reencarnação e mais uma dezena de assuntos variados, ele prendeu a atenção de uma plateia na maioria idosa, que superlotou o auditório da TV Tupi de São Paulo (capacidade para quinhentas pessoas). O número de telespectadores ainda é incalculável: quatro emissoras transmitiram em cadeia e catorze outras haviam encomendado vídeo-tapes com urgência. (esses tapes, mais os nove intervalos com dez comerciais cada um, devem ter rendido acima de 150.000 cruzeiros à Tupi). Antes do programa, mais de cem perguntas já haviam chegado à estação por escrito ou por telefone; outras duzentas foram feitas pelos três telefones que não pararam de chamar durante a entrevista. Na tarde de segunda-feira, o superintendente da Tupi, Orlando Negrão, entrou em pânico: os oitocentos convites existentes já estavam distribuídos e precisava conseguir um para dona Zilda Natel, mulher do governador paulista.

Pela quinta vez – Em julho, no mesmo auditório, Chico Xavier deu a sua primeira entrevista ao “Pinga-Fogo”; audiência quase total (75%) e pedidos insistentes para reprises. Esses pedidos foram atendidos três vezes, sempre com audiência acima de 25% (muito alta para um programa que começa depois das 10 da noite e dura mais de quatro horas). A entrevista da última semana seria, portanto, a quinta aparição de Chico Xavier neste ano. E ele próprio, em suas palavras iniciais, declarava-se surpreso com tanto interesse: “Sinceramente, devemos confessar que estamos aqui numa posição imerecida. Emprestou-se tamanha solenidade a êste programa que, sinceramente, nos surpreendemos sobremaneira”.

O plural majestático e o estilo retórico durariam até o final. Habilmente, Chico Xavier salientou seu respeito pelas autoridades (“...rogamos aos nossos benfeitores espirituais que nos assistissem, que nos inspirassem para que a palavra que eu possa dizer não venha a ofender os nossos governantes, as nossas leis, as nossas autoridades, porque nós sabemos que sem lei nós rolaríamos no caos”). Com isso, evitava problemas como o enfrentado há três meses por Sílvio Santos, Flávio Cavalcanti e Chacrinha quando levaram aos seus programas a umbandista carioca que se apresenta como “Seu Sete da Lira”. E o “Pinga-Fogo” seguiria em paz até o último ato: um poema de exaltação à pátria, psicografado diante das câmaras e do auditório silencioso. O poema, com o título de “Brasil”, tem versos de rima nem sempre ricas (“Dos sonhos de Tiradentes/ Que se alteiam sempre mais/ Fizeste apóstolos, gênios/ Estadistas, generais” ou “Desde o dia em que nasceste/ Ao fórceps de Cabral/ O tempo se iluminou/ Na Bahia maternal”) e é atribuído a Castro Alves.

Com casca e tudo – Almir Guimarães, apresentador do “Pinga-Fogo”, procurou quebrar o clima solene de expectativa anunciado ao convidado que era chegada “a hora da onça beber água”. O radialista Vicente Leporace, um dos cinco entrevistadores da noite, reforçou a quebra de clima: autorizado por Chico Xavier, tratou-o “de mineiro para mineiro, com casca e tudo”. E fez a primeira pergunta: a morte trunca as pesquisas de um cientista ou “ele, depois de morto, pode continuar na evolução do espírito”? Segundo Chico Xavier, a morte não interrompe as pesquisas. O deputado e jornalista Freitas Nobre (MDB de São Paulo) fez a segunda pergunta: que significado tem o Natal para o espiritismo. Segundo Chico Xavier, o Natal é e continuará a ser importante. O parapsicólogo Ernani Guimarães Andrade apresentou a terceira pergunta: queria uma opinião sobre a reencarnação. Segundo Chico, as pesquisas sobre o assunto são da maior importância para os destinos da humanidade. O quarto entrevistador, o repórter dos Diários Associados, Durval Monteiro, tinha uma dúvida séria: “...serpa que a máquina fria, calculista, violenta, vai conseguir estrangular o homem”? Segundo Chico Xavier, a pergunta era “muito válida” e sôbre ela “precisamos estudar intensivamente”. O quinto entrevistador, repórter da Tupi, Saulo Gomes, quis saber “o que pensam os chamados benfeitores espirituais quanto à posição do Brasil atual”. Segundo Chico, “sem qualquer expressão eufemística, declaramos que a posição atual do Brasil é das mais encorajadoras e das mais dignas”.

