Hoje vou falar um pouco da política local, de minha cidade, Pereira Barreto.
É fato conhecido que o atual prefeito, Arnaldo Enomoto, foi eleito com uma larga votação. É fato conhecido, também, que, numa daquelas demonstrações de incoerência do eleitor, a maioria absoluta dos vereadores eleitos pertence à oposição. O próprio partido de Arnaldo (PSDB) não elegeu sequer um vereador. É fato, igualemnte conhecido, que o atual prefeito e sua equipe não tiveram habilidade política suficiente para atrair para o seu lado alguns dos vereadores eleitos.
Arnaldo tem feito uma administração bastante discreta, o que não significa uma administração ruim, mas apagada politicamente. Isso o torna mais vulnerável ainda ao eventual desejo da maioria do Legislativo local de cortar-lhe a cabeça. Isso é normal. Faz parte do jogo político. Por essa razão, se o nosso prefeito não mudar um pouco sua postura, se não abrir mais as portas do seu gabinete, se não buscar o apoio e a simpatia dos seus mais de oito mil eleitores, corre um sério risco de ter, de fato, sua cabeça cortada por uma câmera de vereadores que, em sua maioria, não lhe é nada amistosa politicamente, que é o papel da oposição num regime democrático.
É assim que funciona a política, em todos os níveis, dentro de uma democracia. Se o chefe do Executivo não tem maioria no parlamento, ele tem de tentar obter essa maioria com diálogo e entendimento politicamente saudáveis ou, então, buscar sustentação no povo que o elegeu. O apoio popular, que tem de ser conseguido com atos administrativos que atendam aos anseios da população, e não com demagogia, clientelismo nem populismo barato, não irá blindá-lo totalmente de um parlamento hostil, mas pode fazer com que as coisas se tornem mais fáceis.
A História brasileira recente tem alguns exemplos de presidentes da República que, por não manterem um diálogo mais afável com o Legislativo, não conseguiram terminar seus mandatos. Jânio Quadro, eleito em 1960, com, até então, a maior votação de todos os tempos para um presidente da República, mais de 6 milhões de votos, é, a meu ver, o exemplo mais clássico. Com seu jeito excêntrico de governar, Jânio enfrentou um Congresso Nacional, eleito em 1958, que não lhe dava apoio. Renunciou ao mandato de forma teatral, afirmando que "forças terríveis" conspiravam contra seu governo. Achou que voltaria ao poder "nos braços do povo". Enganou-se. O mesmo povo que o elegeu maciçamente alguns meses antes virou-lhe as costas depois.
Há que se esclarecer, finalmente, que o caso de Arnaldo Enomoto não pode ser comparado com o de Jorge Tanaka. Enomoto teve uma ampla e histórica votação, o que não ocorreu com Tanaka. É esse o grande trunfo que o atual prefeito tem nas mãos. Ainda dá tempo de usá-lo a seu favor. Repito: ainda.

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