domingo, 22 de fevereiro de 2009

Novo visual do blog

Pois é, pessoal. A partir de agora, nosso blog tem novo visual. Mas as mudanças não terminam aí. A partir de agora, também, ele vai ser mais ágil. Vai trazer mais informações interessantes, comentários, conteúdo ilustrados, com fotos ou até vídeos.

Vamos disponibilizar aqui, na medida do possível, informações diárias, ou seja, vamos ter o conteúdo deste nosso blog sempre atualizado. É claro que essas atuallizações diárias dependem de nossa sisponibilidade de tempo. Mas sempre que possível este blog estará com conteúdo novo.

Aguardo suas visitas e seus comentários.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Deus e Darwin, cento e cinquenta anos depois

No último dia 12 de fevereiro comemorou-se o bicentenário do nascimento de Charles Darwin, o naturalista inglês que, aos vinte e dois anos de idade, embarcou em um pequeno navio de exploração científica chamado Beagle, no qual, durante cinco anos, viajou por quatro continentes. Na viagem, ele recolheu milhares de amostras de espécies de animais e escreveu um diário de 770 páginas. Essa viagem de Darwini deu origem, depois, à mais famosa e barulhenta revolução no mundo científico: a publicação, em 1859, de seu polêmico livro A Origem das Espécies, em que ele apresenta sua teoria da evolução pela seleção natural, segundo a qual animais e plantas evoluem e se modificam aos longo das eras, ou seja, estão em constante processo de mutação, adaptando-se ao meio em que vivem, de acordo com suas necessidades naturais. Prega ainda a teoria de Darwin que cada grupo de seres vivos descende de um ancestral comum, assim como todos esses grupos juntos, incluindo animais e plantas, descendem, por sua vez, de uma única forma de vida na Terra, que seria um micro-organismo, uma ameba, uma bactéria unicelular que teria dado origem à toda vida na Terra, a célula mater de toda a vida em nosso planeta, isto é, o primeiro organismo vivo que surgiu na face da Terra.

Conforme descrito em matéria publicada na revista VEJA, de 11/02/2009, de autoria de Gabriela Carreli, matéria, aliás, que me despertou a escrever este texto, o grande laboratório do evolucionismo foram as Ilhas Galápagos, no Oceano Pacífico. Foi lá que Darwin percebeu que muitas das espécies que habitavam aquelas ilhas eram semelhantes às que existiam no continente, mas elas apresentavam pequenas diferenças de uma ilha para outra. Os que chamaram mais a atenção de Darwin foram os tentilhões. Esses pássaros apresentavam um formado de bico diferente em cada ilha, dependendo do tipo de alimentação disponível. A única explicação possível para isso é que, depois que as primeiras espécies chegaram às ilhas, vindas do continente, passaram a desenvolver características diferentes, de acordo com as condições do ambiente de cada ilha. Seria a prova da evolução. Mais recentemente, um grupo de biólogos, ao estudarem os mesmos tentilhões das Ilhas Galápagos, puderam observar o evolução ocorrendo em tempo real, pois os pássaros evoluíam de um ano para o outro, de acordo com as mudanças nas condições climáticas das ilhas.

A grande verdade é que, sem as teorias de Charles Darwin, complementadas pelos valiosíssimos estudos do monge Gregor Mendel, a biologia contemporânea não seria nem sombra do que é atualmente. Por isso, o resultado das pesquisas de Darwin é, hoje, amplamente aceito pela ciência, pois foi um importante ponto de partida para alcançarmos um elevado grau de avanço na medicina e na genética modernas. Portanto, a teoria da evolução das espécies é um dos principais pilares da ciência contemporânea, não restando qualquer dúvida sobre sua validade. Sua confirmação definitiva ocorreu quando os cientistas James Watson e Francis Crick descobriram, em 1953, a estrutura do DNA.

Se assim é, se as teorias de Darwin estão plenamente consagradas no mundo científico, por que ainda há gente que as rejeita? Por que há quem não aceite suas teorias?

Talvez a principal razão dessa rejeição seja por pura ignorância sobre o assunto. Existe uma lenda, provavelmente difundida por “criacionistas” desinformados ou, talvez, até mal intencionados, de que Darwin teria afirmado que nós, seres humanos, somos descendentes dos macacos, o que é totalmente inverídico. Darwin nunca disse tamanha asneira. Existe nessa lenda a mesma desinformação ou, talvez, até má fé, que há nas afirmações de certos segmentos religiosos ultraconservadores norte-americanos, que dizem que o darwanismo é apenas uma teoria, repleta de lacunas e carente de provas conclusivas. Só que, no meio científico, o termo
teoria não tem o significado de simples hipótese ou especulação. A palavra teoria, nesse caso, significa um conjunto de princípios fundamentais de uma determinada área científica, testados e comprovados por experimentação, leis e fatos científicos. Em suma, o evolucionismo não é uma simples especulação. É conhecimento científico comprovado.

Na matéria jornalística da qual falei acima, publicada na revista VEJA, deparei com algumas observações interessantes que talvez nos deem uma luz sobre essa questão. Em 1920, por exemplo, ao escrever sobre o impacto das teorias de Darwin, Sigmund Freud, o pai da psicanálise, disse que, ao longo do tempo, a humanidade teve de suportar dois grandes golpes em sua autoestima. O primeiro foi constatar que a Terra não é o centro do universo. O segundo ocorreu quando a biologia desmentiu a natureza especial do homem e o relegou à mera posição de descendente do mundo animal. Outra observação interessante, embora bastante materialista, é de Stephen Jay Gould, falecido em 2002, que dizia que as teorias de Darwin são tão mal compreendidas não porque sejam complexas, mas porque muita gente evita compreendê-las. Segundo ele, concordar com Darwin significa aceitas que a existência de todos os seres vivos é regida pelo acaso e que não há nenhum propósito elevado no caminho do homem na Terra. Já David Sloan Wilson, biólogo da Universidade de Binghamtom, afirma que as grandes ideias e teorias são aceitas ou rejeitadas popularmente por suas consequências, não pelo seu valor intrínseco. Infelizmente, segundo ele, a evolução é percebida por muitos como uma arma projetada para destruir a religião, a moral e o potencial dos seres humanos.

Concordo plenamente com o que disseram Sigmund Freud e David Sloan Wilson. Mas rejeito a segunda parte do parecer de Stephen Jay Gould, ou seja, de que concordar com Darwin significaria aceitar a ideia de que a existência de todos os seres vivos é regida pelo acaso e que não há nenhum propósito elevado no caminho do homem na Terra. Mas, quando ele diz que as teorias darwinistas são mal compreendidas porque muita gente evita compreendê-las, está absolutamente certo.

A meu ver, as teorias de Darwin não ameaçam a religião, a crença em Deus, a fé e nem tentam desmoralizar o primeiro livro da Bíblia. Os textos do Gênesis, cujo provável autor teria sido Moisés, foram dirigidos inicialmente aos antigos hebreus, um povo primitivo, que, como o resto da humanidade naquela época, ainda não conhecia os princípios básicos da física, da química, da biologia, da geologia, princípios esses que só começaram a ser descobertos pelo homem muitos séculos depois. Sendo assim, o autor do Gênesis, mesmo sob inspiração divina, como rezam as tradições religiosas judaico-islâmico-cristãs, teria de usar uma foram de comunicação que fosse entendida por aquele povo, sem a obrigação do rigor científico e histórico. Para isso, usou toda uma linguagem figurada, na qual céu e terra significariam o próprio universo, dias podem significar anos, séculos, milhões de anos ou até eras, a história de Adão e Eva representaria o despertar do homem de seu estado de selvagem ingênuo ao de ser racional, ciente de sua inteligência, pronto para atos de virtude ou para o pecado. Dirão alguns “criacionistas” que eles acreditam literalmente na versão literal do Gênesis “pela fé”, como costumam dizer. Ora, não podemos confundir fé com ingenuidade. Interpretar o livro dos Gênesis ao pé da letra é, a meu ver, subestimar o próprio autor, ou autores, dos textos e, sobretudo, para os que têm fé, subestimar o próprio Deus.

Para interpretarmos não só o livro do Gênesis, mas toda a Bíblia, não precisamos somente de fé, mas de conhecimentos. Ao interpretamos um texto qualquer, temos de saber contextualizá-lo, ou seja, temos de procurar saber quando, onde, por quem e em que circunstâncias esse texto foi escrito e com que propósitos. Os textos bíblicos, em especial, os do Velho Testamento, foram escritos por um povo muito antigo, de cultura, línguas e costumes totalmente diferentes dos nossos. Além disso, foram escritos e reescritos originariamente em línguas também antigas, a maioria delas hoje em desuso, e muito difíceis de serem vertidas para as língua contemporâneas, pois geralmente essas idiomas antigos trazem palavras e expressões muitas vezes intraduzíveis para as línguas de hoje, o que faz com que os tradutores tenham de reescrever ao seu modo frases inteiras de forma a torná-las o mais semelhantes possível do contexto da frase no idioma original. Tudo isso tem de ser levado em conta ao interpretarmos os textos bíblicos. E, além de tudo isso, por se tratar de livros religiosos, há, ainda, a interpretação pela fé, que é a mais complicada e, ao mesmo tempo, a mais perigosa. Os textos bíblicos, devido a seu hermetismo, possibilitam muitas interpretações diferentes e até conflitantes entre si. O resultado disso é o constante processo de fragmentação do judaísmo e, principalmente, do cristianismo, dividindo-se em muitos segmentos. Essas divisões são comuns também em outras religiões, como, por exemplo, no Islamismo. No cristianismo, principalmente na América Latina, essa fragmentação tem assumido proporções particularmente preocupantes, pois isso também abre espaço para que espertalhões, religiosos com más intenções ou até falsos religiosos façam uso dos textos bíblicos, interpretados à sua maneira, para manipular pessoas e até comunidades inteira e, assim, obter benefícios para si. Por essa razão, além de saber interpretar os textos bíblicos, os fiéis têm, também, que saber discernis os verdadeiros religiosos de possíveis picaretas de plantão.