Glória a Deus nas alturas – Qualquer outro programa razoável de televisão tem mais atrativos que a entrevista de Chico Xavier. Sorriso por sorriso, o de Sílvio Santos é mais cativante. Simpatia por simpatia, a de Hebe Camargo é mais convincente. O gesto de ajustar os óculos tem mais charme executado pelas mãos de Flávio Cavalcanti. A voz afetada de “Norminha”, personagem de Jô Soares, é mais espontânea.

Nenhum programa de televisão, por melhor que seja, terá no entanto os recursos de Chico Xavier. Qualquer problema do espírito, do corpo, deste ou de outro mundo tem dêle solução pronta e imediata – e isso nem os jurados destemidos jamais ousaram. E ninguém, a não ser o próprio Chico Xavier no programa de julho, teve até hoje, na televisão brasileira, condições de começar um programa transmitindo um recado de um espírito que, segundo êle, se encontrava ao seu lado, e terminar com um voto de “Glória a Deus nas alturas, Paz na Terra e Boa Vontade para com todos os homens. Feliz Natal a São Paulo e a todos. Muito obrigado”.

Revisa VEJA – edição n.º 173 – 29/12/1971 – páginas 64 e 66.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O telejornalismo no tempo da TV a lenha

VEJA_20_121_1968

Muitas vezes, a gente reclama do bombardeio de informações a que somos sobmetidos diariamente pelos noticiários da redes de TV. Não bastassem os telejornais da TV aberta, hoje também existem emissoras de TV, a cabo e até abertas, especializadas em jornalismo 24 horas por dia. Haja cabeça para tanta informação, transmitidas ao vivo, em tempo real, de várias partes do Brasil e do mundo.

Mas nem sempre foi assim. Nos velhos tempos da TV em preto e branco, à válvulas, sem recursos técnicos, a televisão informava mal, quando informava. Até o final da década de 60, ver televisão era a melhor maneira de se manter alheio ao que acontecia no mundo. Para conhecer bem esse tempo, transcrevo abaixo, conservando até a grafia original, reportagem publicada na edição da revista VEJA, de 20 de novembro de 1968 que nos descreve como a televisão daquela época era precária. Nessa ocasião, o Brasil recebeu a visita da rainha da Inglaterra, Elizabeth II, ponto de partida da reportagem, escrita 42 anos atrás. Vale a pela ner e ver como tudo era bem diferente naquela épca.
_______________________________

TELEJORNALISMO, ZERO

Em dez dias no Brasil, a Rainha foi e veio. Viajou por terra, mar e ar. Sorriu, falou acenou, trocou de vestidos, chapéus e jóias. Até cavalgou. Um show de notícias. Mas quem esperou pelas reportagens da TV não viu quase nada.

Quem ligou a TV, em Brasília, na esperança de assistir à visita da Rainha Elizabeth à cidade, sofreu uma decepção. Não viu quase nada, além do cerimonial da chegada, no Aeroporto, e de uma festa de fim de ano de colégio. A única câmara (sic) em uso, convocada para contar a sessão solene do Congresso, focalizava, alternadamente, a Rainha, o orador ou dava uma visão estática do plenário, cheio de parentes dos deputados e senadores. Em compensação, os telespectadores paulistas levaram cinco dias para verem o video-tape da visita da Rainha ao Recife, que foi exibido exatamente quando Sua Majestade desembarcava em Congonhas. Mas o Departamento de Telejornalismo da TV Tupi (SP) nem se preocupou em explicar-se. Tudo passou despercebido, ninguém reclamou. É que o público já está acostumado. E os noticiários jã são conhecidos como “aquele programinha de dez minutos que serve de intervalo entre as novelas”.

O repórter Antônio Maria – O “Jornal Bancominas” (TV Itacolomi – Belo Horizonte) se orgulha de ter um dos maiores índices de audiência entre os noticiários de telecvisão de todo o País: 80% dos aparelhos de televisão de Belo Horizonte, sem contar os espalhados pelos quatrocentos municípios do interior atingido pela sua imagem. Razão do recorde: quando termina o capítulo da novela “Antônio Maia”, o locutor Jaime Gtomide lê ràpidamente quarenta notícias (trinta locais, oito internacionais e duas nacionais). Em seguida começa outra novela: “A Última Testemunha”. Por isso, os demais canais transferiram seus noticiários para depois das 22 horas. Ninguém quer competir com o “Repórter Antônio Maria”. Apenas outro repórter aceita o desafio. É o “Repórter Esse” (TV Tupi – Rio), transmitido em cadeia com as Emissoras Associadas de Vitória e Belo Horizonte. Apresentado por Gontijo Teodoro, é um dos poucos programas de telejornalismo que o público leva a sério.

