sábado, 7 de março de 2009

O arcebispo que deu um tiro certeiro no pé da Igreja Católica


D. José Cardoso Sobrinho,
Arcebispo de Olinda e Recife (PE).


Sobre a postura do bispo de Olinda e Recife, d. José Cardoso Sobrinho, eu reproduzo abaixo o belo texto de autoria Régis Bonvicino, especial para o portal Último Segundo, publicadno nesta sexta-feira, dia 06 de março de 2009. Tomo a liberdade, com todo respeito, de fazerem também minhas as palavras do autos do texto abaixo. Parabéns a Régis Bonvicino. Ele escreve frequentemente par o Últmo Segundo, portal de notícias do provedor IG.
Basta de bispos nazistas!

A excomunhão latae sententiae dos médicos e da mãe da menina, de nove anos, da cidade de Alagoinhas, Pernambuco, que abortou legalmente gêmeos provenientes de um estupro praticado pelo padastro, constitui-se – em tese – em crime de injúria, cometido pelo arcebispo José Cardoso Sobrinho contra eles. Excomungar quer dizer expulsar, maldizer, exorcizar, esconjurar. O arcebispo atingiu a dignidade e o decoro da mãe e dos médicos, atribuindo-lhes qualidades negativas, e, por tabela, a menina.

No caso, José Cardoso Sobrinho ofende a honra subjetiva ao maldizê-los, ao reprová-los, por um ato autorizado pela justiça. O direito canônico não é cogente, não é obrigatório, como as leis aprovadas pelo Congresso Nacional. O arcebispo transgrediu, em tese, também, o Estatuto da Criança e do Adolescente, precisamente seus artigos 4º e 5º. É seu dever assegurar a saúde da menina de Alagoinhas e sua dignidade, aviltadas com o estupro e a gravidez, que a fazia correr risco de vida. Não se pode praticar um ato violento como a excomunhão da mãe, que afeta indiretamente a menina.

O direito canônico é direito sem caráter público e a igreja católica não está acima das leis. O arcebispo – como qualquer cidadão – tem o direito de manifestar seu pensamento, no entanto, não o de esconjurar publicamente a mãe – pobre e numa situação complexa – de uma criança estuprada. O Brasil é uma república, laica, e sua Constituição prevê a liberdade de crença, o que implica realçar seu sentido pessoal e não público. O arcebispo poderia ter condenado genericamente o aborto, quando soube do fato, mas, não exorcizado a mãe e os médicos. José Luis Zapatero aprovou lei, na Espanha, que proíbe crucifixos em repartições públicas. A laicidade do Estado não é, como afirma Emile Poulat, uma “realidade complicada” – ao contrário, a república é conquista diária e da qual não se pode abrir mão.

A igreja católica, embora obsoleta, é utópica, apocalíptica em suas ações. O papa assemelha-se a um George Walker Bush de batina suntuosa, ao proclamar a excepcionalidade de sua crença. A fé é irracional, todavia, o cidadão José Cardoso Sobrinho não pode, como qualquer outro, descumprir as leis de seu país, com atos, que beiram – creio – à loucura.

Sobrinho fala do “holocausto” do aborto no mundo, mas o Vaticano não tem política sustentável para a vida – apenas palavras dogmáticas lançadas ao vento. Assiste, como já frisei em outra coluna, impassível a três guerras e a vários genocídios, aliás, especialidade da igreja católica, que exterminou os indígenas hispano-americanos e os negros, ao apoiar a escravidão, na época dos descobrimentos.

Basta de bispos nazistas! Basta de bispos desafeitos à sociedade contemporânea. Como diz o extraordinário poeta Oswald de Andrade (1890-1954), fundador do modernismo brasileiro, em seu Manifesto Antropófago, de 1928: “Contra todas as catequeses” e, ainda, “Contra o Padre Vieira. Autor de nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão”.
Fonte: portal ÚLTIMO SEGUNDO - Texto original disponível no endereço:
http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/regis_bonvicino/2009/03/06/basta+de+bispos+nazistas+4578908.html

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