Para concluir, sobre a teoria da evolução das espécies, acho que temos de saber separar a fé da razão, pois é bem provável que Deus e Darwin sejam "parceiros" nessa história toda. Darwin pode ter descoberto a evolução das espécies, mas, com certeza, foi Deus quem a criou.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Lá não é como cá

Li, na imprensa, no último dia 03 de fevereiro que Tom Daschle, o candidato do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a ocupar a Secretaria de Saúde, desistiu do cargo, pressionado por um escândalo de sonegação fiscal. Ele pagou atrasado cerca de US$ 140 mil em impostos. Por isso, Daschle pediu ao Presidente Obama que retire sua nomeação. Ele, que é ex-senador pelo Estado de Dakota do Sul, corrigiu suas declarações de impostos de 2005 a 2007 no Serviço Interno de Rendas (IRS) para incorporar US$ 128.203 atrasados e um total de US$ 11.964 em juros, pois ele não tinha declarado impostos sobre rendas adicionais que recebeu por um trabalho de consultoria e o uso de um serviço de veículo e motorista, e também não documentou corretamente algumas doações para caridade. 

Daschle disse, em carta enviada à Comissão de Finanças do Senado que estava profundamente envergonhado e decepcionado com os erros que o obrigaram a corrigir suas declarações de impostos, pediu desculpas pelos erros e disse que lamentava profundamente que os membros da Comissão tenham tido que dedicar tempo a isso.

Veja que Tom Daschle não roubou, não participou de nenhuma maracutaia, de nenhum tipo de “mensalão”, não foi acusado de enriquecimento ilícito. Ele apenas atrasou o pagamento de impostos. Ele não deixou de pagar. Ele corrigiu as suas declarações e pagou depois. Mesmo assim, ele ele não vai assumir a Secretaria da Educação dos Estados Unidos (o equivalente ao Ministério da Educação aqui). Ele ainda pediu desculpas pelo que fez. Disse que se sente envergonhado pelo que fez. 

Veja o que é um país sério. Nós podemos dizer o que for dos Estados Unidos, da política externa deles. Mas não podemos negar que, apesar de todos os defeitos da sociedade americana, em muitos aspectos, eles são exemplos de cidadania, de respeito às leis, de patriotismo, de senso de cidadania. É preciso deixar claro que, ao contrário do que ocorre aqui, imposto de renda nos Estados Unidos é coisa séria. Não o pagar corretamente é falta grave, principalmente em se tratando de um homem público. 

Nunca sequer ouvi dizer que um político brasileiro tenha sido punido, advertido ou tenha sido simplesmente acusado de não estar com seus impostos em dia, ou até não tê-los pago. Aliás, nunca soube que um político brasileiro tenha sequer pedido desculpas por uma atitude errada ou por algum deslize grave que tenha cometido. Eles nunca têm culpa de nada. Mesmo quando pegos com a boca na botija, juram que são inocentes. 

Sinceramente, quando li a notícia sobre Tom Daschle, fiquei com uma ponta de inveja dos norte-americanos. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O comércio da fé

Em Hebreus, um dos livros do Novo Testamento, no capítulo 11, versículo 1, lê-se o seguinte: “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem”

É lícito, e até louvável, que alguém prospere materialmente à custa da própria fé. Mas seria moralmente aceitável, também, alguém se enriquecer à custa da fé dos outros? 

O assunto é polêmico. Mas, lícito ou não, a verdade é que há muita gente ganhando dinheiro à custa da fé alheia. E não é pra menos, pois trata-se de um mercado amplo, diversificado e em pleno crescimento, aparentemente imune a qualquer tipo de crise. São CDs, DVDs, livros, bíblias, camisetas, revistas e um sem-núemero de outros produtos destinados a consumidores das diversas religiões. Trata-se de um nicho que, diferentemente do que muita gente pensa, não se restringir somente aos evangélicos. Esse tipo de comércio está presente em praticamente todos os segmentos religiosos: católicos, evangélicos, espíritas, seitas orientais,  etc.

Até certo ponto, tudo isso é saudável. Numa sociedade democrática e pluralista como a nossa, as instituições, sejam elas igrejas, seitas, ONGs, partidos políticos, clubes, sindicatos, associações altruístas, etc. têm todo direito de expor à sociedade suas ideias, seus propósitos, seus objetivos, desde que, é lógico, estejam amparadas na lei. Nos países islâmico, por exemplo, isso não ocorre, porque a religião lá é imposta a todos os cidadãos, que, por isso, não têm oportunidade de conhecer outros linhas de pensamentos religiosos, a não ser as do próprio Islamismo. Mas em nossa sociedade ocidental, livre e democrática, a liberdade de culto religioso é um direito inalienável. Por isso, há grande diversidade de pensamentos e crenças religiosas, o que faz com que as várias instituições tenham que fazer barulho, usar a mídia e outros recursos, para mostrarem que existem e, assim, atraírem adeptos.

Ocorre, no entanto, que esse comércio da fé está se transformando num negócio tão lucrativo que já surgiram, entre nós, verdadeiros magnatas do "faith business". Aqui no Brasil, hoje, eles são bem conhecidos. Suas igrejas se transformaram em verdadeiros impérios financeiros. Aí, sim, eu questiono: se ganhar dinheiro com a fé é moralmente discutível para algumas pessoas, o que dizer de quem faz grandes fortunas com ela?

É bom salientar que não estou questionando, aqui, a religião, a fé, as igrejas. Muito pelo contrário. A religião, a fé, a palavra de Deus são valores imprescindíveis para os fiéis. Quantas pessoas que não estavam à beira do abismo, no fundo do poço, e conseguiram resgatar sua dignidade graças à sua fé, à palavra de consolo e de carinho de um padre, de um pastor, de um sacerdote, ao apoio e solidariedade de uma comunidade religiosa? 

Não questiono aqui o dízimo e as ofertas que os fiéis, cumprindo uma tradição religiosa judaico-cristã, dão às suas igrejas, Mesmo porque sem os dízimos e as ofertas dos fiéis as igrejas não sobreviveriam, afinal de contas, para mantê-las em funcionamento há custos, que têm que ser, naturalmente, cotizados entre os fiéis. Também não questiono a idoneidade dessa ou daquela instituição religiosa, desse ou daquele padre, pastor, bispo, sacerdote. O que questiono é o uso da fé de milhares de pessoas, que procuram ajuda espiritual, socorro para seus inúmeros problemas, para criar verdadeiros conglomerados financeiros e até de comunicação. Além disso, vendem a fé como se ela fosse um simples produto de consumo, quase dizendo: “Venha para nossa igreja, pois o “nosso produto” é melhor”. 

Ora, a fé é um valor precioso demais para ser colocada à venda numa espécie de mercado persa de variados tipos e estilos de igrejas, das mais variadas matizes. A fé é algo que se consegue, muitas vezes, à custa de nossas próprias experiências de vida. 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

YES, HE CAN


Sim, ele pode. Barack Hussein Obama, o novo presidente dos Estados Unidos, desde 20 de janeiro último, pode mudar os Estados Unidos e, consequentemente, o mundo. É para isso que ele foi eleito no dia 04 de novembro do ano passado. É isso que seus eleitores querem que ele faça.Quem diria que, quase quarenta e um anos após o assassinato de Martin Luther King, Junior, um negro chegaria à presidência dos Estados Unidos? Esta é uma demonstração clara de que, a sociedade norte-americana, com todos os seus defeitos, seu conservadorismo, pode mudar, pode se transformar.

Aliás, apesar de todas as críticas que se lhes possam fazer, os Estados Unidos são um exemplo claro de uma sociedade que deu certo em todos os sentidos. Já no final do século XIX, eram uma das maiores economias do mundo. Com o final da 2.ª Grande Guerra, em 1945, passaram a disputar com a extinta União Soviética o equilíbrio econômico e militar do planeta. Hoje, com o fim da União Soviética e mesmo com o surgimento de grandes nações emergentes, como China e Índia, os Estados Unidos continuam ainda a exercer seu poder de domínio econômico e cultural por praticamente todo o planeta.