A Esso planeja para 1970 um telejornal com imagens transmitidas do Rio, São Paulo e Recife. Êste primeiro projeto de cadeia nacional de televisão somente será possível com a inauguração da Rêde Nacional de Micro-ondas da Embratel. Enquanto isso, a TV Globo (Rio) pensa em aproveitar as transmissões via satélites (Telstar) para realizar um telejornal internacional. Até agora a preocupação geral com a entrada do Brasil na era das telecomunicações espaciais se vem limitando à recepção das imagens da Copa do Mundo de 1970, no México. A TV Globo e a TV Tupi (Rio) são as que gastam as maiores verbas mensais da televisão nacional com jornalismo: 50.000 cruzeiros novos.

Vietnan ou Coréia – Grande parte das emissoras de TV só mentém noticiário porque é obrigada pela CONTEL. Algumas conseguem burlar a lei: não chegam a empregar em informativos 5% de tempo exigidos legalmente. Por isso incluem programas de entrevistas na relação de seus “telejornalísticos”. Êsses programas, como os humorísticos, programas de auditório, dão IBOPE e recebem bons patrocínios. Dão lucros, enquanto os telejornais geralmente dão prejuízo ou lucros muito reduzidos.

A conseqüência é que as verbas para telejornalismo são pequenas, os profissionais recebem pouco (em Porto Alegre, ganham 200 cruzeiros mensais). A TV Itapoã (Salvador) não possui telex, teletipo, não exibe telefotos. Restringe-se à leitura de telegramas, notícias locais do govêrno. A TV Brasília, como não tinha filmes da guerra do Vietnan, fabricou uma montagem com filmes da guerra da Coréia. Transmitiu várias vezes a montagem e o diretor-substituto da emissora, Afonso Fabri, não achou nada demais. “Todas as guerras se parecem, não é mesmo?” Nem por isso Fernando Barbosa Lima, criador do “Jornal de Banguarda” (TV Rio), deixa de lembrar que “somos um dos países mais adiantado do mundo em telejornalismo e já ganhamos um prêmio internacional com esse tipo de programa”. Ele se refere ao tipo de programa em que se especializou: “slides”, cortes de câmara (sic), bonequinhos, desenhos, sombra de locutores, vozes cavernosas para substituir a pobreza dos filmes de reportagem Heron Domingues (TV Rio) acha que está melhorando, mas Armando Nogueira (cronista esportivo, diretor de telejornalismo da TV Globo) e Nemércio Nogueira (“Repórter Esso” de São Paulo) observam que o telejornalismo brasileiro nasceu errado porque teve como base o velho rádio, quando a BBC de Londres, por exemplo, se estruturou com jornalistas. Nemércio ainda se defende: “Como posso fazer um bom telejornal se o meu camera-man durante o dia é pedreiro”. Assim, o telespectador brasileiro realmente bem informado é aquele que lê a chamada imprensa escrita, os jornais principalmente. Ligar a TV é o mesmoq que desligar-se do mundo.
(matéria da revista VEJA – edição n.º 11, de 20/11/1968, página 64)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Voltando a postar

Tenho deixado pouca coisa escrita aqui ultimamente. Mesmo em férias do meu trabalho, não tive, durante os últimas dias, inspiração para escrever algo interessante. Comentar os fatos que são divulgados pela mídia diariamente tornou-se uma tarefa penosa. Graças à facilidade de comunicação, somos bombardeados todos os dias com uma grande quantidade de informação. É difícil digerir tudo isso. É mais difícil ainda formar um juízo de valor sobre cada coisa que acontece de importante por este mundo afora.

Eu sempre procuro escrever sobre aquilo que realmente me incomoda. Obviamente, antes de postar qualquer coisa, procuro me inteirar dos fatos, saber mais sobre o assunto a ser abordado em meu texto, para não escrever bobagem. Isso é importante. Não devemos escrever asneiras, mesmo em se tratando de um blog que praticamente ninguém lê, como é o caso deste aqui. Não podemos subestimar o poder de fogo da Internet. Queria eu, todos os dias, postar aqui alguma coisa, alguma impressão minha sobre algum assunto ou sobre algum fato importante que tenha sido divulgado pela imprensa. No entanto, com poucas informações, não é prudente emitir qualquer parecer. Não devemos falar sobre o que não sabemos.

Acho que vou começar a captar na Internet fatos que julgue importantes e, no final da semana, expô-los e comentar sobre eles, de forma resumida, com bom humor. Por isso, esta semana já começa a coletar informações e anotar tudo aquilo que me parece importante divulgar e comentar.

Então, mãos à obra.