O governo desastrado de George W. Bush fez com que os Estados Unidos começassem a perder crédito no mundo. Bush, considerado por muitos analistas como o pior presidente que os Estados Unidos já tiveram, que saiu da Casa Branca com apenas 20% de aprovação popular em seu país, destroçou a política externa norte-americana. O papel de Barak Obana vai ser o de superar esse descrédito a que seu país chegou, levado por seu antecessor. Para executar essa tarefa difícil, ele tem a credibilidade de um político novo, diferente de Bush, com novas ideias, com uma visão diferente. Se vai conseguir mudar a imagem dos Estados Unidos realmente, só o tempo dirá.

O slogan de sua campanha era “Yes, we can” (Sim, nós podemos). Sim, ele pode. Ele pode, se quiser, mudar a imagem dos Estados Unidos no mundo. Sim, ele pode acabar com a guerra do Iraque e combater o terrorismo de uma forma muito mais inteligente e competente do que Bush o fez. Sim, ele pode, se tiver apoio suficiente dos congressistas e do povo norte-americano, recuperar a economia dos Estados Unidos. Sim, ele pode e disse que vai fechar a prisão de Guantánamo. Sim, ele pode acabar com o bloqueio econômico a Cuba e, com isso, fazer com que o povo daquela ilha tenha esperança de viver em uma democracia em futuro breve. Sim, ele pode estabelecer uma relação de boa amizade com todos os países da América Latina. Sim, ele pode ajudar a que judeus e palestinos encontre uma forma de viverem em paz. Sim, ele pode fazer tudo isso e muito mais.

Se ele fará pelo menos metade de tudo isso, só o futuro nos dirá. O fato é que o mundo nunca colocou tanta esperança num novo líder mundial antes como está fazendo em relação a Barack Obama. Não é para menos. Afinal, os Estados Unidos continuam sendo a nação mais rica e importante do planeta. Praticamente metade da economia do mundo está nas mãos dos norte-americanos. O que Barak Obama fizer de certo ou de errado pode mudar os destinos do mundo.


sábado, 17 de janeiro de 2009

Por que palestinos e israelenses brigam tanto?

O ataque de Israel à Faixa de Gaza, causando mortes e sofrimento, está provocando revolta em todo o mundo. Mas por que será que os judeus de Israel não se entendem com os árabes, principalmente com os palestinos?

ooOoOoo


Por que Israel e palestinos brigam tanto? Por que tanta animosidade entre esses dois dois povos, que têm entre si fortes vínculos étnicos? Por que tantas guerras, tantas mortes, tanto sofrimento naquela região? Para saber os reais motivos desse ódio mútuo inesgotável, precisamos voltar no tempo.

Segundo a tradição judaico-islâmico-cristã, tudo começou, cerca de 2.000 anos a.C., numa cidade do sul da Mesopotâmia, atual Iraque, chamada Ur, ou a Ur dos Caldeus, onde um homem, chamado Abraão, teria recebido um chamado de Deus para que abandonasse seu povo e fosse, com sua família, para a “terra prometida” de Canaã, antigo nome pelo qual era conhecida a atual região ocupada hoje por Israel, Cisjordânia, parte ocidental da Jordânia e sul do Líbano. Abraão e sua família, obedecendo a Deus, teriam percorrido os desertos daquela região por muitos anos, em busca da tal terra prometida por Deus. O próprio Abraão teria morrido antes de alcançar Canaã, mas seus descendentes chegaram lá, entre eles, estavam seu filho Ismael, que seria ascendente dos povos árabes, e seu neto Jacó, filho de Isaque, que teria sido ascendente do povo hebreu.

Se Abraão existiu ou não, se árabes e judeus tiveram um ancestral em comum, como contam suas tradições religiosas, a História não pode confirmar seguramente. Mas a origem mesopotâmica desses povos, hoje, é quase certa, em razão de algumas semelhança culturais e linguísticas com os antigos mesopotâmios.

Deixemos de lado, agora, a origem de árabes e judeus e vamos nos ater a um fato ocorrido em Jerusalém, no ano 70 d.C., ou seja, cerca de trinta anos após o julgamento e crucificação de Jesus Cristo. Os romanos, que ainda dominavam aquela região e também eram pagãos, queriam construir na cidade um templo dedicado a Júpiter. Para os hebreus, que eram monoteístas e intransigentes em matéria de religião, era um absurdo, uma heresia. A revolta foi grande. Mas a resposta dos romanos foi impiedosa. Em suma, os hebreus foram expulsos da Judeia, isto é, enxotados de sua própria terra. Começava. aí, a grande diáspora. Os judeus, expatriados, espalharam-se pelo mundo. O antigo estado judeu, a partir de então, deixou de existir.

Muitos séculos se passaram e, mesmo espalhados pelo mundo, vivendo em comunidades judaicas na Ásia Menor, no leste da Europa, no norte da África, na Península Ibérica, nos Países Baixo, nos Bálcãs e, depois, até na América, estigmatizados, perseguidos, humilhados, às vezes até expulsos de uma região ou outra, os judeus não perderam sua identidade cultural, religiosa e linguística.

Na segunda metade do século XIX, surgiu, na Europa, o movimento Sionista (em referência ao monte Sion, que fica nos arredores de Jerusalém), que defendia o direito à autodeterminação do povo judeu e a criação de um estado nacional judaico. Seu principal líder era Theodor Herzl (1860-1904), um jornalista judeu húngaro, autor do livro "Der Judenstaat" ("O estado judaico"), no qual pregava que o problema do antissemitismo só seria resolvido quando os judeus dispersos pelo mundo pudessem se reunir e se estabelecer em um estado nacional independente. Durante um congresso, em Basileia, na Suíça, em 1897, os judeus reunidos iniciaram oficialmente a luta para a criação de um estado próprio. O grande problema era em que região o estado judaico deveria ser fundado. Entre vários locais apontados, estavam Chipre, Argentina e o Congo. Para alguns sionistas, a justificativa da expulsão em 70 d.C., da diáspora, não justificaria a recriação de um estado judeu na Palestina, pois, muito antes da expulsão pelos romanos, a grande maioria do povo hebreu já havia se helenizado e migrado espontaneamente ou, mesmo, nem retornado para a Palestina depois do cativeiro da Babilônia. No entanto, por razões históricas e pelo forte apelo religioso, baseado na redenção do povo de Israel na “terra prometida”, o local escolhido foi mesmo a Palestina, de onde haviam sido expulsos cerca de mil e oitocentos anos antes.

Em razão disso, a partir do final do século XIX, principalmente por causa do antissemitismo, a migração de judeus da Europa para a Palestina se intensificou. No entanto, a Palestina, naquela época, já estava cultural e etnicamente arabizada, isto é, já era habitada por uma população de esmagadora maioria árabe, lá enraizada por uma longa e consistente migração e assimilação iniciada por volta do ano 350 d.C. e que perdurou e floresceu por mais de 400 anos, durante as dinastias árabes Omanida, Abássida e Fatímida. No entanto, isso não impediu a migração em massa de judeus da Europa para a região. Para se ter uma ideia desse fluxo, basta dizer que, entre 1890 e 1922, a população judaica na Palestina dobrou, de 40 mil para cerca de 85 mil. Já em 1909, foi criado na região o primeiro kibutz, que é um tipo de colônia agrícola de inspiração socialista. Claro que os árabes palestinos não começaram a ver aquele verdadeira invasão de judeus com bons olhos. Por isso, já também em 1909, os judeus começavam a criar grupos armados para se defender da fúria dos árabes palestinos. Afinal de contas, depois de quase dois mil anos, eles queriam a Palestina de volta para si, mas os árabes ali instalados havia séculos também, obviamente, não estavam de acordo com essa invasão judaica.

Diante dessas dificuldades, para o estabelecimento de um estado judeu, o movimento sionista teria de fazer uma grande alteração para mudar o equilíbrio étnico e demográfico da região, mesmo porque o projeto de um estado judaico padrão deveria se basear nas utopias religiosas e culturais bem próprias, exclusivas e definidas com os costumes e o idioma do povo judeu que habitava o leste europeu, uma cultura totalmente estranha não só para a comunidade árabe local, mas também para os judeus que já viviam na região bem antes do sionismo.

Até o final da I Guerra Mundial, a Palestina fazia parte do Império Turco-Otomano. Com a dissolução desse império, o território passou para o domínio da Grã-Bretenha. Em 1917, o chanceler britânico Arthur Balfour declarou formalmente apoio ao estabelecimento de um estado judeu na Palestina, desde que respeitados os direitos das comunidades não judaicas da região (Declaração Balfour). Na época, o governo britânico prometeu aos árabes-palestinos a criação de um grande estado, que jamais chegou a existir. A Liga das Nações, entidade que correspondia à ONU de hoje, outorgou ao Reino Unido a administração da Palestina em 1920. A comunidade árabe da região sentiu-se traída pelos britânicos e ameaçados pelos judeus. As animosidades se intensificaram. Nos anos de 1929 e 1936, ocorrem violentos distúrbios entre árabes e judeus.

A perseguição aos judeus imposta pelo regime nazista de Adolf Hitle, a partir de 1933, intensificou a migração para a Palestina. Finda a II Guerra Mundial, o apoio internacional à criação de um estado judaico aumentou em virtude da revelação do massacre de seis milhões de judeus nos campos de extermínio nazistas, o holocausto. Os britânicos, então, delegaram à então recém-criada ONU (Organizações das Nações Unidas) a tarefa de solucionar os problemas daquela região. Sem consulta prévia aos árabes-palestinos, a ONU aprovou, em 1947, a divisão da Palestina em dois estados, um para os judeus, e outro para os árabes, que rejeitam a decisão.

Apesar da revolta árabe, em 14 de maio de 1948, foi, então, criado o Estado de Israel, com David Ben-Gurin como primeiro-ministro. Cinco países árabes enviaram tropas para tentar evitar a fundação do estado hebreu. A guerra terminou em janeiro de 1949, com a vitória de Israel. Cerca de 700 mil palestinos se refugiaram na Cisjordânia, na Faixa de Gaza ou migraram para os países árabes. A maioria deles perdeu casas e propriedades. O Egito incorporou a Faixa de Gaza ao seu território; a Jordânia recebeu Jerusalém Oriental e a Cisjordânia. O estado árabe-palestino, previsto pela ONU, acabou não sendo criado, enquanto Israel passou a controlar 75% do território da Palestina. Os árabes-palestinos, então, ficam sem território,

Com apoio estrangeiro e remessa privada de dinheiro, a economia de Israel floresceu rapidamente. Com o apoio dos Estados Unidos, os israelenses se tornaram militarmente fortes. Com isso, ao longo dos anos, Israel tem conseguido sobreviver cercados de inimigos, aos quais tem conseguido vencer nos campos de batalha. Em 1967, diante da aliança militar entre Egito, Síria e Jordânia, com apoio da União Soviética, Israel, fortemente armado pelos Estados Unidos, teve a ousadia de atacar os três países ao mesmo tempo, em 05 de junho. O episódio, conhecido como “Guerra dos Seis Dias”, terminou no dia 10 de junho, com a vitória de Israel, que conquistou o Sinai, a Faixa de Gaza, a Cisjordânia, as Colinas de Golã (na Síria), e a zona oriental de Jerusalém. Mesmo com uma resolução da ONU na época, determinando a devolução das áreas ocupadas, Israel exigiu que os países árabes reconhecessem sua existência como nação.

De lá para cá, o cotidiano dos povos daquela regiao é de permanente hostilidade mútua. Durante as Olimpíadas de 1972, em Munique, na então Alemanha Ocidental, onze atletas israelenses foram mortos pelo grupo “Setembro Negro”, ligado à OLP (Organizaão para a Libertação da Palestina). Em 1973, na chamada Guerra do Yom Kippur, o “Dia do Perdão” (feriado religioso judeu), a Síria e o Egito, de surpresa, atacaram Israel pelo Sinai e pelas colinas de Golã. Depois de 48 horas de lutas, Israel inverteu a vantagem dos árabes e os derrotou. Nesse ano, os árabes fizeram do petróleo uma arma de guerra: boicotaram seu fornecimento aos países que apoiavam Israel, aumentando o preço do produto e causando a primeira grande crise do petróleo no mundo. Em 1974, o Fatah, facção dominante na OLP, passou a defender a criação de um Estado binacional na Palestina, quando facções palestinas mais radicais romperam com a OLP. Em 1978, por ocasião da assinatura do acordo de Camp David, mediado pelos Estados Unidos, Israel devolveu o Sinai ao Egito. Em 1982, Israel invadiu o Líbano para expulsar a OLP de lá. O exército israelense chegou a Beirute, onde permitiu o massacre de refugiados palestinos nos campos de Sabra e Shatila por milícias cristãs aliadas. Em 1987, eclodiu a primeira Intifada (revolta) contra Israel em Gaza e na Cisjordânia. Em 1988, uma declaração de independência palestina, feita pela OLP, reconheceu indiretamente o Estado de Israel, de acordo com as fronteiras anteriores a 1967. No mesmo ano, surgiu o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), que prega até hoje a destruição de Israel.

Por pressão dos Estados Unidos, Israel iniciou, em 1991, as primeiras negociações diretas com representantes palestinos, na Conferência de Madri (Espanha). Em 1993, Israel e OLP firmam o Acordos de Oslo, que previa um estágio interino de autonomia palestina em Gaza e na Cisjordânia até a conclusão de negociações para a criação de um estado palestino na região. Foi criada, então, a Autoridade Nacional Palestina (ANP), sob comando de Yasser Arafat, que em 1994 voltou do exílio na Tunísia. Em 1996, Arafat foi eleito presidente da ANP. Dessa forma, áreas de Gaza e da Cisjordânia passaram ao controle palestino, mas Israel manteve a colonização da Cisjordânia. Em 1994, o Hamas promoveu seu primeiro atentado terrorista, após a morte de 29 palestinos por grupo extremista judaico em Hebron. Em 1995, o primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin foi assassinado por um extremista judeu. Em 1996, o direitista Binyamin Netanyahu foi eleito primeiro-ministro de Israel. Em 1999, ele foi sucedido pelo trabalhista Ehud Barak. Em julho de 2000, no último ano de seu mandato, o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, reuniu o primeiro-ministro de Israel Ehud Barak e o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat, em Camp David (EUA) para cúpula destinada a pôr fim à questão. A cúpula fracassou, apesar de Israel julgar ter apresentado sua melhor proposta. Barak oferecia aos palestinos 95% de Gaza e da Cisjordânia (equivalente a menos de 22% da Palestina histórica) e capital em parte da Jerusalém árabe, mas não soberania sobre Esplanada das Mesquitas. Também não houve acordo sobre retorno dos refugiados.

Em setembro de 2000, Ariel Sharon, líder do partido de direita israelense Likud, em campanha para eleitoral, foi à Esplanada das Mesquitas. Começou, então a Segunda Intifada. Atentados terroristas, ataques israelenses e confrontos deixaram cerca de 5.000 palestinos e 1.000 israelenses mortos em quatro anos. Sharon, eleito primeiro-ministro em 2001, fundou o partido Kadima, que prometia abrir mão da "Grande Israel". Em 2002, ele começou construção do muro entre Israel e Cisjordânia. Esse muro reduziu a quase zero os atentados em Israel, mas anexou grandes porções do território palestino. Em 2004, Yasser Arafat morreu e foi substituído na Presidência da ANP por Mahmoud Abbas, do Fatah, eleito em 2005. Naquele mesmo ano, Israel retirou soldados e 8.000 colonos de Gaza, mas manteve controle sobre fronteiras marítimas e terrestres do território. Na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental foram mantidos 400 mil colonos. O primeiro-ministro Ariel Sharon entrou em coma em 2006 e foi substituído por Ehud Olmert. Em 2006, o Hamas venceu as eleições legislativas palestinas de janeiro de 2006. Seu gabinete foi boicotado por Israel e pelo Ocidente, que classificaram o grupo como terrorista. Em 2007, combates entre Hamas e Fatah levaram à expulsão do Fatah de Gaza. A ANP nomeou, então, novo gabinete, que só teve voz em parte da Cisjordânia. Israel iniciou, em razão disso, um cerco econômico a Gaza. O Hamas começa a usar túneis na fronteira com o Egito para contrabandear alimentos, combustível e armas. O grupo e facções ultrarradicais, como Jihad Islâmica, aumentaram os ataques com foguetes contra Israel. Uma trégua, mediada pelo Egito, entre Israel e Hamas vigorou entre junho e dezembro de 2008. Nenhum dos dois lados cumpriu estritamente o acordo. Deu no que deu. Desde 27 de dezembro do ano passado, Israel, respondendo aos ataques com foguetes do Hamas, vem atacando violentamente a Faixa de Gaza, provocando, até agora, mais de mil palestinos mortos, entre os quais, muitas crianças.

O permanente clima de hostilidades entre judeus e palestinos parece não ter solução. O radicalismo de ambos os lados e o fanatismo religioso não permitem que haja bom senso, que haja concessões. É um problema, pelo menos a curto e a médio prazo, sem uma solução definitiva. Mesmo que se transforme a Faixa de Gaza e a Cisjordânia em um estado nacional palestino, as hostilidades vão continuar, infelizmente.

Israel e as reservas de gás natural no litoral da Faixa de Gaza

Está circulando na Internet uma informação, originariamente divulgada por Michel Chossudovsky, um economista, professor da Universidade de Ottawa, no Canadá, que dirige também um tal Centro de Estudos de Globalização, a versão de que overdadeiro motivo de Israel ter atacado militarmente a Faixa de Gaza é o interesse dos israelenses em assumir o controle das reservas de gás natural existentes no litoral daquela região.

Até faz sentido. No entanto, como  muita gente não leva a sério o que Chossudovsky diz em seu livros e artigos, seria bom encarar essa versão dele com certa reserva.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Reforma ortográfica: será que o Brasil não vai acabar ficando sozinho nessa?

As novas regras ortográficas, fruto do Acordo de Unificação da Ortográfica de 1990, entraram em vigor no Brasil no último dia 1.º de janeiro. Mas não há motivo para desespero, pois as regras ortográficas antigas estarão em vigor até o dia 31 de dezembro de 2012. A partir de 1.º de janeiro de 2013, só valerão as novas regras.

Os países de língua portuguesa convivem há anos com dois sistemas de regras ortográficas: o lusitano, utilizado em Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor-Leste, e o brasileiro, em uso, obviamente, por nós, que vivemos cá, deste lado do Atlântico. Daí, a nova ortografia, pois o objetivo final dessa reforma é promover a unificação ortográfica, a fim de que todos os países que têm o português como idioma oficial possuam também um só conjunto de regras ortográficas, e não dois, como é atualmente. A justificativa dessa unificação é que o português, apesar de ser um dos idiomas mais falados do mundo, em razão da soma das populações de Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor-Leste, é politicamente inexpressivo. A unificação ortográfica iria fortalecer a língua portuguesa no mundo, como é o caso de idiomas como o espanhol, o árabe, o francês.

O argumento dos defensores da tal unificação ortográfica é inconsistente. O que tornou idiomas como o espanhol, o árabe, o francês e o inglês politicamente fortes e dominantes é o fato de que as pátrias-mães desses idiomas, ou seja, Espanha, Arábia, França e Inglaterra, terem sido nações fortes, dominadoras, que impuseram suas culturas e suas línguas por todos os seus domínios. O português é uma língua politicamente inexpressiva, porque, na era colonial, Portugal era um país politicamente inexpressivo.

De fato, a ortografia do espanhol, um idioma que, além de falado obviamente em seu país de origem, a Espanha, é utilizado também em praticamente toda a América Latina, bem como por uma parcela significativa de pessoas que vivem nos Estados Unidos, tem uma única ortografia. Mexicanos, argentinos, colombianos, espanhóis, uruguaios e nicaraguenses têm, cada um, suas peculiaridades no falar, isto é, falam diferente uns do outros, mas escrevem da mesma forma, o que demonstra o respeito que as ex-colônias espanholas tiveram e têm pelo idioma que herdaram, o que não ocorreu no Brasil. Nós sempre fomos rebeldes nessa parte. Tanto é assim, que todos os demais países de língua portuguesa, mesmo depois de se libertarem de Portugal, preservaram as regras ortográficas da antiga metrópole. Ao passo que nós, brasileiros, enveredamos por outros caminhos e criamos nossa própria ortografia. Agora queremos fazer o caminho de volta. Será que não é tarde demais?

É tão tarde que, quando se fala em unificação ortográfica, trata-se, na verdade, de uma unificação apenas legal. Isso significa que, se tudo der certo, se todos os países de língua portuguesa aderirem, teremos um só conjunto de regras ortográficas, mas, na prática, não haverá uma unificação real. Os portugueses continuarão escrevendo “génio”, “matiné”, “cómodo”, “facto”, enquanto nós, do lado de cá do Atlântico, continuaremos a escrever “gênio”, “matinê”, “cômodo”, “fato”.

A nova ortografia traz, sim, alguns avanços importantes, como o fim de certos acentos diferenciais que não tinham razão de ser; a eliminação do acento circunflexo em “vôo”, “crêem”, “vêem”. Por outro lado, traz também algumas incompreensíveis bobagens, como querer “uniformizar” a grafia de palavras como “hástia”, “véstia” e “cúmio”, e tentar “oficializar” formas de conjugação verbal, como “premeio”, “negoceio”, isso, sem falar na confusão que está causando na grafia de palavras unidas por hífen.

Como tem dito o conhecido professor Pasquale Cipro Neto, o custo dessa reforma ortográfica é muito alto para os poucos benefícios que ela pode gerar. Além disso, os portugueses, que serão bem mais atingidos por essa reforma do que nós, estão muito resistentes a essas mudanças na ortografia. Enquanto aqui no Brasil, apesar de críticas de intelectuais, escritores e outros setores da sociedade, não há nenhuma resistência à reforma ortográfica. Em Portugal, pelo contrário, que tem uma sociedade muito mais politizada, organizada e conservadora que a nossa, a forte resistência a essa unificação ortográfica pode fazer a diferença e, mesmo tendo o parlamento português aprovado a unificação, os lusitanos podem adiar indefinidamente a implantação da reforma e até nem a implantarem. Caso isso ocorra, é praticamente certo que Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste acompanharão a pátria-mãe e não implantarão também a tal reforma ortográfica. Se isso realmente vier a se concretizar, o que não é nada difícil, o Brasil vai ficar sozinho nessa aventura cara e, obviamente, vai ter de pagar a conta sozinho também.


quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Cuba - 50 anos socializando a miséria

No dia 1.º de janeiro de 1959, um grupo de algumas dezenas de homens, liderado por Fidel Castro, Camilo Cienfuegos e Ernesto “Che” Guevara, derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista, um sargento medíocre e semi-analfabeto, que, desde 1952, havia imposto um governo corrupto e tirano a Cuba. Foi a Revolução Cubana, que transformaria Cuba, um país que fica em uma ilha a pouco mais de 150 quilômetros da costa dos Estados Unidos, no único país comunista das Américas,

Cuba era uma colônia espanhola, mas os Estados Unidos demonstraram interesse pela Ilha. Entraram, então, em guerra contra a Espanha pelo domínio de Cuba e acabaram expulsando os espanhóis e governando a Ilha até 1902, quando Cuba se tornou independente. Independente em parte, pois o País passou a ser praticamente tutelado pelos Estados Unidos, que fez de Cuba uma espécie de neocolônia sua. Para se ter uma ideia da dimensão desse neocolonialismo, basta dizer que, em meados do século XX, mais de 70% das lavouras de cana-de-açúcar de Cuba estavam nas mãos de norte-americanos. Até a queda da ditadura de Fulgêncio Batista, em 1959, a ingerência política e econômica dos Estados Unidos na Ilha era muito forte.

Para desespero dos norte-americanos, essa situação mudou radicalmente, em 1.º de janeiro de 1959, com a Revolução Cubana, que transformou Cuba no único “satélite” do imperialismo soviético nas Américas. Assim como fazia com todos os demais países do Leste Europeu, Moscou trazia o governo cubano sob seu controle e ainda fornecia alimentos, petróleo e armamentos subsidiados ao governo de Fidel Castro. Ou seja, Cuba passou das mãos do Demônio para as de Satanás. Aliás, o país-satélite dos soviéticos que ousasse contrariar as orientações de Moscou sofreria sérias sanções do Kremlin. Hungria, em 1956, e Tchecoslováquia, em 1968, sentiram na pele a intransigência do imperialismo soviético a rebeldias e a ideias liberalizantes de seus “satélites”.

Cuba, depois da Revolução, teve alguns progressos sociais significativos na saúde, no esporte e na educação, uma educação direcionada, evidentemente, mas, em comparação com o que havia antes de Fidel chegar ao poder, já era algum avanço. Todos os cubanos adultos, hoje, sabem ler, mas só podem ler aquilo que o governo autorizar; todos os cubanos adultos, hoje, também saber escrever, desde que não escrevam nada contra o governo cubano ou contra o comunismo.

A exemplo do que havia antes da Revolução, continuaram, também, as perseguições, as prisões e as execuções. Não se sabe, com precisão, até hoje, quantos dissidentes o regime comunista cubano executou ao longo de sua existência. Há quem fale em 60 mil. Presume-se que ainda há muitos presos políticos em Cuba, assim como ainda há muita gente tentando fugir do País. Por causa disso é que, provavelmente, a pesca marinha em Cuba seja proibida, afinal de contas, os Estados Unidos ficam logo ali, a 150 quilômetros da costa cubana.

A verdade é que, hoje, depois que o Muro de Berlim foi derrubado, a União Soviética acabou, a China adotou um capitalismo ultrasselvagem, os países do Leste Europeu se democratizaram e adotaram a economia de mercado, inclusiva a Rússia, e o Vietnan, um antigo desafeto dos Estados Unidos, passou a ter os norte-americanos como seus maiores parceiros comercias, Cuba, que insistiu em manter-se até hoje na ortodoxia marxista, transformou-se num verdadeiro museu do socialismo utópico.

Como toda revolução, a cubana também criou um mito: o médico e aventureiro Ernesto “Che” Guevara, um argentino de classe média, que, por sua participação na Revolução Cubana, ganhou notoriedade e prestígio muito maiores que o próprio líder do movimento, Fidel Castro.

Ernestro “Che” Guevara foi mais um mito do que um herói ou vilão. Na verdade, sua atuação como guerrilheiro, com certo sucesso, restringiu-se apenas à Revolução Cubana. Na verdade, o grupo comandado por ele, Fidel Castro e Camilo Cienfuegos foi vitorioso mais por incompetência do próprio ditador Fulgêncio Batista do que pelos méritos dos guerrilheiros. No final de 1958, Batista estava praticamente isolado, sem apoio. Seu exército recusava-se a sair dos quartéis para combater a guerrilha de Fidel. Além disso, já não possuía mais o apoio dos Estados Unidos.

Depois da vitória da Revolução, “Che” foi ser presidente do Banco Nacional de Cuba e, em seguida, ministro da Indústria. Foi um fracasso nos dois cargos. Seu único feito, nessa época, foi comandar a reação do exército de Fidel à frustrada tentativa dos Estados Unidos de invadir Cuba, pela baia dos Porcos, a fim de derrubar os revolucionários cubanos. Sua duas tentativas seguintes de voltar à guerrilha revolucionária foram um fracasso, tanto no Congo como na Bolívia, onde ele morreu, em 09 de outubro de1967, em La Higuera, executado por Mario Terán, um tenente do exército boliviano. Fidel castro, então, se transformou naquele tipo de mito que, se não é amado, é odiado.

Muita gente culpa o bloqueio econômico que os Estados Unidos impõem a Cuba, há quase cinquenta anos, pela atual situação de penúria em que vive o país de Fidel Castro hoje. Apesar de haver já um comércio informal de cerca de US$500 milhões por ano entre Estados Unidos e Cuba, não há dúvida de que ficar privado de negociar com a maior economia do mundo pode afetar muito a vida da população da Ilha. No entanto, o próprio governo cubano não tem feito sua parte para mudar isso. A saída de cena de Fildel Castro, substituído por seu irmão, Raul Castro, trouxe alguma expectativa de mudanças e de abertura no País, mas liberar uso de celulares e de computadores é muito pouco para mostrar aos Estados Unidos e ao resto do mundo que Cuba está mudando, está se abrindo para o mundo moderno, para o século XXI. Enquanto o governo cubano teimar em continuar inflexível na velha ortodoxia socialista e não iniciar logo um processo de democratização do seu país, dificilmente haverá boa vontade do governo dos Estados Unidos, seja ele democrata ou republicano, para abrir suas portas para Cuba. Enquanto isso os cubanos vão continuar se privando de bem de consumo básicos, ganhando salários baixo. Ou seja, Cuba continuará socializando somente a miséria.

Para saber mais um pouco sobre Cuba hoje, leia uma interessante matéria apresentada pelo portal G!. Reportagem do portal esteve em Cuba e conta como é a vida naquele país hoje. Vale a pena ler. Para ler a matéria, clique AQUI.

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Este texto foi elaborado já com base na nova ortografia da língua português, vigente a partir desta data


quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Pereira Barreto em 1968

Como devia ser a vida em Pereira Barreto em 1968?


Falei aqui, em postagem anterior, sobre o ano de 1968. Agora, quero falar sobre como foi esse mesmo ano aqui em minha cidade, em Pereira Barreto. Como era Pereira Barreto em 1968, justamente no ano do “Maio de 68” da França, dos festivais de música, do AI-5. Tudo isso a gente já sabe. Mas como era viver em Pereira Barreto em 1968?

Em 1968, Pereira Barreto era muito diferente do que é hoje. A cidade era bem menor. A sociedade local da época era dominada por uma dúzia de famílias tradicionais. Se bem que, já naquele ano, devido ao início da construção da usina hidrelétrica de Ilha Solteira e à chegada, na região, de trabalhadores para a construção da obra, esse quadro já começava a apresentar alguns discretos sinais de mudança, pois Pereira Barreto passaria por profundas transformações, principalmente no início dos anos 70. Em decorrência desses migrantes que vieram trabalhar direta e indiretamente na construção da usina de Ilha Solteira e, mais tarde, na de Três Irmãos, provavelmente mais de 70% da população da cidade, hoje, é composta por pessoas, entre ascendentes e descendentes, que aqui chegaram depois de 1970. Isso, talvez, explique um pouco a quase inexistência de vínculos da atual população pereira-barretense com o passado histórico e com os pioneiros habitantes da cidade.

Em 1968, Pereira Barreto era uma cidade bem provinciana ainda, aquela típica cidadezinha do interior mesmo, dominada por um grupo pequeno de famílias tradicionais e de imigrantes e seus descendentes, principalmente de origem japonesa. Naquele tempo, o número de japoneses e de seus descendentes em Pereira Barreto era bem maior do que hoje. A debandada de descendentes de japoneses fazendo o caminho de volta de seus pais e avós, indo trabalhar no Japão, principalmente nos anos 90, foi a principal causa desse encolhimento no tamanho da colônia nipônica local.

Vejamos a seguir alguns aspectos da vida pereira-barretense em 1968.

- O meio de comunicação mais usado, naquela época, ainda era o rádio. A TV já existia aqui, mas, por ser ainda caro, poucas famílias tinham um receptor, que era em preto-e-branco e pegava, de forma precária, a TV Tupi de São Paulo e, de forma mais precária ainda, a TV Record. As imagens vinham das retransmissoras de Araçatuba e Machado de Melo. Só em 1969 é que a cidade foi ter a sua primeira estação retransmissora de TV local, instalada no alto da caíxa d’água do Serviço Autônomo de Água. Naquele ano distante, não havia parabólica, TVs por assinaturas, videocassete nem DVD.

• O telefone, em 1968, ainda era manual. Mesmo para ligações locais, havia necessidade de auxílio de telefonista. Os números dos telefones da cidade tinham só três dígitos. Lembro-me de que o da casa comercial de meu avô, na época, era 185. Não havia DDD, nem DDI. Uma ligação interurbana podia demorar horas para ser completada e a qualidade era quase sempre ruim. As pessoas daqueles tempos heróicos tinham que falar com o seu interlocutor às vezes aos berros para serem ouvidas do outro lado da linha. Nem se pensava, ainda, em telefone celular. Aliás, ter um telefone naquela época era um privilégio de poucos. Outro meio de comunicação muito usado na época era o telégrafo, para troca de informações curtas, objetivas e que exigissem certa urgência, Era um sistema que utilizava o Código Morse. Naquele tempo, ainda não havia sido criada a ECT. Por isso, o serviço de telegrafia era prestado por empresa desvinculada dos Correios.

• A semana útil, em 1968, durava seis dias, e não cinco, como hoje. É que, naquela tempo, o sábado era considerado praticamente um dia normal de trabalho, pois o comércio funcionava o dia todo, até às 18 horas. Não havia ainda a chamada “Semana inglesa”. As repartições públicas tinham expediente até o meio-dia. O expediente bancário, em 1968, era de segunda a sexta, das 9h às 11h e das 13h às 17h. Mesmo aos sábados os bancários trabalhavam internamente, pois não podemos nos esquecer de que, naquele tempo, era tudo manual, tudo escriturado em livros e fichas. Não havia computadores. A compensação de um cheque e de uma ordem de pagamento para uma conta em outra cidade, por exemplo, demoravam dias, até semanas, para serem efetuadas. Aos domingos, no entanto, com exceção de bares, lanchonetes, sorveterias e restaurantes, praticamente nenhum estabelecimento comercial abria suas portas. Quem precisasse de alguma coisa de emergência, tinha de pedir a um comerciante amigo que fizesse a vendo pelos fundos do estabelecimento, quando possível. Só a partir de 1970 é que, em decorrência do enorme movimento de migrantes de outros pontos do País, que vieram para esta região trabalhar nas obras da construção de Ilha Solteira, é que houve um período em que boa parte do comércio abria suas portas aos domingos até o meio-dia.

• Naquele tempo não havia ainda supermercados em Pereira Barreto. O que havia eram mercearias, uma delas, inclusive, era a Casa Portuguesa, que, alguns anos depois, se transformou no atual Supermercado Proença, cujo prédio se localiza no mesmo local onde funcionava a antiga mercearia. O primeiro supermercado só começou a funcionar aqui por volta de 1970. Era o Supermercado Tem Tudo, de propriedade da família Milanezi, e se localizava onde hoje funciona a loja Luamar Móveis. Ele tinha quase o tamanho de um minimercado atual, um “mercadinho”. No entanto, era uma novidade para a época em nossa cidade. Afinal de contas, o cliente mesmo escolhia e pegava as mercadorias.

• Como televisão, em 1968, ainda era um bem acessível a uns poucos privilegiados e, mesmo assim, a qualidade da recepção era ruim, a vida noturna de Pereira Barreto era bem mais agitada, principalmente nos finais de semana. Havia bailes no CAP e no ACEP, Aliás, naquela época, o CAP só podia ser freqüentado por sócios ou convidados. Aliás, para ser sócio do CAP havia toda uma formalidade. O nome do candidato, como é de praxe, tinha de passar pelo crivo da diretoria, mas, devido ao conservadorismo da sociedade daquela época, a seleção era bem mais rigorosa que hoje. Para ir a um baile naquela época, havia necessidade de saber o traje exigido. Podia ser esporte fino, passeio ou traje a rigor, que exigia o uso de paletó e gravata. O mesmo se deve dizer também em relação ao ACEP, que é um clube cujo quadro de associados sempre foi mais restrito à colônia japonesa. Além disso, naquele tempo circos e parques de diversão eram atrações mais freqüentes em cidades do interior.

• A Praça da Bandeira era o local do footing das moças e dos rapazes da época. O Cine Itapura, com sessões diárias, inclusive com matinês aos domingos à tarde, era uma das diversões preferidas dos pereira-barretenses daquela época. Mas o ponto de encontro preferido dos jovens daquele tempo era o saudoso Tropical Bar, que se localizava onde existe hoje a galeria New Center.

• O prefeito de Pereira Barreto, em 1968, era Leo Liedtke Junior. Naquele tempo, a Câmara Municipal era composta por treze vereadores, que não recebiam nenhuma remuneração financeira por suas atividades legislativas. Mas isso não significava que o cargo de vereador fosse desinteressante. As disputas para uma cadeira na Câmara na época eram tão acirradas quanto hoje.

• A propósito, 1968 foi ano de eleição em Pereira Barreto. Os candidatos a prefeito na época foram Ernesto Trentin, da ARENA 1, o "positivo", Antônio Gomes da Silva, da ARENA 2, o "barra limpa", e o polêmico Lourival da Silva Louzada, do MDB, que não tinha nenhum símbolo para a sua campanha, mas muita gente, como chacota, dizia que ele era o "barra pesada". O vencedor foi Ernestro Trentin, que tinha o apoio do então prefeito Léo Liedtke Júnior, e tomou posso em 1.º de fevereiro de 1969.

• Naquela época, ainda havia por aqui muitas plantações de algodão. Muita gente, então, principalmente estudantes das escolas da cidade, aproveitava para ganhar um dinheirinho extra com a colheita. O algodão colhido nas lavouras de Pereira Barreto, naquela época, beneficiado aqui mesmo, pela Anderson Clayton e pela Cooperativa Agrícola da Fazenda Tietê, era de enorme importância econômica para o Município.

• Pereira Barreto tinha dois problemas sérios naquele tempo: energia elétrica e abastecimento de água. Á água distribuída na cidade naquela época, retirada de poços artesianos, possuía uma quantidade excessiva de fluor, o que fez com que muita gente, principalmente crianças daquela época, adquirisse fluorose. Além disso, era uma água salobra, com um gosto muito ruim. Quanto à energia elétrica, os cortes no seu fornecimento, que eram de responsabilidade da Companhia Paulista de Força e Luz, então estatal, eram freqüentes. Naquele tempo, as grandes hidrelétricas ainda não estavam prontas. A energia de Pereira Barreto vinha de uma pequena usina geradora em Itapura, que já não existe mais. A energia aqui, então, além de ser fraca, sofria cortes constantes.

Para a história de Pereira Barreto, foi um ano importante. Foi em 1968 que começou a construção da usina hidrelétrica de Ilha Solteira, o que veio a mudar radicalmente a vida social, cultural e econômica de Pereira Barreto, principalmente a partir de 1970.

A propósito disso, muita gente costuma afirmar, hoje, que o prefeito da época, Léo Liedtke Junior, errou em não permitir ou em não lutar para que o que é hoje a cidade de Ilha Solteira fosse construído aqui em Pereira Barreto e que, se isso tivesse sido feito, Pereira Barreto, hoje, seria uma grande cidade. A afirmação é um enorme disparate, fruto de uma dose de ingenuidade e de desinformação histórica.

O
aglomerado urbano que é hoje a cidade de Ilha Solteira nunca seria construído aqui em Pereira Barreto, mesmo que o prefeito quisesse. São várias as razões para isso. Se não, vejamos.

O canteiro de obra de Ilha Solteira ficava a mais de quarenta quilômetros de nossa cidade. Se, mesmo a quarenta quilômetros de distância, todos os trabalhadores da usina hidrelétrica de Ilha Solteira tivessem vindo morar em Pereira Barreto, a CESP dificilmente teria investido aqui na construção da mesma infra-estrutura que implantou em Ilha Solteira. Afinal, Pereira Barreto já tinha, pelo menos em tese, toda infra-estrutura básica necessária, como hospital, médicos, lojas, restaurantes, etc., para abrigar os trabalhadores e suas famílias. Uma prova disso foi na época da construção da usina hidrelétrica de Três Irmãos, ocasião em que não foi construído nenhum núcleo urbano para abrigar os trabalhadores da obra, que passaram a residir e viver, em sua maioria, em Pereira Barreto, sem que isso trouxesse nada de relevante que contribuísse para o crescimento urbano da cidade.

Há, também, uma informação curiosa, que me foi passada por gente da época, segundo a qual, a maioria das terras onde está situada hoje a cidade de Ilha Solteira pertencia a pessoas com o sobrenome Junqeira, e o presidente da CESP, então, se chamaria Guilherme Junqueira, Coincidência apenas? Obviamente que seria uma leviandade afirmar hoje que, em razão disso, tanha havido qualquer tipo de benefício ou coisa desse tipo. Mas não deixa de ser um detalhe curioso, que não pode ser desprezado.

Outro detalhe importante, que pouca gente conhece hoje: naquele tempo havia, em Pereira Barreto, um preconceito muito forte contra os chamados “barrageiros”. As famílias tradicionais da cidade consideravam a maioria desse pessoal que vinha de fora para trabalhar nas obras de Ilha Solteira gente ”sem eira nem beira”, desqualificados, gente perigosa, em quem não se poderia confiar. Conta-se até que o então prefeito Léo Liedtke Junior guardou por muito tempo um abaixo-assinado a ele dirigido, firmado por ilustres pereira-barretenses da época, pedindo-lhe que não permitisse que nossa cidade abrigasse os “barrageiros” de Ilha Solteira, para que não houvesse riscos de que eles viessem a “desonrar” as dignas famílias da cidade. O prefeito teria ignorado a reivindicação e engavetado o documento.

Estes são alguns aspectos de Pereira Barreto em 1968 dos quais me recordo. Claro que pode haver outros. Você, leitor, se se lembrar de mais fatos ou coisas curiosas referente àquele ano em nossa cidade, pode postar na parte de comentários, logo abaixo, ou enviar pelo endereço gilmargrespan@gmail.com, que vou publicar aqui, desde que você se identifique, é claro.

domingo, 14 de dezembro de 2008

1968 - o ano que virou História

Na história recente do Brasil e da humanidade, 1968 foi um ano diferente de todos os que o antecederam e, também, de todos os que o sucederam. Não foi um ano de mudanças, mas foi um ano que fez o mundo mudar. Como diz o sugestivo título do famoso livro de Zuenir Ventura, 1968 foi o ano que não terminou. Ele só terminou no calendário. Na memória dos que o viveram, ele continua até hoje. 

O mundo, em 1968, era bem diferente dos tempos atuais. Não havia ainda muita tecnologia, mas havia magia. Enquanto estudantes e operários franceses faziam seus protestos pelas ruas de Paris, no que ficou conhecido como “Maio de 68”, a Tchecoslováquia tentava, sob a liderança de Alexander Dubcek, se libertar do jugo do imperialismo de Moscou e criar uma sociedade mais democrática. Em represália a essa rebeldia, o exército soviético invadiu a Tchecoslováquia e massacrou o movimento liberal daquele país, que ficou conhecido como “Primavera de Praga”.

Em 1968, a Guerra do Vietnã estava em seu auge, gerando protestos nos Estados Unidos e em outros países do mundo. Foi o ano, também, da morte do pacifista e pastor protestante Martin Luther King e do senador Robert Kennedy, ambos norte-americanos, ambos assassinados. O ano de 1968 também foi declarado como “Ano Internacional dos Direitos Humanos”. 

No Brasil, a morte, pela polícia, no Rio de Janeiro, de um estudante secundarista, chamado Edson Luís de Lima Souto, de 16 anos, durante um protesto contra a alimentação servida pelo restaurante estudantil Calabouços. Foi um dos estopins que fizeram com que os estudantes, setores da Igreja Católica Romana e da classe média começassem a se mobilizar contra a ditadura militar. No dia 26 de junho, realizou-se a histórica “Passeata dos Cem Mil”, na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Em 03 de setembro, o jornalista e deputado federal Márcio Moreira Alves, do MDB carioca, fez um discurso na tribuna da Câmara dos Deputados criticando a ditadura, no qual ele ironiziou os militares, pedindo para as mães de moças não permitirem que suas filhas namorassem cadetes. Esse discurso do deputado irrita os generais, que tentam, pelas vias legais, processar o deputado, alegando ofensa às Forças Armadas. No entanto, a Câmara, numa decisão histórica, nega autorização para que o Supremo Tribunal Federal processe Márcio Moreira Alves. Foi a gora d’água para que o presidente da República, o General Costa e Silva, reunisse o então famigerado Conselho de Segurança Nacional, na tarde-noite do dia 13 de dezembro, no Palácio Laranjeiras, no Rio de Janeiro e decretasse o Ato Institucional n.º 5, o AI-5, que dava poderes praticamente ilimitados ao presidente da República, dando início ao período mais fechado e violento da ditadura militar no Brasil.

Mas 1968 não foi um ano só de protestos, de arbitrariedades, de violência. Apesar de toda repressão, foi um ano marcante para a cultura, principalmente para a música. Foi a época dos grandes festivais da TV Record e do Festival Internacional da Canção, promovido pela então recém-nascida Rede Globo de Televisão. Foi um ano de efervescência cultural no Brasil e no mundo. Era época do movimento hippie, da contracultura, do surgimento da Tropicália, um movimento que iria mudar radicalmente a música brasileira, cujo ponto de partida oficial foi o lançamento, com show, em São Paulo, do disco (LP, na época) “Tropicália ou Panis et Circensis”, em 12 de agosto de 1968, com a participação de Caetano Veloso Gilberto Gil e convidados. 

Um fato que ficou gravado na história cultural brasileira, ocorreu em 28 de setembro de 1968, no III Festival Internacional da Canção, da Globo, em São Paulo, no Teatro da Universidade Católica, Acompanhado pelo conjunto Os Mutantes, Caetano Veloso apresentou a música “É proibido proibir”. Os Mutantes mal começaram a tocar a introdução da música, e a platéia já atirava ovos, tomates e pedaços de madeira contra o palco. O provocativo Caetano apareceu vestido com roupas de plástico brilhante e colares exóticos. Entrou em cena rebolando, fazendo uma dança erótica que simulava os movimentos de uma relação sexual. Escandalizada, a platéia deu as costas para o palco. A resposta dos Mutantes foi imediata: sem parar de tocar, viraram as costas para o público. Gilberto Gil, que também participava, foi atingido na perna por um pedaço de madeira, mas não se rendeu. Em tom de deboche, mordeu um dos tomates jogados ao chão e devolveu o resto à irada platéia. Caetano fez um longo e inflamado discurso que quase não se podia ouvir, tamanho era o barulho dentro do teatro. 

Em 1968, o movimento da Jovem Guarda estava já em decadência, mas a sua estrela maior, Roberto Carlos, sobreviveu. Naquele ano mesmo, venceu um festival na Itália, o de San Remo, e, finda a Jovem Guarda, tornou-se o mais popular cantor romântico do País. Sem engajamento político, Roberto Carlos e a elite politizada da época ignoravam-se mutuamente. Sua única obra “levemente subversiva” foi uma música, lançada no início dos anos 70, em homenagem a Caetano Veloso, que se encontrava exilado em Londres, chamada “Debaixo dos caracóis de seus cabelos”.

Ouvir música, naquele tempo, era bem diferente. Não havia CD, nem DVD, nem MP3, nem as já superadas fitas cassetes ainda existiam. As músicas eram gravadas em discos de vinil, isto é, em LPs (Long Plays) e em discos compactos, que eram menores e traziam somente duas músicas, compacto simples, ou quatro músicas, compacto duplo. Para gravadoras, autores e cantores, a vantagem daquela época era que, como a tecnica para produzir esses discos era complexa e cara, a pirataria era preticamente impossível de existir, como hoje acontece, infelizmente, com os CDs e DVDs. A desvantagem é que, como os discos de vinil eram caros, a maior parte da população não podia comprá-los. O jeito, para esse segmento, era ouvir as músicas de seus cantores preferidos pelo rádio. Havia, então, os programas de musicais de grande sucesso, nas principais emissoras do Rio e de São Paulo, que, por ondas curtas, chagavam praticamente a todo o Brasil. O rádio ainda era a principal fonte de informação da maioria absoluta da população em 1968. A televisão ainda tinha pouca abrangência naquele tempo. Por isso, o sucesso de uma determinada canção não era medido somente pela quantidade de discos que vendia, mas, e principalmente, pelo número de vezes que ela era tocada no rádio. Claro que, naquele tempo, já existia o famoso “jabá”, mas isso é outra história.

Segundo o site do radialista Beto Brito, da Rádio Globo (www.betobrito.com.br), as músicas que faziam mais sucesso em 1968 eram: Hey Jude – Beatles, Viola Enluarada - Marcos Valle & Milton Nascimento (destaque no Festival de MPB da TV Record), Baby - Gal Costa, Sá Marina - Wilson Simonal, Love Is Blue - Paul Mauriat e sua orquestra, Light My Fire - Jose Feliciano, Se Você Pensa - Roberto Carlos (que já iniciava sua fase mais romântica), MacArthur Park - Richard Harris, Pata Pata - Miriam Makeba, Tenho Um Amor Melhor Que o Seu - Antonio Marcos, Última Canção - Paulo Sergio, Sou Louca Por Você – Elizabeth, San Francisco (Be Sure To Wear Flowers In Your Hair) - Scott McKenzie, Mrs. Robinson - Simon & Garfunkel, A Chuva Que Cai - Os Caçulas, The Rain, The Park And Other Things – Cowsills, Do You Want To Dance - Johnny Rivers, Só o Ôme - Noriel Vilela, Segura Esse Samba Ogunhé - Osvaldo Nunes.

Naquele tempo, apesar da efervescência musical, havia muita música direcionada ao chamado "povão", como as do iniciante Paulo Sérgio, de Aguinaldo Timóteo, de Elizabeth e muitos outros, mas não havia espaço para a música sertaneja, como acontece hoje. A música sertaneja era vista com certo preconceitos, mesmo pelas classes C e D da época. Ela era direcionada a um público específico, que habitava, principalmente, o interior de Goiás, Matro Grosso, Minas Gerais, São Paulo e Paraná. Se bem que aqui estou falando de música sertaja típica mesmo, de raiz. Essa música psudo-sertaneja de hoje, cantada por Zezé de Camargo e Luciano, Bruno e Marrone, Victor e Leo e outros, que, na realiadade, está mais para música suburbana do que para sertaneja, ainda não existia.

Assim como a música, o teatro também vivia dias de novos ares em 1968. No entanto, a radicalização política não perdoava, também, as artes cênicas. No dia 16 de janeiro, estreou, no Rio de Janeiro, a peça “Roda Viva”, de Chico Buarque de Holanda, dirigida por José Celso Martinez Corrêa. No entanto, quando se apresentavam em São Paulo, no Teatro Ruth Escobar, no dia 18 de julho, os integrantes da peça foram agredidos fisicamente por um grupo pertencente a um tal CCC (Comando de Caça aos Comunistas).

No cinema, 1968 marca o início da 3.ª fase do chamado “Cinema Novo”, cujo marco principal foi o filme Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade. No entanto, a repressão política foi particularmente cruel com o cinema naquele período. Mas alguns ficaram na história, como O Bandido da Luz Vermelha,
O Homem Nu, As Amorosas, Panca de Valente, Lance Maior e outros. 

Na Medicina, o Brasil dava um importante passo. Em 1968, foi realizado o primeiro transplante de coração no Brasil, Em 26 de maio daquele ano, no Hospital das Clínicas de São Paulo. O Dr. Euryclides de Jesus Zerbini, ganharia notoriedade ao colocar o coração de um jovem morto em um acidente no peito de João Ferreira da Cunha, um agricultor conhecido como “João Boiadeiro”. Apesar de a cirurgia ter se tornado um marco histórico, João Ferreira Cunha sobreviveu por apenas 18 dias depois do transplante. Naquela época, ainda não se sabia contornar o grande entrave dos transplantes de órgãos, a rejeição.

Como seria viver em 1968?

Se fosse possível e você decidisse viajar no tempo para viver em 1968, certamente estranharia muito o modo de vida daquela época. Para um típico cidadão do início do século XXI, não seria nada fácil viver em 1968. Uma coisa é a gente ler sobre uma determinada época, saber sobre ela, ver um filme ou uma novela que se passa naquela época; outra coisa é viver nessa época. 

Em 1968, o mundo, obviamente, era bem diferente de hoje, ou seja, muito mais atrasado. Não havia telefonia celular, que só chegou no Brasil no início da década de 90. Fazer uma ligação telefônica interurbana era um exercício de perseverança e paciência naquela época. Muitas cidades ainda tinham sistema de telefonia manual e precário. Não havia DDD. Havia necessidade de pedir a ligação para uma telefonista e, às vezes, esperar por horas. Outro meio de comunicação muito usado na época era o telegrama. A televisão ainda era em preto-e-branco e tinha, naquele tempo, pouca abrangência, pois não havia satélites domésticos disponíveis e nem um sistema de retransmissão via microondas. Muitas regiões brasileiras só foram receber os primeiros sinais de TV em meados da década de 70. Em 68, o rádio ainda era o grande meio de comunicação de massa do Brasil. A TV em cores só surgiu no Brasil em 1972. 

A informática ainda estava engatinhando. Não havia computadores pessoais. Para se ter uma idéia do atraso daquele ano, esse computador que você está utilizando agora para ler este texto, seja ele qual for, é milhões e milhões de vezes mais poderoso do que o mais avançado e robusto computador do Departamento de Defesa dos Estados Unidos em 1968. A Internet era só um embrião nos Estados Unidos, de uso exclusivamente militar, e se chamava, na época, Arpanet. Era um sistema tão rudimentar, que nada tem a ver com a Internet de hoje. 

Os carros mais usados em 1968 eram o Aero Willis, o DKV, o Galaxie, o Itamaraty, o Karmann Ghia, o Fusca e o lançamento do ano, o Opala. Em comparação com as modernas máquinas de hoje, esses carros eram verdadeiras “carroças motorizadas”.

Por mais que 1968 faça a gente sentir uma forte vontade de reviver aqueles tempos loucos e rebeldes, dos festivais, da contracultura, dos Beatles, você gostaria de viver num tempo em que não havia forno de microondas, telefone celular, antena parabólica, TV por assinatura, computador, Internet? Acredito que não. Ou viveria?